Os miseráveis

Valores acumulados das PPP 1985 ~ 2009

Os miseráveis têm sido sucessivamente eleitos e até com maiorias absolutas. De que se queixam agora os que se indignam? Durante anos apoiaram activamente a estratégia de manter a economia aparentemente em crescimento à conta de sistematicamente se despejar dinheiro no cimento e no alcatrão e nos “apoios” às empresas e à banca. Mas sai o dinheiro de alguma árvore das patacas? Chegada a factura, gostava de saber onde estão agora todos esses “keynesianos” que até andaram a brincar aos manifestos.

Agora vieram as mentes brilhantes que ditam o nosso rumo com mais um leque de contenção. Esqueceram-se eles mesmo de serem contidos no uso do disparate e, consequentemente, aí está menos salário, mais trabalho e menos serviços prestados pelo Estado (mas com aumentadas taxas de acesso). E eis o último dos disparates, fechar a linha do oeste entre a Figueira da Foz e as Caldas da Rainha. Uma linha que atravessa a zona do país mais densamente povoada não consegue ser rentável. Por falta de pessoas não o será, sobra por isso a incompetente gestão que tem sido feita. Olhem-se para os horários que têm sido praticados nos últimos vinte anos, com viagens demoradas, ligações desconexas e esperas longas e desnecessárias para se perceber isso mesmo. A estratégia de fechar tudo excepto a linha do norte e alguns suburbanos vem de há décadas. Nada tem a ver com a “crise”.

Gostava de ver um governo formado pelo PCP e pelo BE, só para perceber o que iriam fazer quando chegasse a hora de pagar salários e quando, passado um ou dois anos, o dinheiro dos “ricos” já se tivesse ido.  Se calhar nacionalizavam tudo para passarmos a ter em todo o lado a mesma excelência dessa CP que nem consegue fazer dinheiro passando pelo meio dele.

Lamentem-se, ou usando a novilíngua, indignem-se. Mas não se esqueçam do que fizeram ontem.

Comments


  1. É redutor dividir o problema entre direita e esquerda (ou entre PS/D+PP e BE/PCP).

    Convém meditar sobre os motivos que nos conduziram a esta situação. Nota que as políticas não mudaram, os animais amestrados a que chamamos políticos limitam-se a aplicar a mesma receita e ficam genuinamente admirados quando estas não funcionam. Não se pode pedir mais deles. Porque motivo as políticas deixaram de funcionar? Tanto cá como no resto do mundo.

    As políticas que condenas no teu post teriam continuado a funcionar se continuasse a haver crédito ilimitado, ou se o petróleo descesse de novo para os 10 dólares, ou se a comunidade europeia resolvesse injectar tanto dinheiro como nos anos em que o tipo das vacas sorridentes era PM, etc. É óbvio neste momento que estas políticas não iam funcionar para sempre, mas hindsight is 20/20

    Eu penso que os problemas a que estamos a assistir derivam exactamente da diminuição de recursos. Nestas circunstâncias nem a direita nem a esquerda tem forma de funcionar eficientemente. (Estou a falar em termos gerais, é claro que em Portugal há problemas de má gestão e fraude que tornam a situação muito pior do que teria de ser de outro modo.)

    O que é necessário é compreender que estamos a viver momentos diferentes dos vividos nos últimos 200 anos. Vamos ter encontrar formas de viver com menos recursos (coisa que a esquerda prefere ignorar), os recursos vão ter de ser geridos não de acordo com regras puramente económicas, vão ter de incluir parâmetros de sustentabilidade e de equidade (coisas que a direita não aceita). Ou seja, estamos lixados.

    • jorge fliscorno says:

      Não, isto também é um problema de direita e de esquerda por causa dos discursos oficiais. Uns dizem que o mercado nos salvará, os outros que é o investimento público que nos tirará do buraco. Mas o resultado tem sido sempre o mesmo, que é pegar no dinheiro dos impostos e distribui-lo pela habitual oligarquia. E isso não importa se se trata de qualquer das combinações PS/D+PP. E se fosse BE/PCP? Aí gostava de ver o que seria feito. Atendendo ao discurso destes partidos, as nacionalizações viriam em força. Resolveu isso alguma coisa em 1974? Veja-se o que se passa com as ainda empresas públicas. É que uma empresa pública não tem gestão independente do poder político e é aí que a porca torce o rabo. Nem sequer importa se essas empresas têm ou não bons gestores. A gestão é ditada pelos interesses do poder político que esteja em funções, em vez de o ser pelo interesse da empresa. Isso altera tudo.

      A abordagem dos recursos limitados é interessante, sim. Mas no caso nacional é preciso ver que a capacidade produtiva do país tem sido sistematicamente delapidada. De forma propositada, em troca dos famigerados subsídios. Grandes génios.

      • Pedro M says:

        O que julgo que o Helder Guerreiro procurava dizer é que ambos assumem que o crescimento é o motor da sua concepção económica e que partem do pressuposto que o mundo dispõe dos recursos que permitiram os crescimentos ou recuperações do passado, nomeadamente a disponibilidade de commodities de forma económica.

        Em relação a um governo BE/PCP também eu gostaria de saber que governo fariam- especialmente porque hoje em dia, para fugir às 3 comadres que já me roubaram, até no Rato Mickey votava.


  2. Dizer que as PPP são keynesinas é não saber o que é o keynesianismo. Se assim fosse, também Cavaco era um firme apoiante de esquerda, e tal obviamente não é verdade.
    Mas pronto, agora vamos adotar a política de fechar tudo e deixar o mercado fornecer serviços a 1% da população e assim é que está correto.

    • jorge fliscorno says:

      Nem o 1º nem o 2º parágrafos deste comentário têm suporte no que diz o post. E este gráfico está aqui para enfatizar que houve quem defendesse que aumentar o número de obras públicas era positivo; mas que engenharias financeiras foram usadas para aumentar o número de obras públicas? É aqui que entram as PPP, a forma de fazer obra sem dinheiro para as pagar.

      • Pedro M says:

        Chamando a atenção para o facto da maioria do rentismo subsidiodependente das PPPs consiste sobretudo em barragens ou auto-estradas inúteis.


  3. Mas então não chegava cortar nos tais consumos intermédios?! Ou isso foi só na época da caça ao voto?

    • jorge fliscorno says:

      Claro que foi época de caça ao voto. A única diferença é que saiu o protagonista dos amanhãs que cantam.


  4. Jorge, as administrações da velha CP, desde que foi dividida em unidades de gestão, cumpriram a missão que lhes foi confiada: acabar com o comboio público, privatizar as linhas lucrativas, fechar as restantes. O caderno de encargos era esse. Não te queixes de incompetência. Queixa-te do eterno favorecimento do estado aos privados.

    • jorge fliscorno says:

      Completamente de acordo. Mas é aí que está o problema na gestão pública. Como referi em comentário anterior, o poder político interfere, de acordo com a sua própria agenda, na gestão pública, com as consequências que isso tem trazido.