Plasma, suborno e tráfico de influências

Lalanda de Castro, até ontem responsável máximo pela Octapharma em Portugal, apresentou a sua demissão na sequência de buscas que tiveram lugar nas instalações da farmacêutica, relacionadas com a investigação sobre o negócio do plasma, esmiuçado pela jornalista Alexandra Borges (TVI), há pouco mais de um ano, na peça que podem ver em cima, cuja visualização é altamente recomendada.

Depois da detenção, na passada Terça-feira, de Luís Cunha Ribeiro, ex-presidente do INEM e da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, alegadamente subornado por Lalanda de Castro com dois apartamentos de luxo, propriedade de uma sociedade imobiliária do presidente demissionário do Octapharma, dos quais Cunha Ribeiro usufruiu como contrapartida pelo favorecimento da farmacêutica em contratos com o Estado para o fornecimento de plasma sanguíneo, a decisão tomada ontem por Lalanda de Castro levanta ainda mais suspeitas e poderá representar o início do desmoronar de um castelo de cartas com ramificações que o ligam a altas figuras do bloco central: José Sócrates e Miguel Macedo.

Sócrates, outrora vizinho de Cunha Ribeiro no edifício Heron Castilho, em Lisboa, chegou a ser presidente do conselho consultivo para a América Latina da multinacional suíça, após convite de Lalanda de Castro, a quem terá feito dois “favores”. O primeiro traduziu-se numa espécie de lobby, junto do então reitor do ISCTE, para que a irmã, Helena Lalanda de Castro, conseguisse doutorar-se e tornar-se colaboradora da universidade. O segundo resultou de uma reunião em que o antigo primeiro-ministro terá, alegadamente, intercedido pela irmã de Lalanda de Castro para que esta ocupasse um lugar na direcção do INEM, estando Helena Lalanda de Castro, à data, empregada na ARS de Lisboa e Vale do Tejo. Coincidência das coincidências, as duas entidades que Cunha Ribeiro liderou.

Já Miguel Macedo, a braços com a justiça por crimes de prevaricação e tráfico de influências, terá ajudado Lalanda de Castro a escapar ao pagamento de 1,8 milhões de euros de IVA, contando para tal com a preciosa ajuda do ex-secretário de Estado das Finanças, Paulo Núncio. Claro que, por vivermos num país onde a esquerda controla a imprensa com mão-de-ferro, as ligações de Miguel Macedo ao antigo presidente da Octapharma em Portugal não estão a ter o mesmo destaque mediático que a relação com José Sócrates. O que não invalida que o ex-ministro de Passos Coelho não passe por Évora um dia destes.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Tem futuro a social-democracia? Como preferência cultural, sim; como movimento, não.
    Immanuel Wallerstein

    A partir dos anos 80 o mundo entrou no período dominado pela “globalização” neoliberal, e os partidos sociais democratas começaram a ir mais longe. Puseram de parte a ênfase no Estado Social, para se tornarem nos meros promotores de uma versão mais suave da primazia do mercado. Era este o significado do “new Labour” de Blair. Sócrates, Gerhard Schröder, Zapatero, e outros fizeram o mesmo percurso. É ver onde eles estão, agora, com excepção de Socrates? Alguns partidos socialistas resistiram mais tempo que os outros a esta viragem, mas também acabaram por sucumbir, como o Sueco.
    “A consequência disto, no entanto, foi que a social-democracia deixou de ser um “movimento” que conseguia congregar a lealdade e o apoio de grande número de pessoas”, das classes médias aos imigrantes. Tornou-se uma máquina eleitoral à qual faltava a paixão de um passado onde se reclamava a justiça social, como garante de uma economia sã.
    Isto tem tudo a ver com aquilo que já escrevi no passado, sobre a História mais recente do Partido Socialista Português. Esta mania muito republicana de se meter o socialismo na gaveta (Mário Soares), numa atitude dita de “pragmática”, mas cujos resultados estão à vista de todos.
    Os partidos sociais democratas europeus venderam a alma ao diabo. Ainda por cima, apenas para benefício de uma casta minoritária que se acha igual aos seus pares do liberalismo económico financeiro.
    Esquecem-se que os negócios não escolhem partidos. Querem é lucros rápidos e sem grande complexidade. Veja-se o caso Angolano.
    Esquecem-se que o dinheiro corrompe, e de que maneira. Veja-se a nossa História ao longo dos últimos quarenta anos.
    No final, ainda se acham-se incompreendidos…!
    Quem se aproveita disso é a direita, que sempre usou as fragilidades ético comportamentais do PS e dos seus dirigentes, para justificar a sua propensão para o lucro fácil, desregulado e sem escrúpulos.
    – Se até vós, ilustres intérpretes do mundo operário e das classes desfavorecidas, se deixam embriagar pelo poder da finança, quem somos nós, simples e “modestos” liberais para o domesticar?

  2. Rui Naldinho says:

    Tem futuro a social-democracia? Como preferência cultural, sim; como movimento, não.
    Immanuel Wallerstein

    ” No entanto, quando a economia-mundo entrou na sua longa estagnação a partir dos anos 70, e o mundo entrou no período dominado pela “globalização” neoliberal, os partidos social-democratas começaram a ir mais longe. Puseram de parte a ênfase no Estado de bem-estar para se tornarem nos meros promotores de uma versão mais suave da primazia do mercado. Era este o significado do “new Labour” de Blair. O partido sueco resistiu a esta viragem mais tempo que os outros, mas também acabou por sucumbir.
    A consequência disto, no entanto, foi que a social-democracia deixou de ser um “movimento” que conseguia congregar a lealdade e o apoio de grande número de pessoas. Tornou-se uma máquina eleitoral à qual faltava a paixão do passado.”

    Desde que Mário Soares meteu o socialismo na gaveta, numa atitude pragmática, que lhe valeu rasgados elogios de alguns dos seus amigos da finança, estas coisas que agora lemos não tardariam a acontecer.
    Até ao aparecimento de José Sócrates na cena política, tudo isto se fazia de forma mais ou menos encapotada, e a uma escala relativamente pequena. Até porque ainda não estávamos bem na era virtual, em que a internet se transformou num sistema de transporte de dados, sendo utilizado como ferramenta de trabalho à escala mundial.
    Se olharmos para os percursos políticos, e posteriormente, os profissionais, de Gerhard Schröder, Tony Blair, José Sócrates, Durão Barroso, etc, logo perceberemos a razão destas coisas acontecerem.
    Os Partidos Sociais Democratas e Socialistas da Europa venderam a alma ao diabo. Fizeram-no conscientemente. Hoje estão no deserto carpindo mágoas. Em Portugal José Sócrates foi o seu expoente máximo. Com a desvantagem de ter um comportamento ético e político mais do que duvidoso.
    Para gáudio da direita, que apesar de não ter escrúpulos na sua ganância pela renda fácil, vê nisto um filme de terror que lhe trará lucros substanciais em votos!


  3. Já agora, o tipo que foi ministro da saúde e que passou por este e outros casos de uma forma tão suave, não vai agora mandar na caixa?

  4. Ana A. says:

    Eu sei que é um preconceito meu. Mas, sempre que passo por condomínios de luxo e palacetes, não posso evitar de me perguntar: que segredos e tramoias habitarão sob esses tectos…
    Pobres Homens de carne fraca e mais fraca vontade, que prejudicam os seus semelhantes, só para repousarem o seu próprio “coiro” em camas fofas e acetinadas, enquanto outros têm como destino a valeta e o estômago faminto!


  5. Olhem a desgraça da foto. O Paulo Campos não é este.
    http://www.sapo.pt/


  6. Nós assistimos a grandes teorias da conspiração, quando se menciona a corrupção da tralha socrática; mas o mesmo não se passa com o ministro Macedo. Ninguem do PSD vem argumentar com inocências até prova e nem o PC ou Relvas ou outro “criminoso” se põe com teorias da conspiração – nem os tais jornais da direita. Será que convivem melhor com os corruptos ?
    Agora fiquei aqui bem surpreendido de poder ler que o socrates deve estar implicado, a democracia é lenta mas vai fazendo adeptos.Parabens

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