Rússia – Os amanhãs que cantam

A Rússia é uma espécie de elefante na sala que muitos fazem de conta que não está ali mesmo, no centro da sala. Para muitos não é a Rússia, é Putin. Como ontem não era a Alemanha, era Hitler. O problema é que Bucha como tantas outras aldeias, vilas ou cidades da Ucrânia demonstram que Putin não está sozinho na insanidade.

Se foi Putin a dar a ordem para a invasão da Ucrânia foram, estão a ser, os seus soldados, os seus militares a transformar a tomada de territórios num horror inqualificável. Matar cidadãos indefesos, com as mãos amarradas atrás das costas é a insanidade potenciada ao extremo. Ouvir o testemunho de médicos a explicar que estão a receber crianças de Mariupol com lacerações vagino-anais é mais do que revoltante, é a demonstração plena de que não existe um Putin, existe uma parte de um povo que está disposto a cometer todas atrocidades possíveis e imaginárias em nome de uma tal de “Mãe Rússia” a quem nem de rameira podemos aplicar porque estas são incapazes de tais atrocidades.

A Rússia está a sublinhar o que dela já muitos sabiam. A brutalidade dos Czares foi substituída pela brutalidade do comunismo e agora os amanhãs cantam mais umas décadas de brutalidade com Putin. São séculos de insanidade. Considerar que não é característica de um povo mas apenas e só dos seus líderes é não querer ver o elefante que está na sala…

Bucha

assim como Mariupol, assim como tantas e tantas aldeias, vilas ou cidades com nomes até agora desconhecidos e impronunciáveis e que ficarão para sempre na consciência do mundo. Como um ferro em brasa que nos torturará eternamente. Muito, pouco ou quase nada porque, ao contrário do que pretendemos crer, a excelência humana nunca foi tão rara quanto o é hoje.

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Habeck, o admirável ministro da economia alemão

As respostas de Robert Habeck, ministro da economia alemão, num talk show televisivo ocorrido há três dias, foram uma magistral lição de filosofia, economia, política, seriedade, coragem, autenticidade e visão.

Com uma paciência de Jó, com toda a simplicidade e nunca simplismo, Habeck, desprovido da arrogância, pretensiosismo e a habitual opacidade da esmagadora maioria de dirigentes políticos que ocupam os governos do mundo, abananou a sociedade alemã ao falar de forma brilhantemente diferenciada sobre as consequências da guerra na Ucrânia para o abastecimento de energia da Alemanha e as razões pelas quais continua a rejeitar um embargo energético contra a Rússia, enquanto tudo faz para libertar a Alemanha da dependência russa, assegurando também o abastecimento de electricidade à Ucrânia.

E aqui ficam algumas das clarividentes respostas de Habeck no programa de Markus Lanz, um conhecido moderador neoliberal da TV alemã, que acabou por engolir em seco as suas próprias picadelas sedentas de sensacionalismo, usando e abusando das fotos em que Habeck cumprimenta, inclinado, o emir do Qatar:

“A Alemanha sempre se apresentou como se nós fizéssemos tudo melhor, soubéssemos tudo melhor; e depois aprovámos Nordstream II no ano da anexação da Crimeia, e no ano seguinte transferimos parte da nossa infra-estrutura petrolífera para a Rosneft, a companhia petrolífera russa, no ano após a anexação da Crimeia! Os ucranianos agradecem-nos pelas armas, mas perguntam-nos, porque é que só as forneceram agora que o nosso povo já está a ser assassinado? Teria sido muito mais inteligente entregá-las antes, poderia até ter acontecido que nem sequer chegássemos a ser atacados; e nós só podemos dizer a nós próprios que estamos a fazer tudo bem, se partirmos de uma concepção política em que estamos sempre do lado moralmente correcto; mas não é esse o caso.” [Read more…]

A leste da realidade

De cada vez que um político ou guia espiritual neoliberal diz “estamos a ser apanhados pelo país X de Leste”, porque o indicador A ou B lhe é mais favorável, fico com a certeza quase absoluta que essa pessoa nunca esteve no país em questão. Achar que a aproximação da Roménia em termos de PIB per capita significa que o nível de vida lá é idêntico ao nível de vida aqui é de uma desonestidade só compreensível à luz da propaganda mais alucinada. Lembro-me sempre de uma aventura que tive em tempos, na Bulgária, a tentar ser atendido na espécie de SNS lá do sítio. PIB per capita é uma medida que nos diz muito pouco sobre a qualidade de vida global de um povo. Basta haver uma pequena percentagem de super-ricos para subverter os números. E nem vamos falar na qualidade da democracia, no apoio aos idosos e/ou mais desfavorecidos, na pobreza ou nas infraestruturas da esmagadora maioria dos países de Leste, excepção feita a parte do Báltico. Não há – ainda – comparação possível.

Congresso do CDS-PP

Arrancou o congresso do CDS-PP. O que vão decidir os congressistas este fim de semana? Um regresso ao passado “portista”? Um regresso de Manuel Monteiro? Sim, são inúmeras as jogadas de bastidores a tentar convencer Monteiro a avançar. Um novo futuro? Ainda não se sabe.

O mais provável é que Nuno Melo venha a ser eleito presidente do que resta do CDS. Contudo, os congressos do CDS são, quase sempre, uma caixinha de surpresas. Uma coisa é certa, na despedida, o ainda presidente não se ficou por meias palavras…

Notas sobre a agressão de Will Smith a Chris Rock

Sobre o caso da agressão de Will Smith a Chris Rock, porque é exactamente disso que se trata, de uma agressão, tenho sete coisas para vos dizer, sem nenhuma ordem especial. Aqui vão elas:

1) A liberdade de expressão é um pilar das democracias. Uma agressão é um crime. E ainda bem que é assim;

2) Quando ouço ou leio alguma coisa que não me agrada (e falo por experiência), por muito ofensivo que considere essas palavras, mesmo que me sejam dirigidas, não tenho legitimidade para bater no seu autor. Tenho, isso sim, a possibilidade de agir judicialmente contra essa pessoa. Somos seres civilizados, da polis, não macacos a lutar por bananas na selva;

3) Posso, ainda assim, armar-me em macaco e bater numa pessoa que diz ou escreve sobre mim coisas que me insultam. Cabe ao Estado e ao poder judicial pôr-me na linha. No caso em questão, presumo que as autoridades norte-americanas tenham todas as provas necessárias para fazer justiça. Espero que a façam. Um exemplo destes, vindo de uma figura pública que é um role model para milhões, não deve ser tolerado;

4) Will Smith podia estar a ter um dia mau, a passar por uma fase complicada, agravada até pela doença da esposa, e ter-se deixado levar pelas emoções mais primárias. Afinal, ele é um ser humano como qualquer um de nós e, como nós, comete erros. Não contem comigo para o catalogar como monstro por um acto isolado. Mais ainda quando é sabido que o próprio Will Smith viveu na pele o drama da violência doméstica, ainda criança. Tal não retira gravidade à atitude em si, mas as coisas nem sempre são tão claras como aparentam ser e o contexto é sempre importante;

5) Os limites do humor não são as nossas convicções nem a nossa sensibilidade para assuntos mais ou menos delicados. É a lei. Não foi Chris Rock que passou dos limites. Foi Will Smith;

6) Não são os limites do humor, a prioridade desta discussão. É a violência e a sua normalização enquanto método legítimo, que não é. Porque hoje é uma chapada por causa de uma piada sobre alopécia, amanhã poderá ser porrada por qualquer outra piada que incomode cada indivíduo na sua existência. E quem diz piada diz convicção social, fé religiosa ou ideologia política. Não somos Putins nem Xi Jinpings. Ou pelo menos não deveríamos ser;

7) Não haver um segurança que levasse Will Smith para fora do local da cerimónia dos Óscares diz tudo o que precisamos de perceber sobre o privilégio das elites. Will sobe ao palco, agride o apresentador, volta para o seu lugar, senta-se e fica ali, sereno, como se nada fosse, a aguardar pela sua estatueta. Qualquer um de vós que fizesse o mesmo numa cerimónia idêntica ia direitinho para a esquadra mais próxima;

Era isto. Continuação de uma boa tarde!

Sim, temos de estar dispostos a pagar este preço

Sahra Wagenknecht, a figura mais proeminente do partido alemão “die Linke“ (digamos, o BE alemão), convidada frequente em talk shows, afirma e repete que “a guerra económica contra a Rússia prejudica-nos sobretudo a nós próprios”.

E continua: “O Instituto Federal de Estatística calcula uma taxa de inflação de 7,6% para Março – a mais alta dos últimos 40 anos. Isto significa que os alimentos, o combustível e a energia estão a tornar-se cada vez mais caros para muitas pessoas. Especialmente as famílias com rendimentos baixos e médios estão assim a enfrentar graves problemas existenciais. Muitas famílias são empurradas para a pobreza devido ao aumento dos preços. A lei socialmente desequilibrada e completamente inadequada de alívio energético da “coligação semáforo” pouco fará para alterar esta situação.

Actualmente, 43% dos alemães assumem que a sua situação económica pessoal será pior em cinco anos do que é hoje. (…) [Read more…]