Humberto Cerqueira, PS. Actual Vereador
A TAXA DE ROUBO
A Taxa de Roubo – Mário Crespo
DELICIEM-SE!…
«VOTO EM BRANCO» A ARMA DO POVO QUE MAIS AFLIGE O
«BLOCO CENTRAL DE INTERESSES»
A Taxa de Roubo
Os técnicos do Instituto Nacional de Estatística têm que criar mais um índice. A Taxa de Roubo. Um indicador destes devia ser periodicamente elaborado e divulgado em conjunto com os níveis de desemprego, de inflação ou do Produto Interno Bruto. Com uma Taxa de Roubo incluída no conjunto das funções estatísticas que já compilamos, teríamos uma imagem muito mais clara do Estado da Nação.
Se houvesse Taxa de Roubo, os noticiários da semana passada, para além dos números do PIB e do Desemprego, teriam incluído que no primeiro trimestre a Taxa de Roubo em Portugal se tinha mantido entre as mais elevadas do mundo industrializado.
Os analistas podiam depois ir à TV para nos desagregar a Taxa de Roubo (TR) nos seus componentes mais expressivos, o NSP (Nível de Sonegação Pura), que inclui tudo o que seja trocas em dinheiro vivo em malas, e o GDC (Grau de Desfalque Contabilizável), que descrimina os montantes em off-shore e os activos já transformados (quintas, apartamentos, carros, barcos e acções não cotadas na Bolsa que valorizem mais de um centena de pontos em recompra).
Assim, ao sabermos que já temos mais de meio milhão de desempregados e que a economia nacional continua a soluçar em níveis anémicos, ficaríamos a saber também que o grau de gatunagem nacional continua intocado e que, apesar da crise, de facto, a nacional roubalheira subiu em termos homólogos quando comparada com trimestres passados.
Ficaríamos a saber que a volumetria do roubo em Portugal é das mais imponentes na Zona do Euro e que, contrariando o pessimismo de Pedro Ferraz da Costa quando disse ao Expresso que Portugal não tinha dimensão para se roubar tanto, há perspectivas para a Taxa de Roubo continuar crescer.
A insistência do Partido Socialista nos mega-projectos que, antes de começar já assinalam derrapagens indiciadoras de que a componente PPF (Pagamentos a Partidos e Figurões) vai crescer muito, é uma garantia de uma Taxa de Roubo que rivaliza com qualquer democracia africana ou sultanato levantino.
No PSD, a presença de candidatos com historial em posições elegíveis e em ternurenta proximidade com a líder, sugere que as boas práticas que têm sustentado a Taxa de Roubo vão continuar nos eventuais Ministérios de Ferreira Leite.
Neste ambiente de bagunça ideal, em que se juntam as possibilidades de grandes obras públicas com o frenesim eleitoral, os corretores podem mesmo, à semelhança do que se passa no mercado de capitais, criar valor com Futuros baseados nos potenciais de subida da Taxa de Roubo Portuguesa.
Por exemplo a inclusão de António Preto nas listas do PSD funciona como uma espécie de colateral de garantia de que os fluxos de dinheiros partidários continuam com todas as perspectivas de crescimento. Mudam as malas, mas continua tudo na mesma.
Pode-se pois criar à confiança um produto derivado colateralizado de alto rendimento e risco relativo, porque os dois grandes partidos obviamente confiam que a ingenuidade do eleitor português se mantenha.
Julgo que, tal como Ferraz da Costa, também Henrique Medina Carreira foi excessivamente prudente ao comparar o Portugal político a um “grande BPN”.
Acho que com TGV, auto-estradas, Freeport e acções não cotadas da Sociedade Lusa de Negócios a render lucros de centena e meia de pontos, Portugal é uma holding de rapinagem que faz o que se passou no BPN parecer a contabilidade de uma igreja mórmon.
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Cartazes das Autárquicas (Portalegre)

José Escarameia, PS, Portalegre (enviado pela nossa leitora Maria Monteiro)
DESABAFO AO FIM DA TARDE
Nesta barbárie, em que os verdadeiros terroristas são impostos aos olhos mais ou menos cegos, como agentes da paz, neste mundo em que a escroqueria do poder pôs a humanidade a comer excrementos com sabor a caviar, eu tento aquecer o pensamento com o abraço frio do nascer do sol.
Sempre tive um especial fascínio pela linha do horizonte, não tanto pela luz como pela sombra que a antecede e me dá aquela diária esperança de que a luz virá, um dia, até nós.
Com meia dúzia de pincéis e um cesto de palavras vou à procura da sombra, mas a sombra está sempre, desgraçadamente, para lá da sombra, a sombra sobra sempre onde tudo falta quando não há luz. A humanidade foi reduzida a um buraco sem janelas e eu não sei viver assim, sem a fresca luz da linha do horizonte.

(adão cruz)
Santarém: Capital do Gótico (III)
(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)
Foto tirada daqui.
Em função do clima, dos solos, da topografia e da ocupação humana, é usual fazer a distinção de quatro zonas dentro do concelho de Santarém: o campo, o bairro, a charneca e a serra. Correspondem, no fundo, a três áreas distintas: a zona do vale do Tejo e seus principais afluentes, a peneplanície ondulada e a serra.
O seu aproveitamento faz-se consoante a ordem emanada pelas características geográficas. Se na lezíria e no bairro o aproveitamento agro-pecuário é excelente, dada a abundância de água e a fertilidade dos solos, já na charneca opta-se pela silvicultura, dada a pobreza dos solos, e na serra, devido às mesmas razões, opta-se pela extracção de pedra.
O campo ou lezíria encontra-se junto à margem direita do rio Tejo e ao curso inferior dos seus principais afluentes. É composto por aluviões modernos, profundos e férteis, de elevada produtividade. São considerados dos melhores solos agrícolas do país. Aqui, «a paleta cromática varia entre os azuis da atmosfera e do rio, os amarelos dos assoreamentos do estio e mouchões e as tonalidades de verde» (José Augusto Rodrigues)
À zona por onde o Tejo se espraia, durante as cheias, chama o povo a borda d’água. Aí se fixaram, ao longo dos tempos, povos vindos de todo o país. Os vareiros que vinham de Ovar, os avieiros de Vieira de Leiria, os das Beiras e os do Minho. Chegavam todos para fugirem à fome, para se alimentarem do Tejo, para se fixarem em terras férteis que lhes permitiam uma vida mais sustentada.
Entre o vale do Tejo e a serra, na zona das colinas que dominam Santarém a norte e a oeste, surge uma peneplanura dobrada, entrecortada por diferentes linhas de água, que ocupa grande parte da área concelhia. É o bairro. A sua formação resultou de processos geológicos semelhantes àqueles que ocorreram no planalto da cidade.
O seu relevo caracteriza-se por um grande número de pequenas ondulações e os seus solos por serem argilo-arenosos e argilo-calcários, propícios para as culturas de sequeiro. Segundo a carta ecológica de Pina Manique Albuquerque, o bairro está incluído na zona atlântico-mediterrânica-submediterrânica.
As oliveiras, seculares, são a sua principal cultura. De resto, a extensa mancha que se forma pelo coberto vegetal existente transporta consigo uma imagem de continuidade e de ligação entre a parte alta da cidade e zona do rio. Para além dos olivais, registam-se várias espécies arbóreas, arbustivas e subarbustivas espontâneas.
A charneca localiza-se em depressão entre o bairro e a serra. Tem terras mais pobres, daí a opção pela silvicultura. Pinhais, eucaliptais e matagais, a par da oliveira e da vinha, constituem grande parte da sua área. Aposta-se ainda nos fornos de cal e nas indústrias de barro vermelho. Uma área cuja história está relacionada com as montarias de Santarém, terrenos adequados à caça do porco montês e do javali. Aí se praticava também, desde o século XIII, a altanaria – caçada com aves de rapina ensinadas, as quais, voando alto, iam cair sobre a presa.
A serra, por fim, delimita o concelho a norte. É a zona do maciço estremenho de Porto de Mós, a de maior altitude e onde predominam os afloramentos rochosos e as pedras soltas. Os relevos são interrompidos por depressões relativamente planas, onde é possível observarem-se pequenas manchas agrícolas, os covões. Uma área que se estende em arco de círculo desde Valverde, a oeste, até ao limite do concelho com o de Alcanena. A extracção de pedra, com vista à construção de pavimentos e ornamento, é uma das actividades fundamentais, visto que as condições dos solos não dão para muito mais.
A zona do vale do Tejo e dos seus principais afluentes é plana e está em posição oposta à serra. Nesta, é possível registar a existência de um grande número de valas de rega com diques e vaiados, que contribuem para a sua drenagem numa zona outrora pantanosa utilizada para apascentar o gado bovino e equino.
CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (4)
CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (4)
O Senhor não devia pertencer a esta América. Sendo o Senhor uma pessoa inteligente, sabe que sem esta América, muito provavelmente, não haveria terrorismo. Sem esta América, muito provavelmente, não teria havido tão brutal recrudescimento e institucionalização do terrorismo. Sem esta América, muito provavelmente, teria havido a inteligência e a sabedoria para reconhecer as causas fundamentais do terrorismo, tais como a ausência de sensibilidade dos poderosos em relação aos fracos, a pobreza generalizada, as formas de descriminação, a ingerência na soberania dos povos e todas as formas de invasão. Ter-se-ia, provavelmente, combatido o terrorismo de forma racional e eficaz, na sua origem. Sem esta América, provavelmente, não teria havido a obscenidade do assalto e ocupação da Palestina, esse crime intolerável, verdadeiramente bárbaro, praticado pelos israelitas criados à imagem e semelhança de Bush, de Rumsfeld e de Dick Cheney, e que nada têm a ver com os cento e cinquenta mil israelitas que desfilaram em Telavive, manifestando-se contra a ocupação. Sem esta América não teria havido a brutal chacina da faixa de Gaza que tantos milhares de mortos e tantos ódios irreparáveis tem feito nascer no seio da comunidade árabe e da humanidade em geral. Sem a América não haveria, provavelmente, esta espécie de campeonato de sangue entre “americanos” e palestinianos, entre americanos e iraquianos, entre americanos e afegãos, a ver quem mata mais.
Não deixe, amigo Obama, que a lágrima de alegria vertida aquando da sua eleição seque ingloriamente na face da humanidade. (Continua).

(adão cruz)
Anthony dos Santos – Michael Jackson em francês
Michael Jackson – Je Ne Veux Pas La Fin De Nous
Enviado por conscience-tranquille. – Ver os últimos vídeos de musica em destaque
La seule chanson que Michael Jackson a chantée en français, l’adaptation de “I Just Can’t Stop Loving You” (Je Ne Veux Pas La Fin De Nous) écrit par Christine “Coconut” Decroix, c’était une amie de Quincy Jones, et chanté par Siedah Garrett.
Par contre la chanson n’a jamais été interpréter en concert, une vidéo circule sur le net ou MJ chante en fr est un montage.
A ARTE (4)
A ARTE (4)
A obra de Arte, neste caso a pintura, assenta em três pilares fundamentais: a Natureza ou a sua imitação, o material da construção plástica e a expressão própria do autor, ou seja, a realidade, a beleza e a poesia. Conforme as aspirações de cada época, de cada grupo, ou de cada indivíduo, de acordo com a sua própria natureza, os seus propósitos, as suas tendências ou a sua inspiração, qualquer destes elementos pode ser preferido e elevado aos primeiros planos da realização, ou relegado para planos de menor ou ínfimo destaque. Apesar de haver, desde há muitos anos, uma tendência a menosprezar o Realismo e o Naturalismo, e a considerá-los não-Arte ou Arte menor, não parece possível, dentro da nossa realidade humana, e dentro da mínima exigência pictórica, prescindir de qualquer um destes pilares, por mais naturalista, abstracta ou conceptual que seja a obra. Cézanne dizia que na pintura existem duas coisas, olhos e cérebro. Entendia ele que uma inteligência artística que não seja acompanhada pelo estudo da Natureza é uma mera abstracção desprovida de valor, e dizia ainda que o conhecimento da realidade não é contemplativo mas nasce da vontade de apropriação. Vendo bem, não há um verdadeiro realista, a não ser que não conseguisse, minimamente, manifestar a sua própria existência, assim como não há um verdadeiro abstraccionista, capaz de unir o absurdo ao absoluto. (Continua).

(adão cruz)
TEXTO RECEBIDO DE UM AMIGO MEU, CIRURGIÃO CARDÍACO
TELEVISÃO PÚBLICA – SOBRAM OS PROGRAMAS, ESCASSEIA A VERGONHA!
A RTP2 anuncia por estes dias, muito prazenteiramente, aquilo a que chama “uma fascinante série documental”, em três episódios, com o título sugestivo de “Comunismo – História de uma ilusão”. É, segundo parece, de origem alemã. Da apresentação promocional da série fazem ainda parte algumas considerações de que destaco estas: “Como é que é possível que esta ideia possa fascinar tanta gente, incluindo centenas de intelectuais? De que modo é que milhares de pessoas acabam com a repressão a indignidade e a opressão económica e mesmo assim continuam fiéis ao conceito de comunismo?”. Confesso que adorei o perdulário número de “centenas de intelectuais”! Foram contados no bairro do autor? No mundo inteiro? Mistério…
Devo dizer que sou normalmente cliente deste tipo de documentários, feitos de sinais contrários, de polémica, maior ou menor rigor, etc. De qualquer modo, este não vou ver. Já conheço o género, coalhado de “testemunhos”, que no caso presente incluem, segundo o anúncio, questões postas a “conceituados cientistas e antigos membros do KGB”, ou seja, o sketch completo.
Vamos partir do princípio que eu nem teria opinião sobre um “documentário” destes. Um princípio disparatado… mas poderia acontecer…
Agora do que tenho seguramente opinião é sobre a total falta de vergonha na cara da direcção de programas de uma Televisão Pública e da tutela do Partido Socialista (que é a mesma coisa que o Governo) que puxa os cordelinhos da televisão, os quais têm a desfaçatez de no início de uma campanha eleitoral a que concorre um Partido Comunista, força política maioritária da CDU, beneficiarem de maneira cega e ostensiva todos os restantes partidos concorrentes, promovendo esta campanha de pedestre anticomunismo, que, num toque de humor rasca, os milhares de contribuintes comunistas são também obrigados a pagar.
Faço questão de dizer, sobretudo a quem não me conhece, que este documentário (ou qualquer outro) tem toda a legitimidade para integrar a programação do Serviço Público de Televisão, desde que fora de um ambiente de campanha eleitoral e sendo observados os princípios de pluralismo e equidistância, por parte da Estação do Estado.
Felizmente, muitos milhares de portugueses, independentemente destas manobras, vão votar comunista em 27 de Setembro e 11 de Outubro próximos, confirmando os piores receios daqueles que não se conformam com a recusa dos comunistas portugueses em desaparecer de cena e que, antes pelo contrário, dão passos no sentido do crescimento e rejuvenescimento.
Infelizmente, poderiam ser alguns mais, mas para isso seria necessário estarmos a bater-nos politicamente contra adversários que cumprissem “os mínimos” de decência democrática, honestidade e, como disse logo a abrir, de vergonha na cara.
Um fisco para mim, um fisco para ti…
Eis como se pode fugir ao fisco.
Será que quando for grande também posso fazer assim?
POEMAS DO LUSCO-FUSCO
Não sei onde é a vida
sei que ela vive no caminho dos montes
sei que mora na poesia
e na música do percurso.
Sei que só é poema quando a gente acredita
que a neve pode ser pintada de cores quentes
e o mar cabe numa gota de orvalho.

(adão cruz)
QUADRA DO DIA
Bate bem co alho porro
No toutiço dos loureiros
Tanta sardinha eles roubam
Que rebentam os pandeiros.
S.L. Benfica – FutAventar #2
Guimarães é terra que usa o que não é seu – o berço, diz-se, é Viseu, mas eu, que de bola nada sei, desconfio. Que a bola bateu na mão, bateu. Mas, sendo bom o que é Nacional, como é que se considera penalty quando uma bola é enviada pelo jogador do Porto a menos de um metro do defesa madeirense e, por acaso foi bater na mão. Cá está a prova de como o que é Nacional afinal não é assim tão bom e razão tem o nosso João, o Alberto. Sim! Esse. O que diz que o primeiro dá mau nome aos Socialistas madeirenses.
Voltando aos de Guimarães, procuraram defender o castelo, mas o que faltou no ataque ao Paquete da madeira, voltou ao minuto 90 – o GOLO do MAIOR CLUBE DO MUNDO!

Ao minuto 90, marca o golo da vitória
Em dois jogos, o Benfica já leva quase 90 mil pessoas nas bancadas e está tudo no bom caminho. Até o penalty a favor do Porto!
FutAventar – F.C. Porto#3 – O Douro
Eu não sei se os meus colegas de blogue conhecem o Douro.
Eu tive o privilégio de o conhecer nos anos oitenta graças a ter conquistado o coração de uma duriense. Desde essa altura que, num caso e noutro, o meu coração ficou aprisionado. Ao longo dos anos fui viajando por alguns lugares. Mas nada se compara ao Douro, aquele Douro justamente Património da Humanidade. Mesmo que a palavra Património seja um pouco deslocada da realidade. O Douro não é Património de ninguém, nem da Humanidade. O Douro é a mais universal das democracias, é o verdadeiro poder do Proletariado. É do Homem com h grande. É de todos e não é de ninguém. Confesso que não sei se existe Paraíso e Inferno, deixo isso para os entendidos mas se o Paraíso existe eu já o conheço, é o Douro. O Douro que caminha entre Barca de Alva e a Régua. É aquele que se encontra nos livros de Torga. É o que serpenteia pela estrada entre Folgosa e Valença do Douro, entre o Pinhão e a Quinta de Ventozelo e desta até S. João da Pesqueira. É o Douro da paisagem natural com mão do Homem, quente e seco, verde e castanho, do pó e do xisto, das mãos repletas de calos e de enormes sulcos que marcam anos e anos de vida enleados entre as videiras. É o Douro. O Douro do meu restaurante preferido (ESTE), do meu hotel de eleição (ESTE). O meu Douro.
No último fim-de-semana regressei ao Douro. Já não o via há muito, muito tempo. Já tinham passado talvez um quinze dias antes da última visita, uma eternidade. Fui matar saudades para o Pinhão. Se a viagem Pinhão – Valença do Douro – Castanheiro do Sul – Paredes da Beira – Penedono é absolutamente transcendente, imaginem fazê-la de noite, uma coisa indescritível que, valha a verdade, nunca antes tinha realizado. Foi de cortar a respiração. Se o Douro é o que é de dia, de noite é já coisa do divino. Não vos vou maçar muito mais com o Douro até por um motivo simples: qualquer descrição pecará sempre por defeito, o melhor mesmo é calçar os tamancos e “bute” para a estrada. Um roteiro? Ainda é cedo para vos guiar, terão de esperar. Em breve, em breve.
Deixo-vos com umas fotos tiradas no Pinhão. Aliás, vou-vos deixar com três fotos, tantas quantos os golos do Porto hoje, frente ao Nacional. Outra obra-prima da Humanidade este meu Porto e nem seria de esperar outra coisa. Senão reparem, onde desagua este belo pedaço de água a que chamam “de Ouro”?
No Porto, meus caros, sempre o Porto e a água é azul e branca a sua representação de pureza. Azul e Branca. Três bolas a zero. Pois.



Santarém: Capital do Gótico (II)
(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Santarém foi feita pelo Homem, que moldou a natureza aos seus próprios interesses. A cidade é também obra do rio. Um rio «gigante», no dizer de Vítor Serrão, que ajudou a construir uma plataforma natural articulada com sete colinas sinuosas. Uma especificidade orográfica difícil de encontrar transformou Santarém numa cidade «sui generis».
Santarém foi, desde sempre, uma terra a todos os níveis ilustre. No dizer de Afrânio Peixoto, a história de Santarém confunde-se com a história de Portugal. A história de Santarém pois é a história da pátria.
No princípio, aquela terra seria pouco menos do que inexpugnável. Daí a visita que recebeu de grande parte dos povos que atingiram a região ocidental da Península Ibérica. Dos fenícios aos muçulmanos. Dos primeiros, ficaram os vestígios de actividades ligadas à indústria, na colina das Portas do Sol. Dos últimos, a devastadora acção da conquista, mas mais ainda a sua actividade comercial e a toponímia.
Na época romana, Scallabis foi capital de um dos três distritos em que se dividia a Lusitânia (os outros eram Mérida e Beja). A subida posterior do nível das águas do Tejo poderá ter estado na base do desaparecimento de muitos dos monumentos dessa época. Os romanos influenciaram a cidade até hoje. A sua actual configuração denuncia ainda, de certo modo, o urbanismo romano, acima de tudo rectilíneo.
As fontes parecem fazer crer que Santarém, na época romana, bárbara e muçulmana, foi um importante centro cultural. Desde o nascimento de Cornellius Bochum, autor de uma «Crónica do Mundo», passando pela presença do bispo João Biclarense, na época visigótica, e do moçárabe Ibn Bassam. Em todos estes momentos, a cultura, as artes e as letras desempenharam papel de relevo no contexto ibérico.
Em 1147, Santarém foi definitivamente conquistada aos mouros. Já mudara de nome nessa altura. A lenda relaciona o facto com o milagre de Santa Eirena ou Iria, cujo corpo, martirizado em Tomar, foi ter a Scallabis. Recaredo, rei godo convertido a Cristo, logo tratou de (re)baptizar a povoação.
Com a ocupação cristã, Santarém conquistou um período de grande esplendor. Aquela «fonte mágica de atracção cultural» encantou mesmo poetas, escritores e até os primeiros monarcas portugueses. D. Afonso Henriques fez questão de a ter para si, D. Afonso III elegeu-a como a sua predilecta, D. Dinis escolheu-a para morrer. Ainda D. Pedro I, que ali mandou matar os assassinos de Inês de Castro, e Leonor Telles, que ali se refugiou.
Para lá das escolhas reais, Santarém esteve em momentos fundamentais da história de Portugal. Do século XII ao século XIV, por dezasseis vezes ali se reuniram as cortes. Enumerar seria fastidioso, mas as de 1273 e as de 1418 não terão sido por certo as menos importantes.
Aqui se cantaram, tanto nas cortes dos reis como nas ruas do povo, as melancólicas cantigas de amigo e de amor e as irónicas cantigas de escárnio e maldizer. Tradições musicais que os jograis trouxeram e que perduraram pelos séculos fora até chegarem aos dias de hoje.
Aqui se tomaram decisões importantes relativas aos Descobrimentos portugueses. Daqui partiram muitos das ilustres personagens que fizeram a história marítima portuguesa. Aqui se cortou, com o machado e a força do braço, a madeira que ia servir para fazer as caravelas da conquista e da descoberta.
Em 1491, morre na Ribeira de Santarém o infante D. Afonso, príncipe herdeiro e filho único de D. João II. Os reis não voltam lá com a frequência de outrora, a vila entra em declínio e os palácios ficam arruinados. Só os conventos se salvariam. Mas na perda da independência do século XVI e na Restauração que se lhe seguiu, os santarenos mostraram que não tinham morrido e honraram os seus pergaminhos.
As Invasões Francesas, entre 1807 e 1810, não vão fazer mais do que acentuar a desolação provocada por uma vila que perdera as suas características mais nobres. O século XIX foi o século das revoluções, mas em Santarém foi o das destruições. Quanto aos terramotos dos séculos anteriores, já tinham dado uma ajuda.
Quanto às guerras civis, ilustraram bem a nobreza e o carácter de uma cidade que, apesar de tudo, nunca se submeteu à tirania e à baixeza de ideais. O liberalismo triunfou, Sá da Bandeira e Saldanha entraram impantes na cidade, D. Pedro subiria ao trono mais curto da história da lusa pátria.
Em 1881, é inaugurada a ponte D. Luís, para Almeirim. O comboio estabelece uma ligação rápida com Lisboa. A partir de 1900, a população cresce rapidamente, a vila, feita cidade desde 1886, segue um rumo ao progresso e começa a crescer em altura, mas respeitando, na maior parte das vezes, projectos e traçados antigos que, em alguns dos casos, remontavam à época romana.
De Santarém partiu a revolução, no heróico dia 25 de Abril de 1974, por assim dizer o mais importante dia do nosso século XX. Aqui levantou o bravo capitão Salgueiro Maia a força da coragem, com o único objectivo de libertar o povo português da opressão em que vivia. Sem motivações políticas, sem escusos intuitos, sem nenhum tipo de ambição a não ser a do patriotismo. Como foi diferente o nosso capitão de todos quantos, a seguir, tomaram em suas mãos a governação de Portugal. Como foi desaproveitada a lição que Salgueiro Maia deu.
Tudo isto junto confere a Santarém um lugar único nas cidades portuguesas. Pode não ser a mais bonita de todas, pode não ter tanta história como as outras, mas é indubitavelmente uma cidade única. Por todas as razões, das quais a localização geográfica se assumiu desde sempre como a principal e modeladora de todas as outras. Criando o tal «espírito de lugar» de que Jorge Custódio falou e que já muitos outros, desde a Idade Média, sentiram.
«O contraste paisagístico entre o planalto e a planície; a relação das diversas e diferentes áreas que se constituíram ao longo dos tempos, quer no planalto, quer na margem direita do rio Tejo; a geomorfologia do terreno, articulada pela descontinuidade oferecida pelos vales profundos – autênticas ribeiras correndo em direcção ao rio, cobertos de vegetação ripícola; as encostas verdejantes que ligam harmonicamente as partes baixas com as altas; a área planáltica edificada donde sobressaem os volumes dos telhados e as torres das igrejas. Tudo se organiza num todo, onde o rio, o vegetal e o planalto, com o edificado, se fundem numa síntese natural e urbana.» (José Augusto Rodrigues)
A candidatura a Património Mundial da Humanidade poderá ser uma forma de reabilitar o conjunto urbano de Santarém e de preservar a unidade histórica e artística do seu centro. Tarefa sempre difícil, ainda mais numa cidade que chegou a ter catorze conventos e trinta e seis igrejas. Nesses monumentos, os que subsistiram, e em todos os outros, estão presentes os mais variados estilos artísticos e arquitectónicos. Mas de quantos aqui marcam presença, um deles ultrapassa todos em qualidade e em quantidade. O gótico, obviamente, com a força e a pujança que recebeu quando chegou da Europa. Santarém, a Capital do Gótico.
Santarém, a cidade, é mesmo o que há de mais importante neste concelho de vinte e oito freguesias e neste distrito de concelhos. Concelho que nem sempre foi o mesmo, que já teve uma configuração diferente, que hoje alberga no seu seio povoações que já foram municípios independentes até há não muito tempo, como Pernes ou Alcanede.
Mas nada faria sentido se não existisse a sede do concelho, se não existisse Santarém. Daí o destaque para a cidade das sete colinas. De onde Santarém continua a observar a lezíria. E atrás dela, a humanidade que aí vem.
Portugal… de 18 em 18 dias
Tirei uns dias da semana passada para conhecer melhor uma região do nosso país. A região de Basto, algures ali pelo parque do Alvor, entre Mondim e Vila Real.
Mondim é a Terra falada anualmente pela chegada da Volta à Srª da Graça e que me permitiu algumas experiências fantásticas. Em contacto com um agricultor local fiquei a saber algo que me impressionou. No dia seguinte ao jantar que tivemos, o senhor Joaquim tinha que se levantar cedo porque tinha que ir regar os campos. Até aqui, nada de extraordinário. O meu problema com as manhãs não é, sei há muito, extensivo ao mundo rural.
Fiquei depois a saber que a água em causa, sai de uma nascente na serra para uma presa (tanque) onde é retida durante a noite. Depois, pela manhã, bem cedo, é altura de lhe permitir dar vida às plantas. Acontece que estas duas acções – prender a água à noite e permitir a sua liberdade durante o dia é responsabilidade de um agricultor, neste caso concreto, de dezoito em dezoito dias. Nos outros 17 dias irá regar ou não em função da água que primeiro vai passar por outros terrenos, chegar ou não aos seus.
E esta situação, para mim surpreendente é extensiva a todas as outras localidades e resulta de uma organização secular que vem sendo transmitida de geração em geração.
Perante esta situação tão extraordinária aos olhos de um Homos-urbanis tentei perceber como se percebe o futuro por aquelas terras. Qual futuro? Responderam-me! Não há futuro. Só gente velha a tratar a terra em condições impossíveis e um futuro que foge ainda mais depressa com as auto-estradas que se aproximam.
Simplesmente, não há futuro! Só passado!
POEMAS DO LUSCO-FUSCO
Na viagem solitária
entre dilema e decisão
não há estrada nem caminho
não há tempo nem razão
não há nuvem nem há vento
que tenha a força da paixão.

(adão cruz)
CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (3)
CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (3)
Meu caro amigo Obama, é uma vergonha nos tempos de hoje uma pinochetada destas nas Honduras. Que grande passo atrás no difícil caminho do mundo para a conquista da paz e da justiça! No fundo, gostaria de acreditar que pensa como eu. Mesmo assim, acredito que há uma grande diferença entre si e uma boa parte do povo americano desta América. Esta América, feita da mesma matéria de Bush, Rumsfeld e Condoleeza, pouco se choca com as adversidades dos outros povos do mundo, a quem considera, estou convencido, pouco mais do que um enxame de moscas. Está-lhe na massa do sangue, na sua deficiente formação, alheia a qualquer cultura social internacionalista, na incapacidade do correcto entendimento do mundo, na dificuldade em libertar-se de uma configuração mental atravancada de mitos e preconceitos, e enformada de viciosos esquemas consuetudinários, mediaticamente mantidos e programados. Torna-se claro que o cérebro de muitos não funciona com neurónios humanos mas com uma espécie de fios de enferrujados.
O vergonhoso golpe das Honduras e as subreptícias manobras na Colômbia, onde está a nascer uma perigosa situação de beligerância, nem chegam a beliscar a mente do povo americano, e são motivo, quando muito, para uma gargalhada entre duas cervejas. O derrube de um presidente democraticamente eleito e a sua substituição por um punhado de golpistas serventuários do imperialismo não abrem os olhos a ninguém. Perante tão vergonhoso escândalo, os meios de comunicação social, na sua crónica servidão do poder, caíram em pesado silêncio, levando o mundo a assobiar para o lado.
Não permita que a alegria da sua eleição se converta em lágrimas de tristeza.
(Continua).

(adão cruz)
QUADRA DO DIA
Não há planta mais daninha
Neste campo de trabalhos
Do que a planta dos loureiros
Carregada de bandalhos.
ARRANCOU A RENTRÉE POLÍTICA
.
CDS É O PRIMEIRO
.
.
Lampião q
ue vai à frente, ilumina duas vezes, diz o povo, muitas vezes com razão.
Assim poderá pensar o CDS/PP, que agora arranca a sua campanha para as Legislativas e as Autárquicas, com um comício em Aveiro.
Sobre a “rentrée” já falei antes, há uns dias, aqui.
Na Praça do Peixe, quando fizer o seu discurso, Portas vai privilegiar as questões económicas e a segurança. Serão as suas bandeiras nas campanhas que se avizinham. O ataque cerrado ao ainda nosso Primeiro, será mais um dos tópicos que estará sempre presente nos seus discursos.
Este arranque temporão, pode dar-lhe os frutos que necessita para ter um resultado similar ao que teve nas eleições Europeias, e assim a possibilidade de ser de novo um partido de poder, em coligação com o PPD/PSD.
Durante os últimos quatro anos e meio, foi o partido mais interventivo do centro-direita, no combate ao partido do governo, mais parecendo, Paulo Portas, o líder da oposição. Estará na hora de lhe darem os votos que realmente merece.
.
Cartazes das Autárquicas (Stª. Maria da Feira)
A família Simpson mudou para Angola
Uma das mais famosas famílias do mundo acaba de ganhar mais um espaço em África. Obama? Não, não é a família do presidente dos EUA. É, sim, a família Simpson.
Consta que vão fazer as malas e rumar da nuclear Springfield para a menos poluída África, em concreto para Angola, conta o jornal britânico Daily Mail.
A agência de publicidade Executive Center decidiu encomendar uma promoção animada da família de Homer, Bart e companhia, alterando-os em termos de cor, indumentária e estilo, de forma a ficarem num registo africano.
O sofá está lá, tal como o comando da televisão. O quadro mostra agora uma cena de savana africana e o candeeiro deu lugar a um conjunto de som ao melhor nível do gosto africano.
Independentemente de tudo, e mesmo sabendo que é apenas uma campanha de promoção dinamizada por uma empresa, este é mais um claro sinal de que Angola está a ganhar crescente importância económica e um lugar de maior destaque no mercado mundial.
Tenho a certeza que os Simpsons não se mudariam, ainda que de forma provisória, se não fosse assim.
Antologia de pequenos contos insólitos: O Peão
Apresentamos um conto do grande escritor norte-americano Ray Bradbury (1920), autor de livros de ficção-científica, sendo The martian chronicles, 1950 – «O Mundo Marciano», na edição portuguesa, o mais conhecido. Escreveu também «Fahrenheit 451», adaptado ao cinema por François Truffaut. «O Peão» é extraído de «S is for space» (1970). Uma noite, ao sair de um restaurante em Los Angeles, apeteceu-lhe passear a pé. Um polícia mandou-o parar, perguntando o que fazia ele andando pela cidade. Nessa mesma noite escreveu «O Peão».
Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de Novembro, pousar os pés sobre o sólido passeio de cimento, pisar as fendas com ervas, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as ruas banhadas pelo luar nas quatro direcções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só. Tomada uma decisão definitiva, escolhido um caminho, começaria a andar, soltando baforadas de ar congelado à sua frente, como o fumo de um cigarro. Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com as suas janelas escuras; era como caminhar por um cemitério, pois só leves clarões de luz fantasmagórica eclodiam por detrás das janelas. Súbitos e cinzentos espectros pareciam surgir sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-túmulo estava ainda aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, os pés sem fazer ruído no pavimento irregular. Há muito que, prudentemente, passara a usar sapatos de ténis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam a sua caminhada com latidos, se usasse calçado com sola de couro, as luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, toda uma rua se alvoroçar com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de Novembro.
Nesta noite, em particular, tomara a direcção Oeste, rumo ao mar, invisível. Havia um frio cristalino no ar que cortava o nariz e fazia os pulmões arder por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava com prazer o calçado macio empurrando delicadamente as folhas de Outono, assobiava frio e baixinho, entre dentes, arrancando ocasionalmente uma folha de passagem, examinando o desenho esqueletal, à luz de um raro candeeiro público, enquanto caminhava, aspirando seu odor ferruginoso.
— Ó da casa — murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que passa hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Para onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, no meio de uma planície. Fechou os olhos, e permaneceu imóvel, gelado. Podia imaginar-se no meio de uma planície, numa pradaria americana, sem ventos, inverno, sem qualquer casa num raio de mil milhas – só leitos secos de rios, como aquelas ruas.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando o relógio de pulso — Oito e meia? Hora de uma dúzia de episódios de assassínios? Um concurso? Um musical? Um comediante tropeçando e caindo do palco?
Terá ouvido um murmúrio de risos, vindo de uma das casas brancas ao luar? Hesitou, mas continuou, quando nada mais aconteceu. Tropeçou numa irregularidade maior do passeio. O cimento estava a desaparecer, sob flores e mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa passeando, nunca, nem uma só vez. Chegou a um cruzamento deserto, onde duas avenidas principais atravessavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insectos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo dos tubos de escape, corriam para casa, nas mais diversas direcções. Mas agora, estas estradas, eram como os leitos de rios secos no Verão, banhados pelo luar.
Virou numa rua secundária, de regresso a casa. Estava a um quarteirão de chegar, quando, subitamente, um carro solitário dobrou a esquina e fez incidir um forte cone de luz branca sobre ele. Deteve-se, aturdido, como uma borboleta, atordoado pela luz, mas por ela atraído.
Uma voz metálica advertiu-o:
— Fique onde está! Não se mova!
Parou.
— Levante as mãos!
— Mas… – disse ele.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões de habitantes, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava a desaparecer; não havia necessidade de polícia, excepto este carro solitário vagueando pelas ruas desertas.
— O seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte nos seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode considerar um escritor.
— Sem profissão — disse o carro-patrulha, como que falando sozinho. A luz mantinha-o fixado como um espécime de museu, com uma agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer-se assim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Já não se vendiam livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-túmulos, à noite, pensou. Os túmulos, mal iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas se sentavam como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca tocando o seu íntimo.
— Sem profissão — chiou a voz fonográfica. – O que está a fazer cá fora?
— A passear — disse Leonard Mead.
— A passear?
— Só a passear — disse, simplesmente, percorrido por um arrepio.
— Passeando, passeando, passeando?
— Sim, senhor.
— Indo para onde? Para quê?
— Para apanhar ar. Passeando para ver.
— A sua morada.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E não há ar na sua casa; o senhor não tem ar condicionado, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela visora, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção crepitante, que em si era já uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas escuras e silenciosas.
— Ninguém me quis — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas passeando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para apanhar ar, ver, e simplesmente pelo prazer de andar.
— Já fez isso muitas vezes?
— Todas as noites, há anos.
O carro-patrulha estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Olhe lá, eu não fiz nada!
— Entre.
— Protesto.
— Sr. Mead.
Avançou como um homem subitamente embriagado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para o interior. Como esperava, não havia ninguém no ass
en
to dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma pequena cela escura, com grades. Cheirava a aço rebitado e a anti-séptico forte; um intenso odor higiénico, metálico. Nada era macio, ali dentro.
— Se tivesse uma esposa que lhe desse um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde me vai levar?
O carro hesitou, ou melhor, houve um zumbido abafado, como se a informação, algures, fosse dada por cartões perfurados, e olhos eléctricos — Ao Centro Psiquiátrico de Pesquisa sobre Tendências Regressivas.
Entrou. A porta fechou-se com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, a meio à noite, com os faróis acesos.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias, como leitos de rios secos, afastando-se, deixando as ruas vazias, com os seus passeios vazios, sem som nem movimento, na fria noite de Novembro.(1)
(1) Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda -Título original: S is for Space © 1966 by Ray Bradbury.
Santarém, Capital do Gótico

O facto de me ter tornado, de repente e contra minha vontade, uma figura de culto da blogosfera, obriga-me a ver o que se escreve por aí com um olhar diferente. Há coisas que me fazem sorrir, algumas outras que me fazem rir a bandeiras despregadas.
Anda por aí um gentil rapazola com umas ideias assaz estranhas sobre o património edificado de Santarém. É um mocinho arrojado, com qualidades, e muito me desgostou, há umas semanas atrás, que tenha anunciado o seu abandono da blogosfera. Talvez porque não tenha havido uma única alma caridosa a pedir-lhe para não ir embora, decidiu regressar. Fico contente, caso contrário não teríamos estes momentos de boa disposição.
No entanto, penso que devo intervir perante os dislates que têm sido escritos pelo simpático garoto. Não é por nada. É que, por uma questão de idade e de estatuto, devo-lhe esta pequena ajuda. Afinal, ninguém gosta de ver os outros a cometer erros, e a mim não me custa nada dar a mão a quem precisa.
Assim sendo, passarei a publicar, a partir de amanhã, alguns excertos da obra «Santarém: Capital do Gótico», por mim publicada, em 2004, sob o Alto Patrocínio da Câmara Municipal de Santarém. A parte relativa ao património edificado, como é óbvio, é aquela que, neste contexto, mais interessa. Dedico-a, com sincera amizade, ao esforçado ganapo.
DEUS COMO PROBLEMA OU A COMPLEXA SIMPLICIDADE DA EVIDÊNCIA (14)
Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (14)
Os que comem tudo e não deixam nada, os que movem os cordéis de todas as marionetas deste mundo, os que fazem a fome para que não lhes falte a fartura têm casas de ouro, férias para descansar de não fazer nada, hospitais de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservou durante séculos. No meio deste cenário parece nascer, por vezes, um raio de luz… encarnando o arrependimento divino em pessoas como Leonardo Boff e tantos outros, mas logo surgem da sombra vigilantes cardeais e papas como João Paulo II e Bento XVI, de mãos dadas com as catedrais do dinheiro, a representar uma Igreja retrógrada e absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, na cruzada contra toda e qualquer Teologia da Libertação, contra toda e qualquer filosofia política de amor, fraternidade e solidariedade para com os condenados da terra.
Não, José Saramago, venha o diabo e escolha. Mas o Deus de cá e o Deus de lá têm-se mostrado bastante diferentes.
Meu caro Saramago a quem muito considero, corroídos o discurso crítico e o cérebro, quase só nos resta, como diz e muito bem, ficarmos todos loucos ou então…acreditar em Deus. (Fim).

(adão cruz)
A ARTE (3)
A ARTE (3)
Aqui chegados, embora por caminhos muito simplistas, não é difícil compreender que esta criação mental gerada a partir das coisas e da Natureza, transformadas pelo mundo interior do artista e plasticamente traduzidas em beleza por mãos ensinadas quer geneticamente quer de forma adquirida, só ganha vida se correr pelas suas veias o sangue da poesia. Por isso eu digo que a poesia é a alma de qualquer obra de Arte. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e seja qual for essa forma, plástica, literária ou musical, só é expressão artística se contiver dentro de si a essência poética, essa mágica, nobre e sublime forma de expressão da vida. Arte e beleza são uma espécie de irmãs gémeas. A beleza pode considerar-se a corporização da Arte. A beleza reflectida à nossa volta não é mais do que a imagem do espelho que reflecte a Arte contida dentro de nós mesmos, como organização estética do nosso interior e da nossa vida. É ela que nos faz imaginar, pensar, sonhar e criar. A falta da apreensão da beleza e a ausência da reacção emotiva da sua percepção leva a que tudo à nossa volta seja inestético, desadequado e agressivo, daí decorrendo uma construção negativa do nosso mundo interior. A falta de apreensão ou a degradação do conceito de beleza implica uma igual degradação da forma de sentir e de existir, por perda do nosso interesse estético sobre o mundo e as coisas, e do mundo e das coisas sobre nós próprios. Sem este impacto estético não há forma simples e positiva de ver a vida e entender a Arte. (Continua).

(adão cruz)
TIREM AS CONCLUSÕES QUE ENTENDEREM
Afinal quem são os piratas?
Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê este artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilões de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos “ocidentais” estão rotulando como “uma das maiores ameaças do nosso tempo” têm uma história extraordinária a contar e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde deitar todo o lixo nuclear do planeta.
Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que deitavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.
Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: “Alguém está deitando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos.” Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de “descarregá-los” e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse “negócio”, ele suspirou: “Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção”.
Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela sobre-exploração e, agora está sobre explorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de Atum, camarão e lagosta; que são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.
Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 Quilómetros ao sul de Mogadishio, declarou à Agência Reuters: “Se nada for feito, acabarão com todo o peixe de todo o litoral da Somália”.
Esse é o contexto do qual nasceram os “piratas” somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.
Os somalianos chamam-se “Guarda Costeira Voluntária da Somália”. A maioria dos somalianos conhece-os sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not a solution”.] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional”.
Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta – por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos lideres dos piratas, Segule Ali, disse: “Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam o nosso peixe.” William Scott entenderia perfeitamente.
Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e se intrometeram no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo… imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.
A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século IV AC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou “o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares.” O pirata riu e respondeu: “O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador. ”Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas… quem é o ladrão?
Autor: Um cidadão do mundo













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