Lettres de Paris #7


«le comptoir d’un café est le parlement du peuple»

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E se o povo francês tem coisas a dizer! Falam bastante os franceses e em geral são absolutamente amistosos. Bem sei que a maioria das pessoas que não são francesas acha este povo antipático e arrogante. Eu, exceção feita às meninas do RER no aeroporto Charles de Gaulle, no dia em que cheguei, ainda não tive – nem das outras vezes que aqui estive – qualquer razão de queixa. Até já arranquei um sorrisinho à velhota da padaria, que tem umas baguettes excelentes. Por outro lado, o alegado racismo dos franceses também ainda não o experimentei. Quando digo que sou portuguesa ninguém me ostraciza ou me olha com pena (embora, convenhamos, no que se refere a esta última parte, devessem, por muitas razões de que agora não vamos falar).
Hoje ao jantar ali na brasserie da esquina – a Brasserie Saint-André des Arts – o empregado reconheceu-me de ter lá ido beber um chocolate quente no dia em que cheguei de armas, mas sobretudo bagagens, à Rue Suger. Reconheceu-me e apesar de eu estar sozinha – ou talvez por isso, e estes gestos dizem muito acerca de um povo – sentou-me numa mesa boa, bem no centro do café. Deve ter intuído que a mim me agrada observar as pessoas. E ali havia imensas para observar. Não levei o telemóvel a jantar e por isso estava absolutamente preparada para o meu desporto preferido: peoplespotting.

Além de me ter reconhecido, o senhor tratou-me muito bem. Quando lhe disse o que queria comer, indagou: ‘italienne?’. ‘Non’, respondi eu, ‘portugaise’. O senhor – visivelmente francês – começou a falar comigo em português com sotaque do Brasil. Podia ser-se mais simpático que isto, mas era difícil. Depois quando lhe disse que queria beber o meu café ‘dehors’, ‘pour fumer’, disse-me em português ‘muito bem, vai beber o seu café fora’ e eu ri-me e fui para a esplanada, onde passado uns minutos apareceu ele mais o café e a conta do jantar. Quando paguei disse-me ‘Obrigada!’ e eu respondi em francês e ainda lhe perguntei se falava assim tão mal em francês que ele preferia falar comigo em português. Que não, que o meu francês era ‘parfait’ (que não é) mas assim ele praticava outras línguas. Achei encantador. Já se sabe que eu gosto de pessoas que gostam de saber línguas. Deixei-me ficar por ali, a ouvir as conversas dos que estavam, comigo, na esplanada, a bebericar o café e a fumar. As conversas variavam, da política à psiquiatria e ao preço das consultas. Quando me levantei da esplanada, ainda não tinha andado 10 metros e ouvi muito alto ‘boa noite!!’. Era o simpático empregado, bem entendido. Acenei-lhe adeus. Hei-de voltar lá muitas vezes. Faz falta ter um café nosso, não é?
Quando estive dentro da café, além dos casais de casados, de namorados, de amigos,de pessoas num primeiro encontro e dos grupos, homens sozinhos discutiam com os empregados ao balcão questões políticas, de forma muito animada – ‘le comptoir d’un café est le parlement du peuple’, já dizia Balzac. Eu observava aquilo tudo, provavelmente também ia sendo observada, enquanto mastigava o meu bife e as minhas ‘frites’, com molho ‘béarnaise’. Verdade seja dita que podem ser simpáticos, mas põe molho ‘béarnaise’ em quase tudo, seja carne, seja peixe, ou assim assim. Empurrei tudo com uma Leffe pequena (que a vida não está para extravagâncias), comi un ‘petit-gâteau’ de chocolate e lá fui eu para a esplanada beber o meu cafézinho.
Gosto disto tudo. Como gosto, aliás de quase todos os sítios, e de tudo, mesmo que não pareça porque refilo muito. Talvez para mim todas as situações sejam o ‘parlement du peuple’. ‘Va savoir’ de onde me vem a refilice. Mas gosto disto, sim, desta cidade, destas pessoas que falam esta língua tão bonita e que são muito simpáticas comigo. Mesmo quando falo uma misturada de coisas para me fazer entender. Há bocado, já não sei onde, misturei francês, castelhano e inglês, tudo numa só frase. É preciso paciência, digamos, e boa vontade para aturar isto. E os franceses têm-na. Até ver, pelo menos.
Hoje fui por um caminho diferente para o Ladyss. O céu estava cinzento e resolvi ir pelas ruas até à Place du Panthéon e depois descer para a Rue Valette. Ainda bem que o fiz. A praça estava bem bonita e o Panthéon também. Filas de jovens entravam na biblioteca e isso agradou-me quase tanto como se houvesse sol. Antes tinha passado de novo diante da Sorbonne. E tinha ficado outra vez maravilhada. Há mais de duas décadas, quando entrei na Sorbonne pela primeira vez como turista e me sentei numa carteira fingindo que ali estudava, não imaginava que mais de 20 anos depois tivesse a oportunidade de trabalhar num laboratório de investigação associado a esta universidade e, claro ao Centre Nationale de la Recherche Scientifique. O mundo faz sentido apenas quando quer.
Há quase duas décadas também, estando eu a preparar-me para iniciar o doutoramento, precisava de um relatório de um projeto de investigação francês. Nele tinham participado duas portuguesas, a quem escrevi solicitando uma cópia do dito relatório. Passadas quase duas décadas as duas nunca me responderam. Embora as conheça agora melhor do que na altura, nunca lhes falei disto. Às vezes refilo menos. Diante da ausência de resposta das duas compatriotas, resolvi então escrever ao diretor do projeto – Marcel Jollivet, um enorme sociólogo rural francês de quem tinha lido tudo, ou muito, quando estudei no ISCTE, nas disciplinas de Sociologia Rural e Seminário de Sociologia Rural. Pensei, quando escrevi a este senhor, que ele seria demasiado ocupado para me responder. Enganei-me. Em menos de duas semanas tinha os dois volumes, pesadíssimos, do relatório, na minha secretária da Universidade de Aveiro, com um cartão do próprio Marcel Jollivet. Grande lição me deu este senhor, quando eu ainda não tinha 30 anos. A lição mais importante de todas que todos os dias procuro praticar, na minha profissão: o conhecimento só existe pela partilha e nunca estarás tão ocupado que não o possas partilhar com quem o procura! Este senhor que conheci uma vez – anos mais tarde – num congresso aqui em França (e a quem agradeci pessoalmente tamanha generosidade) mostrou-me também que ser importante numa determinada área de estudos, não significa ser emproado e desatento. É – ou deve ser – como estar ao balcão de um café, a discutir com os outros as ideias. É por isso que tenho algum orgulho em estar aqui, no mesmo sítio em que ele trabalhou e em que fundou o NSS-Dialogues (Natures, Sciences, Sociétés) a tentar aprender, como sempre. Não apenas as coisas da ciência. Mas da vida.

Comments

  1. Obrigada pela partilha. Também eu sou uma apaixonada da cultura francesa. Até breve. Aqui no blog.

  2. Nascimento says:

    Obrigado

  3. Rui Silva says:

    Em relação ao racismo dos Franceses também acho que o não são, até pelo numero enorme de estrangeiros nomeadamente do norte de África. No entanto de repente lembrei-me do “Velodrome” e do “Caso Dreyfus.

    Rui Silva

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