Ainda estou a tentar perceber isto

No passado dia 22 houve duas manifestações, uma no Porto, outra em lisboa. Há um blog e uma página do Facebook de suporte. Há panfletos e há um calendário de eventos. Há um manifesto e apoiantes.

Não encontro os nomes de quem organiza. Nem no blog, nem na página do Facebook. Talvez tenham aparecido nas reportagens das televisões – não as vi.

A mensagem é difusa e não se explicita claramente o que é que se pretende atingir. “Saímos à rua pelas nossas casas e pelos espaços que habitamos”, escrevem no seu blog, acrescentando que as “políticas atuais não resolvem o problema da habitação” e que exigem “habitação digna para toda a gente”.

Quem são estas pessoas e o que é que defendem especificamente? Se estas políticas não resolvem o problema, qual é a sua proposta? Parece-me elementar que uma organização cuidada como esta, que aparenta experiência, procurasse esclarecer estas simples questões. Fico a aguardar.

PSD, CDS-PP e PCP unem-se contra os direitos humanos em Angola

LB

Neste momento estão presos em Angola 17 cidadãos cujos crimes foram ler um livro, cantar música de intervenção e debater modelos de transição pacífica de uma ditadura para um regime democrático. E ao contrário do que se passa com outros regimes repressivos, o regime angolano é tratado como se democrático fosse. E ninguém pede um golpe de Estado. Se Lula da Silva fosse pedir emprego a José Eduardo dos Santos em vez de pedir a Dilma Roussef, safava-se bem e ainda arranjava um espaço de comentário político num jornal cá da terra. [Read more…]

Atentado terrorista na sede do BCE

Foi esta tarde, na sede do BCE, enquanto Mário Draghi dava uma conferência de imprensa. A senhora, cuja afiliação segundo o jornal Expresso serão as activistas do FEMEN, saltou para cima da mesa, o que deu origem a uma expressão de pânico na cara de Draghi que por si só já valeu a ousadia. “Acabem com a ditadura do BCE” (“End the ECB dictatorship“, versão light daquela que surge na camisola da senhora – “End the ECB dick-tatorship“) gritava a rebelde enquanto lançava confettis sobre a cabeça do presidente do BCE. Sorte do Constâncio que assistiu a tudo na primeira fila.

Os animais na quinta do fim do Mundo.

Desde o clímax do milenarismo, em 2000, que tem vindo a aumentar a ansiedade quanto a outro hipotético “fim do mundo”. Do cinema à publicidade, todos glorificam o momento final como se fosse possível vender souvenires do armagedão. Se repararem não há blockbuster recente que não introduza o tema do fim do mundo. Os espectadores acorrem para assistir de camarote ao take final. Afinal de contas, para os tradicionais voyeurs dos acidentes, aqueles que abrandam ou param para ver os destroços dos carros sinistrados, ou os que aguardam no sofá pela imagem do sangue que os cameramen sempre filmam, o paraíso é ver acontecer a desgraça final, em todo o seu esplendor.
Por outro lado, crescem as associações, campanhas, movimentos e manifestações a favor dos direitos dos animais. No mundo ocidental, o animal começa a tornar-se cada vez mais humano e as suas necessidades ultrapassam mesmo as dos indivíduos. Não se trata só do orçamento gasto em alimentação dos animais domésticos que, nos EUA, ultrapassa já a dotação destinada aos sem-abrigo, mas a própria humanização do bicho. O cão (ou o gato) já não é apenas o melhor amigo do homem, mas um novo-Homem.
Não sei se entre ambos os fenómenos existe uma relação directa, nem vou tentar encontrá-la à luz das teorias relacionais e por vezes conspirativo-esotéricas. Mas uma coisa parece-me coerente: existe aqui muita falta de auto-estima (colectiva e individual) e, sobretudo, falta de crença na humanidade. Uma sociedade que deposita nos seus animais toda a sua força anímica, que os diviniza e dirige para eles as suas esperanças, não deseja se não o fim da sua espécie. Conheço pessoas que vivem com dezenas de cães e gatos e são incapazes de se relacionarem socialmente.
Devo dizer que adoro animais e sempre que posso faço o necessário para os acolher e providenciar-lhes conforto. Mas não posso colocar à frente do meu semelhante as necessidades de um animal, se o fizesse estaria a negar o meu ser pensante, o meu lugar num complexo labirinto de vida que me trouxe até onde existo.
Talvez esta negação advenha e exista efectivamente e se espelhe numa sociedade cada vez mais dependente de seres vivos que não desiludam, que não falem nem pensem mas que sejam leais e devotados ao seu criador – estas qualidades são em geral as que os grandes activistas pró-animais alegam na sua luta. Para eles os animais são mais leais que o Homem.
Talvez tenham razão e que, um dia, eles nos governem e se  tornem nós, como no “Animal farm” de Orwel.
Essa seria, com certeza, a maior ironia de todas.
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