Lettres de Paris #47

Nom, prénom

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Uma coisa que me escapa e que me faz enganar imensas vezes é que os franceses usam ‘Nom’ para o apelido (sobrenome, surname, etc…) e ‘Prénom’ para o nome próprio. Quando me perguntam em algum sítio pelo ‘Nom’, é certo que respondo Elisabete. Não raras vezes me têm dito: ‘ça c’est votre prénom’, como se eu tivesse algum problema mental, ou assim. Também é certo que quando me perguntam o ‘Prénom’ – se antes não tiver ocorrido a conversa anterior – eu fico dois segundos a pensar, antes de dizer Figueiredo. Claro que olham para mim ainda com mais cara de caso, porque evidentemente são incapazes de pronunciar o meu apelido e, porque, também evidentemente, me tinham perguntado o nome.
 
Portanto é uma trapalhada, com muita frequência entre o meu ‘nom’ e o meu ‘prénom’, em que quase sempre os franceses acabam a corrigir-me, claro. Quase toda a gente me trata por ‘madame’ coisa que também tenho dificuldade em assimilar que é a mim que se estão a referir. ‘Madame, moi?’. Bem, há bocado um bêbado passou aqui debaixo da janela e estando eu a fumar um cigarro debruçada na dita, com a escuridão e a bebedeira, referiu-se a mim, como ‘jeune dame’. O que é, convenhamos, menos mau que madame. Madame ‘Figuêredô’ mais ou menos isto. E portanto eu ando sempre num virote, sempre a certificar-me que sou eu, a madame, sempre a certificar-me que o meu ‘nom’ é Figueiredo’ e o meu ‘prénom’ Elisabete.

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Cidadania em Acção: Fábrica de Alternativas de Algés

Inauguramos a rubrica Cidadania em Acção com a Fábrica de Alternativas de Algés.

Fábrica de alternativas de AlgésA Fábrica de Alternativas nasceu da vontade de um grupo de residentes em Algés criar uma rede local de apoio e solidariedade para fazer face às adversidades dos dias que correm. Uma forma de incentivo à participação cívica e promoção da cidadania activa, valorizando as competências de cada um, juntando todas as gerações, na convicção de que todas as pessoas têm muito a aprender umas com as outras! O seu fim é social, recreativo e cultural, de acordo com as capacidades e conhecimentos profissionais, artísticos ou culturais que os seus associados queiram e estejam em condições de partilhar. Para além do desejo de recuperar os elos de vizinhança há muito perdidos, queremos que a comunidade em conjunto seja mais crítica, consciente e ética, incentivando os valores da partilha, da responsabilidade e da inclusão. Apesar de a nossa matriz recusar qualquer apoio partidário ou religioso, acreditamos que toda a pessoa é válida, independentemente da sua faixa etária, classe social, orientação sexual, raça, credo religioso, convicção política, etc… O Banco do Tempo surgiu como plataforma ideal para materializar essa partilha: Propomos aos nossos associados que ofereçam 2 horas por semana à Fábrica, ou à Comunidade. Em troca, podem usufruir de todas as outras 2 horas cedidas pelos outros sócios. [Read more…]

Cidadania em Acção

Cidadania em Acção
Compromisso com a solidariedade para além do círculo estreito da família e dos amigos… Salto do sofá e da zona de conforto…Trabalho voluntário e empenhado por uma causa… Capacidade de conexão e união num grupo…

Convicção da supremacia dos valores éticos nas sociedades… Procura local de soluções mais justas e sustentáveis, que ultrapassem as baias dos caminhos sem futuro já traçados… Vontade de agarrar a vida e configurá-la…

De tudo isto é feita a rubrica do Aventar “Cidadania em Acção”, que apresenta sucintamente iniciativas desenvolvidas por gente generosa, com coragem e auto-determinação, por esse Portugal fora. São pequenos nós de uma rede que resiste à resignação, ao cepticismo, e que torna a vida mais humana e mais valiosa. Uma rede que liberta em nós o que de melhor temos para dar uns aos outros e a todos.

Contas da História

If ever there was a time for America to look at itself in the mirror, if ever there was a time of reckoning and accountability, it is now.

Ariel Dorfman
Conselheiro Cultural de Salvador Allende, entre 1970 e 1973

O topete dos pais apressados do PISA

Santana Castilho*

Guterres tomou posse como Secretário-Geral da ONU. Ronaldo arrebatou outra Bola de Ouro. Cada família portuguesa vai gastar neste Natal 359 euros, diz a Deloitte, e Marcelo vai beijar as 207 crianças que nasceram ontem, prognostico eu. Que importa que no mesmo dia tenham morrido 284 portugueses? Que importa que a Der Spiegel diga que Ronaldo subtraiu 150 milhões ao fisco? Que importa que as contas da Deloitte sejam o resultado de uma média que junta os gastos obscenos de poucas famílias aos gastos miseráveis de dois milhões de pobres? Que importa tudo isso e quem sou eu para contrariar a euforia deste nosso modo bipolar de viver? Mas a festa dos pais apressados dos resultados do PISA, essa, tenho que a contraditar.

Quando toca a hora de colher louros, é enternecedor ver ex-ministros, que se digladiaram e reclamaram autores de teses opostas, aceitarem que as suas políticas, juntas, produziram bons resultados. O paradoxo talvez se resolva se trocarmos as premissas da equação. Se em vez do “graças a Lurdes Rodrigues” ou do “graças a Nuno Crato”, dos prosélitos, tentarmos os bem mais certos “apesar de Lurdes Rodrigues” e “apesar de Nuno Crato”.

Ambos escreveram artigos sobre os resultados do TIMMS e do PISA (DN de 7/12). Antes de se porem em bicos de pés, qual casal modelo, pais apressados do sucesso alheio, eles que humilharam, acusaram, denegriram e prejudicaram os professores como ninguém, tiveram o topete de lhes tecer, agora, rasgados elogios. Que pouco decoro! [Read more…]

Trumpetes, as cornetas que aspiram chegar ao som do clarim

Pergunta-se porque é que metade da população americana acreditou em fantasias como a participação de Hillary Clinton em rituais satânicos? Pois a resposta é simples, o tempo vertiginoso da mentira é imbatível e é isso que valoriza os trumpinhos, quanto mais extravagantes melhor. Olhe à sua volta em Portugal e veja como eles estão tão deslumbrados com Trump, acham que chegou a sua hora.

Lettres de Paris #46

Et maintenant pour quelque chose de complètement différent…

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… comi verdadeiro frango assado português acompanhado por uma mini super bock, um cafézinho delta e um pastel de nata. Onde? Em Paris, bien sûr, Rue de l’École Polytechnique, perpendicular à Rue Valette e a que nunca tinha dado atenção. Bem sei que pareço uma verdadeira emigrante ultimamente com o tema da comida. Disse-me outro dia a Mónica que estes desejos são o primeiro sinal que nos estamos a tornar em emigrantes. Pois que seja. Quase 2 meses em Paris, com ligeiras interrupções, dão nisto. Falei-vos do desaire do poulet rôti há dois ou três dias. Le pire poulet rôti au monde. Na verdade fiquei mal disposta desde que o comi. Já devia ser frango velho, ou melhor, frango envelhecido no frigorífico ou no forno do lamentável restaurante da Rue Saint-Séverin. Mas eu não sou pessoa de desistir assim facilmente, sobretudo se o assunto envolve comida. Também sou de dar segundas oportunidades aos meus desejos, vá. E terceiras e mesmo quartas.
 
De modo que, quando me lamentei ao André da minha pouca sorte com o poulet rôti, o rapaz (aka #pingaamor) pôs-se em marcha. Bom, não veio até Paris com um frango assado na mala (coisa que, convenhamos seria ‘the ultimate romantic move’, especialmente se ao frango se juntassem umas batatinhas fritas e uma salada temperadinha ‘façon portugaise’ e umas duas ou três minis, pronto), mas pôs-se em marcha sobre o google (coisa que, obviamente eu mesma poderia ter feito) e anunciou-me triunfante passado um bocado que, mesmo na rua ao lado do Ladyss, havia uma churrasqueira portuguesa, justamente chamada ‘a nossa churrasqueira’. Não lhe dei grande crédito, confesso. Mas hoje, depois de um dia que começou bastante cedo (devido a um seminário na EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales, por um lado e, por outro, devido ao barulho que fizeram logo de manhãzinha os homens das obras do prédio aqui da frente) e de estar 10 horas quase a trabalhar, ou enfim, qualquer coisa de muito parecido, quando saí do Ladyss às oito da noite, vi a Rue de l’École Polytechnique ali mesmo à minha direita e, considerando tudo mais o facto de nunca ter ido para aqueles lados, lá entrei na rua, bastante pequena, que desemboca numa praça muito bonita – a Place Larue – onde, justamente, fica a École Polytechnique.
 

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