Fraudes académicas e outros embustes


canudo

No espaço de poucos dias, surgiram dois novos casos de fraude académica, um clássico da vida política nacional. Primeiro foi Rui Roque, adjunto de António Costa, que apesar de não ter concluído o curso na FCTUC, não se alarmou ao ver uma nota curricular fraudulenta ser publicada no Diário da República. A cereja no topo do bolo foram as declarações prestadas ao Observador:

Os dados constantes na minha nota curricular de nomeação baseiam-se nas informações prestadas pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra datadas de outubro de 2009. Quando confrontado pelas vossas questões, eu próprio solicitei mais esclarecimentos da mesma instituição. Como ainda não obtive resposta, nada mais tenho a acrescentar.

Como diria Ricardo Araújo Pereira, isto é “mangar com a tropa”. Mas, honra lhe seja feita, teve a dignidade de apresentar a sua demissão, poucas horas após ter sido revelado o embuste. Miguel Relvas não teria feito melhor. 

O segundo caso diz respeito a Nuno Félix, chefe de gabinete do Secretário de Estado do Desporto e Juventude, que inventou não uma, mas duas licenciaturas. Uma dupla relvice. Porém, e à semelhança de Rui Roque, Nuno Félix foi rápido a apresentar a sua demissão.

Contudo, existem outros contornos deste caso que são dignos de registo. O primeiro diz respeito a uma publicação no Facebook de Nuno Félix, oportunamente recuperada por Carlos Abreu Amorim, que vale bem a pena ser partilhada. Palavras para quê? Cuspiu para o ar e levou com a bisga na mona, outro clássico da vida política nacional.

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O segundo é mais um daqueles casos de manipulação da opinião pública, com a chancela do Observador, que mentiu sobre as declarações do ex-Secretário de Estado do Desporto e Juventude, João Wengorovius Meneses, alegando que o ministro Brandão Rodrigues tinha conhecimento do caso, que de resto teria sido um dos motivos que levou ao pedido de demissão de Wengorovius. Porém, em declarações à TSF, o ex-secretário de Estado afirma que esta questão não foi decisiva para a sua saída e que não a comunicou formalmente ao ministro, acrescentando ainda que não sabia se o ministro tinha ou não conhecimento do embuste, algo que de resto foi reiterado por Tiago Brandão Rodrigues. O truque, como vem sendo habitual por cá, foi desmontado pela página Os Truques da imprensa portuguesa. No ar fica a dúvida sobre as motivações do Observador em manipular esta questão.

O terceiro diz respeito à postura moralista assumida por alguns mestres do spin da extinta Pàf. O caso de Carlos Abreu Amorim é ilustrativo de uma direita que, parafraseando Catarina Martins, “não tem créditos” para pedir a demissão do ministro da Educação. Se há alguém que foi protegido, por longos e penosos meses, foi Miguel Relvas. E se vamos falar em mentiras, que dizer das cadeiras de Teorias Políticas Contemporâneas I e II, retiradas do plano curricular pouco antes de Relvas ingressar no curso de Ciência Política e Relações Internacionais, mas que, ainda assim, constavam do certificado de habilitações de Miguel Relvas?

Não obstante, e independentemente da rapidez com que Rui Roque e Nuno Félix apresentaram a sua demissão, é muito triste notar que, em matéria de boys, embustes e falta de rigor, Portugal continua a ser o terceiro mundo da Europa. Um país onde os call centers estão repletos de jovens licenciados, os que resistiram à emigração, ao passo que as autarquias, as empresas públicas, os organismos estatais e sucessivos governos são autênticos albergues de boys e abanadores de bandeiras, capazes de quase tudo, incluindo mentir sobre as suas habilitações, sem que existam mecanismos eficientes para controlar esta pouca vergonha, que se perpetua. E isso reflecte-se na gestão medíocre que tem empurrado este país para o abismo.

Foto@Notícias ao Minuto

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O Observador!
    Um pasquim disfarçado de jornal, aliás, basta ver o seu corpo redatorial, bem como os colaboradores, e isso basta-me, para se perceber logo que estamos perante um puro órgão de propaganda.
    Mas isso não significa que o assunto das falsas licenciaturas / Metrados não deva ser abordado.
    O português viveu sempre o drama psicológico do “canudo” como forma de afirmação social e profissional. Em especial na vida politica e nas funções publicas.
    Há invejas pessoais estúpidas, como o ” o gajo que tirou o curso numa faculdade e não noutra. Num politécnico da cochinchina e não na merdaleja!”
    Mas não pensem que isso vai mudar nos próximos tempos. Haverá sempre uns emproados, mesmo só dizendo asneiras.
    Ainda há dias ouvi dizer a um comentador refinado de idiota, que, Catarina Martins, por ser atriz de teatro, ainda que com formação superior, não tinha perfil para ocupar o lugar por não perceber nada de economia.
    Eu também já ouvi histórias engraçadas. Por exemplo:
    Já ouvi a alguém afirmar que o Sr. Bragança Fernandes, Presidente da Camara Municipal da Maia, não é Engenheiro, daqueles XPTO. Nunca pude confirmar a veracidade da minha fonte, mas que há muito boa gente que assume não ser o autarca o tal Engenheiro por que se faz passar, lá isso é verdade.
    Um antigo presidente de uma autarquia do distrito de Braga, formou-se em arquitetura, já adulto, e, com uma idade jeitosa. Com alguma dificuldade, lá fez o curso na Uni Lusíada, no polo de Famalicão. Um dia pediu a um/a Professor/a para que lhe desse ao menos o 10, com o intuito de fazer aquela disciplina. Com honestidade intelectual e sem pruridos disse ao seu interlocutor/a:
    “Não é com esta idade que vou ser arquiteto!
    Mas no mundo da politica onde me movo, o facto de ter o canudo dá-me perante os outros um estatuto que nunca teria sem ele.”

    Portanto, Relvas, Sócrates, Félix é o que mais há por aí. Os seus casos só não vêm á liça, e bem, porque ninguém se está para maçar a esmiuçar a vida dessa gente.
    Qual a razão por que apareceram estes casos? São assim tão importantes para a nossa desgraça coletiva?
    É óbvio que não!
    O problema é que não havendo ideias na Oposição para propor, que não a choradeira da troika, esses casos sempre vão fazendo cocegas.
    Não fosse a péssima ideia do anterior governo querer privatizar a RTP, fazendo concorrência à SIC e à TVI, e o caso Relvas nunca teria aparecido.
    Se Sócrates não se tivesse posto em bicos de pés, apresentando-se como Engenheiro Civil ao domingo, com um MBA no ISCTE, e sim, apresentando-se apenas como Engenheiro Técnico Civil do ISEC, nada tinha sido investigado pelos órgãos de comunicação social. O problema é que Sócrates, Relvas, e, mais que venham, sofrem de uma dor córnea de não terem alcançado em devido tempo o “estatuto académico” que eles acham merecer dos seus pares e da sociedade.
    Por aqui já podemos perceber que só estamos onde estamos, porque durante anos acreditámos nesta gente.

  2. Sobre o poderoso Observador: https://aventar.eu/2016/04/25/o-poderoso-observador/

    Quanto ao síndrome do Doutor, nada a acrescentar. É um hino à parolice!

    Já essa do sotôr Bragança Fernandes, esse sacrossanto social-democrata, nunca tinha ouvido (lido) tal coisa. Será que tem fundo de verdade?

  3. Ricardo Almeida says:

    Durante os últimos dias Portugal voltou ao show de hipocrisia que a direita tanto nos habituou ultimamente.
    Antes de mais, sou completamente a favor da exoneração, voluntária ou não, de qualquer actor público que minta nas suas habilitações académicas. Não por achar que não tenha qualificações para o cargo mas apenas por mentir. Ponto. Não me importo de ter um ministro das Finanças com a 4a classe enquanto seja eficiente e competente. Tem é que ser honesto e abster-se de inventar cargos só porque fica bem no papel.
    Os socialistas estiveram mal em mentir nos currículos? Claro que sim. Estiveram bem em demitir-se mal o caso veio a público? Nem sim nem não. Apenas fizeram o mínimo que se esperava nessa situação visto que o ideal era nem sequer terem aceitado a nomeação em primeiro lugar. Mas há que reconhecer que ao menos pouparam o país, e os seus partidos, a dramas desnecessários. Na política as coisas têm de ser assim, lamento.
    Agora, a direita anda à mais de um ano a salivar por uma aberta. Espalharam-se ao comprido com a questão dos colégios amarelos e quando ainda estavam de joelhos desta situação, levaram mais uma traulitada na tola com a parvoíce da “classe média” semi milionária. Vivem-se dias negros no lado direito do espectro. Mas quando o último ciclo de poder que tiveram foi pontuado por personagens (cromos vá) como Passos, Portas e Relvas, estão à espera de quê?
    Querem mesmo bater-se mano a mano nesta situação quando têm um monstro do tamanho do Relvas no armário? A sério? Tenham juízo por favor e poupem o país, e vós próprios já agora, a mais figuras tristes.

  4. Comentário para quê ? Está tudo na normalidade !!!

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