A semana que passou


O entrudo veio à rua e confirmou-se que a terça-feira de Carnaval é dia de chuva, antecedido e precedido de abundante sol. Más notícias para as nádegas com Parkinson, como lhes chamou Bruno Nogueira.

carnaval

Tivemos uma semana pródiga em disfarces, com os nossos políticos a usarem máscaras, mesmo para além da quarta-feira de cinzas. Foi o que aconteceu hoje, quando o nosso ex-Primeiro-Ministro afirmou não conhecer “nenhum facto que, há (sic) luz das disposições legais, impeça o governador Carlos Costa de fazer o seu mandato.” Disfarçou-se de  despercebido, ao fazer de conta que não percebeu que os documentos da reportagem “Assalto ao Castelo” trazem para a ordem do dia uma questão que tinha ficado por responder: Porque é que o governo PSD/CDS reconduziu Carlos Costa como Governador do Banco de Portugal, sabendo o que se sabia na altura?

Mas este não foi o único folião da semana – já lá vamos, logo depois de sublinhar uma mais coisita.

Assalto ao Castelo

Quando ontem ouvi o deputado Leitão Amaro na SIC, pensei que fosse um caso de tiro no pé. A reporter tinha-lhe perguntado se, com os documentos conhecidos na reportagem da SIC, o PSD manteria a recondução de Carlos Costa. O deputado não respondeu, optando pela fuga para a frente. “A decisão do governo foi já com conhecimento do relatório da Comissão de Inquérito”, afirmou Leitão Amaro. Hoje, com as declarações de hoje de Passos Coelho, constata-se que ignorar os factos tornados públicos é a estratégia do partido. A questão é delicada. Carlos Costa omitiu documentos na Comissão de Inquérito ao BES, que demonstram o que era evidente. O Governador do Banco de Portugal soube, com muita antecedência, o que é que se passava no BES, mas optou por não agir. E o PSD, esta semana, optou for chutar para canto.

As férias de Centeno

Quem gozou férias de Carnaval foi Mário Centeno, que teve uma semana descansada, sem a oposição a ir-lhe às canelas enquanto não se estica para chegar ao Primeiro-Ministro. Mas o assunto apenas está dormente. Voltará à ribalta quando o furação Offshores perder força, ou não estivessem planeadas duas comissões de inquérito sobre o assunto CGD/SMS. Pode ser que, entretanto, tenham aprendido a lição sobre ser preferível assumir os factos, em vez de inventar desculpas que facilmente se desmontam.

Paulo Núncio e os factos evolutivos

Quem não aprendeu mesmo a lição foi Paulo Núncio, que, no prazo de uma semana, apresentou três explicações diferentes para o caso das transferências dos 10 mil milhões para as offshores.

  1. Na primeira versão, Núncio nada sabia sobre o caso e acusou a Autoridade Tributária (AT) de incompetência.
  2. A seguir a AT declarou que tinha pedido, por três vezes, para publicar as transferências para as offshores, sem sucesso, e Núncio deu um passo a trás. Assumiu a responsabilidade política, demitiu-se de uns cargos insignificantes no CDS e, ainda assim, argumentou que havia um mal entendido, já que ele tinha colocado um visto dos pedidos da AT. Logo aqui ficou clara a primeira mentira. Não sabia de nada, mas colocou vistos nos pedidos. E mesmo assim, continuou a empurrar para a AT, que não percebera bem o significado do visto, depreende-se. O facto é que a autorização não existiu.
  3. Na terceira versão das suas explicações, no Parlamento, Núncio explicou que, afinal, não publicou as transferências intencionalmente, com receio de beneficiar o infractor. Esta nova posição entra em  contradição com a primeira e com a segunda. Além disso, as transferências para offshores são publicitadas para aumentar a transparência. Se alguém que foi Secretário de Estado dos Assuntos fiscais e é especialista em consultadoria fiscal não sabe isto ou acha que come os outros por tolos ou então é, ele mesmo, um valente tolo. Ainda nesta versão, é amoroso ver como decidiu arcar com as culpas sozinho, declarando que nada dissera aos colegas. É caso para dizer que, depois da gorada tentativa de saída airosa, está procurar evitar que os danos cheguem às chefias. Mas sem deixar de dizer que poderá ter tido conversas com os ministros das finanças, fazendo lembrar aqueles filmes em que o preso avisa que é melhor não o queimarem, pois poderá falar acidentalmente se sentir os pés a arder.

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Entretanto, o que era um caso de ausência de publicitação das transferências para as offshores, com suspiros sobre ausência de ilegalidades, transformou-se em algo bem mais sério. Descobriu-se que estas transferências não foram controladas pelo fisco, que alguns documentos dessas transferências desapareceram dentro do fisco e ainda não se percebeu porque razão isto aconteceu. Coincidência das coincidências, metade destas transferências estão relacionadas com a venda da PT à Altice e a outra metade teve origem no BES e com destino a Panamá, paraísos fiscais com os quais Portugal não tem acordos de troca de informação bancária. E porque é que o dinheirinho foi para paraísos fiscais? Obviamente que não foi para fugir a impostos. Foi apenas mudar de ares e apanhar sol, antes de voltar ao trabalho.

Mesmo sendo Carnaval, foi preciso uma grande cara de pau Cecília Meireles (CDS) e Duarte Pacheco (PSD) acusarem os partidos da Geringonça de estarem a esticar o caso offshores. Se no caso Centeno/SMS já todos sabemos perfeitamente que o ministro mentiu e nada de novo há a apurar (logo a segunda comissão de inquérito é, isso sim, esticar o caso), já nesta história dos 10 mil milhões há muitas perguntas para esclarecer.

  1. Porque é que o ex-SEAF Paulo Núncio deixou de publicitar as transferências para offshores?
  2. Porque é que a AT não fiscalizou as 20 transferências que originaram a ida de 10 mil milhões para offshores?
  3. Os 10 mil milhões pagaram todos os impostos que deviam pagar?
  4. Num período de tão grande controlo financeiro do País, o Ministro das Fianças, o Primeiro-Ministro e a Troika nunca quiseram saber quais eram as movimentações de capital para as offshores?
E o prémio de máscara de palhaço vai para…

Há alturas em que pensamos que o nível de parvoeira não pode ir mais fundo. E depois descobrimos que alguém chega com uma pá para cavar mais o buraco. Foi o que aconteceu com um palhaço polaco, eleito para o Parlamento Europeu, que afirmou que as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque são “mais fracas, mais pequenas, menos inteligentes”. Já não é a primeira vez que este merdas faz comentários racistas e sexistas, pelo que é caso para perguntar porque é que ainda é eurodeputado.

O palhaço polaco Janusz Korwin-Mikke

O palhaço polaco Janusz Korwin-Mikke

Foi uma semana agitada. Esperemos que a Quaresma traga dias mais calmos e, sobretudo, menos crispação no cenário político nacional.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Uma das coisas que na semana passada saltou à vista de todos, pelo menos daqueles que se esforçam por manter alguma equidistância racional sobre os factos ocorridos nos últimos tempos, é a de que os líderes políticos e o seus séquitos lidam muito mal com a verdade, quando alguns dos seus membros são apanhados a mentir. Aquilo é uma verdadeira catástrofe retórica, com ditos e contra ditos, qual deles o mais iverosímil, de fazer corar de vergonha uma Mãe zelosa que não gosta de apanhar os filhos a mentir.
    Tanto António Costa, como Pedro Passos Coelho, geriram pessimamente os casos mais complicados que ser lhe depararam pela frente. Costa – e os “sms”, versus Passos Coelho – e o caso do dinheiro para os off shores.
    Não estou aqui a comparar a dimensão política dos dois fenómenos. Estou apenas a analisar o comportamento psicológico do ser humano quando este é apanhado a mentir, ou a ocultar factos que não lhe agradem.
    Com uma agravante. Passos Coelho insinuou falta de honestidade intelectual do Primeiro Ministro, e os factos vieram demonstrar que ele devia era estar calado, e só depois da poeira assentar, tomar a palavra. A seguir escondeu-se durante mais de uma semana, para depois voltar à carga da pior forma. Limpar as mãos como Pilatos. Não tivesse sido Rui Rio a picá-lo, e ainda andaria escondido.
    Assim não vais lá, Pedro!
    Constatou-se também outro facto. A direita passou o ano de 2016 a “spin(ar)” com as suas iluminárias contra a Geringonça, em tudo o que eram decisões macro económicas, fosse em relação ao deficit, ao orçamento de estado, ou na resolução bancária. Muitas delas foram caindo por terra.
    Quando lhe rebentou um escândalo mãos, com factos palpáveis e mensuráveis, primeiro assanhou os dentes e rosnou, a seguir ficou hirta, amedrontada, sem uma explicação clara e consistente, sem saber o que fazer, e completamente impreparada para o contra ataque.

    Quanto ao deputado polaco que disse aquele chorrilho de asneiras, façam uma busca na net, e logo ficarão a saber qual a estirpe do animal. Concluirão que o bicho não passa de um Zezé Camarinha, numa versão “sacro império romano germânico”.
    Com gente desta no parlamento europeu estamos bem entregues!

    • martinhopm says:

      Assanhou-se e rosnou! De sanha, baba de serpente’ + do castelhano ‘roznar’, zurrar. Acertou na ‘mouche’.. Se é que a etimologia ainda tem algum valor. Sim, falo do Africanista de Massamá.

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