Os animais na quinta do fim do Mundo.

Desde o clímax do milenarismo, em 2000, que tem vindo a aumentar a ansiedade quanto a outro hipotético “fim do mundo”. Do cinema à publicidade, todos glorificam o momento final como se fosse possível vender souvenires do armagedão. Se repararem não há blockbuster recente que não introduza o tema do fim do mundo. Os espectadores acorrem para assistir de camarote ao take final. Afinal de contas, para os tradicionais voyeurs dos acidentes, aqueles que abrandam ou param para ver os destroços dos carros sinistrados, ou os que aguardam no sofá pela imagem do sangue que os cameramen sempre filmam, o paraíso é ver acontecer a desgraça final, em todo o seu esplendor.
Por outro lado, crescem as associações, campanhas, movimentos e manifestações a favor dos direitos dos animais. No mundo ocidental, o animal começa a tornar-se cada vez mais humano e as suas necessidades ultrapassam mesmo as dos indivíduos. Não se trata só do orçamento gasto em alimentação dos animais domésticos que, nos EUA, ultrapassa já a dotação destinada aos sem-abrigo, mas a própria humanização do bicho. O cão (ou o gato) já não é apenas o melhor amigo do homem, mas um novo-Homem.
Não sei se entre ambos os fenómenos existe uma relação directa, nem vou tentar encontrá-la à luz das teorias relacionais e por vezes conspirativo-esotéricas. Mas uma coisa parece-me coerente: existe aqui muita falta de auto-estima (colectiva e individual) e, sobretudo, falta de crença na humanidade. Uma sociedade que deposita nos seus animais toda a sua força anímica, que os diviniza e dirige para eles as suas esperanças, não deseja se não o fim da sua espécie. Conheço pessoas que vivem com dezenas de cães e gatos e são incapazes de se relacionarem socialmente.
Devo dizer que adoro animais e sempre que posso faço o necessário para os acolher e providenciar-lhes conforto. Mas não posso colocar à frente do meu semelhante as necessidades de um animal, se o fizesse estaria a negar o meu ser pensante, o meu lugar num complexo labirinto de vida que me trouxe até onde existo.
Talvez esta negação advenha e exista efectivamente e se espelhe numa sociedade cada vez mais dependente de seres vivos que não desiludam, que não falem nem pensem mas que sejam leais e devotados ao seu criador – estas qualidades são em geral as que os grandes activistas pró-animais alegam na sua luta. Para eles os animais são mais leais que o Homem.
Talvez tenham razão e que, um dia, eles nos governem e se  tornem nós, como no “Animal farm” de Orwel.
Essa seria, com certeza, a maior ironia de todas.

Comments


  1. Muito bem dito e especialmente muito bem pensado. Se os humanos soubessem o que é na realidade o altruísmo, nunca caíriam num fundamentalismo desses. Porque além de gostar imenso de animais, ter tido sempre animais resgatados do abandono e não conseguir passar sem a sua companhia, a nossa espécie preocupa-me por demais. Depois de ler um texto desses eu compreendi porque me recuso a ver filmes de terror e muito especialmente feitos na fábrica de sonhos de Hollywood. É um bom passo para manter a mente sã.

    Como não tenho TV (é verdade), as pessoas que a têm contam-me coisas sobre o tratamento de animais nos EUA e não só, que me revoltam sobremaneira! Sim, as sociedades ditas desenvolvidas estão a enveredar por um caminho que realmente não dá para entender.
    Entretanto penso nos palestinianos, nos africanos em geral e noutros povos que como se dizia antigamente, para os seus iguais ocidentais na generalidade, estão abaixo de cão.

    O dia Contra a Descriminação Racial, 21 de Março, instituído pelas NU depois do massacre na África do Sul em 1976 , foi substituido pelo dia da poesia… muito me admira não ter sido pelo dia do cão ou do gato, quem sabe da iguana, mas continuando por este caminho, lá chegaremos.

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    Como sabes, fui voluntário de uma associação de defesa de animais durante mais de 5 anos. Quando dizes que «conheço pessoas que vivem com dezenas de cães e gatos e são incapazes de se relacionarem socialmente», nem imaginas a que ponto pode chegar essa antropofobia. São pessoas que adoram animais mas que detestam outras pessoas. Pessoas que dizem que se virem um cão ferido socorrem-no logo mas que se virem uma pessoa no chão nem olham. E dizem isto com a maior das naturalidades. Pessoas com as quais não dá sequer para ter uma conversa.
    Não são todos assim, claro. Deixei bons amigos desses tempos. Mas são uma grande parte.

  3. jorge fliscorno says:

    Certa vez dois amigos meus discutiam o acesso ao relvado dos jardins públicos. Ele dizia que os seus filhos deviam poder brincar sem terem pisar caca de cão, ela perguntava onde é que o cão dela havia de fazer as necessidades. Prioridades…

  4. MAGRIÇO says:

    Subscrevo inteiramente todas estas reflexões feitas sobre o tema. O excesso de militância pode levar ao descrédito da causa – como acontece, também, com alguns ecologistas – uma vez que o fundamentalismo, seja qual for, é normalmente repudiado e rejeitado por grande parte da opinião pública.

  5. maria celeste d'oliveira ramos says:

    a admitir a teoria darwiniana creio que como adoro o meu gatinho se calhar ainda estou am fase de “evolução” e um dia não direi “que quanto maos conheço os homens mais gosto dos cães” . quanto ao có có no relvado em Paris e em Vitória (ilha de vAncouver) vi e creio continuar a existir, logo à entrada, à esquerda, um espaço talvez de 4m2, com fundo de saibro (drenado) coberto de gravilha” para o cão fazer cócó, e uma torneira e curta magueira para o dono do cão ajudar e diluir a cáca e desaparecer – eu vi – estive lá – quanto ao gostar demais de animais são os que ACOMPANHAM os VELHOS – não conheço quem se ocupe dos velhos sem ser encarcerá-los em lares uns que são uma desgraça, na maioria, armazenados – e os 15% de velhos do paíes embora a maioria prefira não sair de sua casa, o facto é que morrem sós e nem dá por eles durante anos, como recentemente – jan 2012 – foi noticiado de velhos que morreram sós e só deram por elas 8 anos e mais depois – pena não teren a cimpanhia de um cão, embora uma velhora tenha morrido bem como o seu GATO – quanto a direitos dos animais nunca foram superiores aos dos hoemns a não ser de homens que não passam, ainda, de animais – e nunca os animais tiveram direitos pelo que nada tenho contra o direito doa animais e das ´+arvores, e das paisagens e de tudo o que os HOMENS fzeram a agoar desprezam e ABATEM para fazer estrads (como vi ontem reportagem de casal velhore que foi expropriado à força pela BRISA) para uma merda de uma IP – impuseram o perço de expropriação e o peocesse ainda anda por aí entre a Brisa e tribuais e HOMENS que são piores do que cães e meteram os velhos em CONTENTORES com ar condicionada (que a cª de seguros recusou pagar) – quando trabalhei no Plano de SINES lá ía 2 vezes/semana e vi todos os dias TODOS os dias enterros pois que se suicidaram aqueles rurais que tinham uma pequena horta + poço + carroça mais um animal de tracção – vi durante 12 anos (doze anos) pelo que os intelectuais da cidade que dão bocas – lamento – deviam ser trabalhadores da política especialmente e de preferência do PSD e CDS – estão com emprego errado – aproveitem – e não se preocupem com os animais já que a CML mata cães e gatos e envenena os pombos da minha rua em vez de os etirilizar o que seria bem fácil dado milho com o produto de esterilizaç~ºao sem ter de os matar (não sabia que em Veneza havia pombos que se estimavam e que sem eles veneza não é veneza) e nem regam as árvores – nem limpam os LIXOS – devem andar a poupar – Luis Filipe Meneses e Rangel desde ontem que estão em congresso e só falam de Sócrates – ainda não ouvi nada de nada mesmo sem interêsse – só se dedicam a sócrates – mas que grande PROGRAMA – a arte de falar por falar sem dizer nada nem o oposto ao que penso – zurram e debitam “lixo” verbal
    mas que gente inútil e a ganhar do meu IRS e a aumentar o meu e tirar o que podem – já passaram dois dias – vamos ver as conclusões de amanhã – já se adivinha que nada têm na cabeça a não ser como diz agora a ministra da justiça que não CULTURA de impunidade – se calhar vai meter na prisão os velhores que roubam chocolates – como fez logo a seguir a tomar posse – mas que conversa de NADA – a arte de falar muito e nunca dizer nada – e repete – não vamos falar no passado para justificae nada – afinal basta esta inteligente frase para ver o que diz sempre – ai a loiraça que engordou e tem tanta gordura depois de se ministeriar

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