O espetador e os adetos

When a clerk says how much something costs, I try to understand the price (so far I cannot) before handing over a bill I’ve already calculated to be more than enough… Unfortunately, the phrase book is meant for Portugal, not Brazil… and I think that might turn out to be a major problem.

Richard W. Schmidt & Sylvia N. Frota (1986)

***

Os adetos? Exactamente, «adeto por adepto». Efectivamente, hoje, no jornal da irresponsável resistência silenciosa. Quanto ao espetador, lembremos as excelentes traduções de “relief pither” e de “designated pither” (entre 14:09 e 15:19).

Obrigado, Noémia.

os-adetos-e-o-espetador

Requiem por um espaço de pensamento livre

ubi

Pedro Pereira Neto

O conteúdo seguinte constitui citação literal retirada dos Estatutos da Universidade da Beira Interior, consultados hoje, a partir do seu website institucional:

“Capítulo I – Natureza e Regime Jurídico, Missão, Objetivos, Atribuições e Símbolos
Artigo 1º – Natureza e Regime Jurídico
1. A Universidade da Beira Interior é uma Instituição orientada para a criação, transmissão e difusão da cultura, do saber e da ciência e tecnologia, através da articulação do estudo e do ensino, da investigação e do desenvolvimento experimental.
2. A Universidade da Beira Interior, adiante designada abreviadamente por UBI ou simplesmente Universidade, é uma pessoa colectiva de direito público e goza de autonomia estatutária, pedagógica, científica, cultural, administrativa, financeira, patrimonial e disciplinar”.
Em que medida é esta informação relevante? Foi conhecida recentemente a decisão da Presidência da FCSH-UBI de proibir a realização já (por si) autorizada da conferênciaSahara Ocidental: a luta pela autodeterminação de um povo”, que teria lugar amanhã, dia 6 de Dezembro. Motivo invocado: “não criar um conflito institucional de Estado que colocasse a UBI nos órgãos de comunicação social pelas piores razões“.

[Read more…]

Medo e democracia

Sim, o referendo italiano era uma distorção redutora e maniqueísta de um conjunto complexo de problemas. Um golpe, portanto. Que, entre outras questões, evidencia a impossibilidade de discutir em profundidade o mérito das propostas em confronto, já que elas jamais se reduziriam a uma dicotomia tão simplória.

Terminados os actos, vejo, não sem surpresa, muitas pessoas a verberar aqui os votantes que escolheram o “não”, acusando-os de abrir as portas a eleições e, portanto, à ofensiva eleitoral da extrema direita. Ora, se nos lembrarmos que a Itália era governada por um comissário político não eleito e imposto pela força hegemónica na União Europeia, pergunto: desde quando este terror pela possibilidade de eleições tomou conta da nossa razão? O que vale o argumento segundo o qual os votantes do “não” estão ao serviço da extrema-direita pelo facto de quererem eleições?

Perguntando de outro modo e tentando compreender estes receios: o que é, agora, a democracia? Ou: o que vamos fazer do que fizemos da democracia? Era bom trocarmos umas ideias sobre o assunto.

Pedido de esclarecimento a Assunção Cristas

Leio a notícia sobre a missa em honra de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, mortos por estes dias de Dezembro em 1980. Assunção Cristas, a líder do CDS, esteve presente e, diante dos microfones, entre outras coisas, declarou que os dois políticos “deram a vida, literalmente, pelo seu país”.

No facebook, a nossa Carla Romualdo faz a pergunta que qualquer jornalista poderia ter feito: «Como assim, “deram a vida pelo país”? Eles sabiam para o que iam?»

Inspirado por estas questões, resolvi enviar a seguinte mensagem de correio electrónico ao CDS:

Sou um dos autores do blogue Aventar e gostaria de pedir que fossem esclarecidas as declarações da senhora doutora Assunção Cristas acerca da morte de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, Segundo o que li, a Senhora Presidente do CDS declarou que ambos “deram a vida, literalmente, pelo seu país”.
Assim, tendo em conta que a expressão “dar a vida” implica ter uma noção de que se iria correr um risco, estaria a senhora doutora Assunção Cristas a afirmar que Amaro da Costa e Sá Carneiro sabiam que havia, no mínimo, grandes probabilidades de o avião se despenhar, como, infelizmente, veio a acontecer? Se sim, poderá, ainda, considerar-se que as outras cinco pessoas que morreram no mesmo acidente também “deram, literalmente, a vida pelo seu país”?
Esta pergunta será publicada no Blogue Aventar. A resposta que V. Exas. queiram enviar será, também, integralmente publicada.
Muito obrigado
António Fernando Nabais
Aguardemos, pois.

Não ao racismo

 

Há uns dias saiu uma notícia no Público que passou quase despercebida. “Portugueses são mais tolerantes com a entrada de refugiados e menos com a dos imigrantes por motivos económicos.” Esta conclusão é o produto de um estudo realizado pelo ICS que cobre um período de 12 anos.

O facto dos Portugueses serem mais tolerantes com a entrada de refugiados é provavelmente o resultado das imagens que nos são transmitidas pela televisão. Alice Ramos, investigadora que contribuiu para o estudo, afirma que “Há de facto um sentimento de piedade que os protege destas atitudes de oposição. E Portugal, provavelmente, é o país que menos associa os refugiados às restantes categorias de imigrantes”. Isto é evidentemente positivo. Olhar para os refugiados com compaixão, especialmente numa altura em que por esse mundo fora há tanta gente investida em ver um terrorista em cada refugiado, é sinal de que estamos a fazer alguma coisa bem. É provavelmente também sinal que os principais meios de comunicação se abstêm de comentários errados e inflamatórios, como acontece noutros países, com outros jornais e televisões.

[Read more…]

Lettres de Paris #36

‘De ma naissance a ma mort, j’ai trouvé le temps beau’

This slideshow requires JavaScript.

Na lápide da sepultura de Regina e Abel Taïbi, na divisão 18 do grande Cemitério de Montparnasse, está escrita esta frase. Não sei quem foram os ali sepultados, ao contrário de muitos que ali repousam o que se diz ser o sono eterno, Regina e Abel são totalmente desconhecidos. Mas ao passar, já de regresso à entrada principal do cemitério, pela sua sepultura, não pude deixar de sorrir ao ler a frase. Uma coisa tão simples, achar sempre o tempo belo, desde que se nasce até que se morre. E, no entanto, passamos a vida atormentados por mil coisas sem importância e mais algumas que terão importância, mas não apagarão jamais a beleza que há em toda a parte. A beleza que há em tudo o que há. O tempo belo que vivemos enquanto somos vivos.
A beleza do enorme Cemitério de Montparnasse, com 18,72 hectares, 42 mil sepulturas, 1244 árvores de 40 espécies diferentes é inegável. Mais ainda nesta tarde muito fria, com sol e um céu talvez demasiado azul para se fazerem visitas a cemitérios. Visitei pela primeira vez (e única, até hoje) o Cemitério de Montparnasse há mais ou menos 20 anos, num tempo seguramente belo, em que eramos novos, eu e o N. e ninguém que conhecessemos, incluindo nós mesmos, estava morto. Lembro-me de ter posado, sorridente, atrás da campa de Sartre e Beauvoir, que estão sepultados logo à entrada, na divisão 20. A lápide era diferente, entretanto alguém a terá mudado. Esta é mais alta e branca e hoje estava particularmente bonita com a luz e as sombras que havia. Prestei-lhes a minha homenagem em silêncio e voltei para trás um pouco comovida, não pela sepultura, mas pelas coisas de que me lembrei à sua frente. Passei de novo a entrada e continuei pela Avenue du Boulevard até à divisão 21, onde está sepultada Marguerite Duras. A campa de Duras é justamente o oposto da de Sartre e Beauvoir. Marguerite Duras está sepultada com o seu último amor, Yann Andrea e em cima da pedra rasa estão rosas vermelhas, cactos, conchinhas, um vaso enorme onde estão enterradas centenas de canetas e de lápis. Não me lembrava da campa de Duras, penso. Mas, claro, ela morreu em 1996, depois de eu ter visitado o cemitério, lembro-me logo a seguir. Deixo um pequeno lápis de madeira enterrado no vaso e volto outra vez para trás, pelo mesmo Boulevard, em busca da campa de Durkheim, na 5ª divisão.

[Read more…]