O que é que eles querem?

Dei conta que, no passado sábado, houve uma manif em Lisboa e outra no Porto. Noutros sítios também, se calhar. Passou-me despercebido porque, força das circunstâncias, não tenho televisão desde as legislativas, mais coisa menos coisa. Digo-vos, recomendo igual tratamento: por um lado, mantenho-me informado porque da net não prescindo, mesmo que seja só no raio do trelégaitas; pelo outro, a agenda política das televisões, sempre em busca da novidade e do escândalo, em detrimento da análise e da reflexão, não me faz falta alguma.

Ouvi ecos na rádio desse evento organizado pela CGTP. Era fim do dia e dizia o locutor da Antena 1 que, no Porto, foi a maior de sempre. Interessante, pensei eu. E ocorreu-me que se não tivesse passado o dia em trabalho suado, para abrir umas fundações de um muro, até podia ter por lá passado para as fotografias da praxe. Há sempre nestas multidões um colorido próprio à espera de ser captado nos pixéis do CCD da minha EOS (a propósito de Canon, hei-de dedicar umas linhas ao assunto).

Manifestaram-se, exercendo o seu direito, mas pergunto-me, o que é que eles querem? Naturalmente, não querem perder dinheiro. Mas quererão algo mais? Será apenas o dinheiro que os move? Eu, o que quero, sei-o bem. Quero pagar menos impostos. Quero não ter que pagar serviços que, teoricamente, o Estado me disponibiliza mas que, chegados a vias de facto, me nega. Ou que nem sequer quero. Não quero pagar uma reforma que não vou ter; não quero pagar um SNS que não me dá um médico de família nem consultas em tempo útil; não quero pagar uma justiça que demora anos a reagir, a tal ponto que até há uma certa táctica de ir de recurso em recurso até à prescrição final; não quero um Estado a pegar nos meus impostos para depois, uns quantos governantes que se fazem confundir com o Estado, decidirem que determinados negócios são merecedores de milhões.

E não quero, sobretudo, que o Estado tome conta de mim. Muito obrigado, mas chega-me a soberania, segurança, educação, saúde e infraestruturas públicas. Desde que passassem a funcionar, claro. O resto já o pago duas vezes, primeiro em impostos e depois no privado. E eles, o que querem os que foram para a rua no sábado passado? Será o que eles querem compatível com o que eu quero?

Comments


  1. Fliscorno,

    Eles querem-nos mansos, organizados, pacíficos, vigiados. Eu quero algo inorgânico, espontâneo e anárquico. Não quero sobre mim o longo braço do partido, nem da sua segurança contratada. Não quero que ninguém me diga por onde ir. Porque não sei por onde vou, só sei que não vou por aí.

  2. Pedro M says:

    O Estado só não fornece correctamente as coisas que enumera (com razão) porque a gestão pública é medíocre, escolhida por uma sociedade civil medíocre. Nos países em que a sociedade civil não é medíocre o Estado não é medíocre e por isso funciona e prospera.

    Logo, em vez de pedirmos a implosão do Estado, exijamos gestão pública decente, através da uma sociedade civil decente. Pode ir para o privado, que deve existir no seu âmbito mas pessoalmente prefiro ter a sociedade a gerir aquilo que é importante para o bem da sociedade, em vez do que é importante para um grupo de accionistas.

    Foi isso que vi exigir no Sábado e é isso que vou exigir novamente, não só nestas ocasiões como no dia-a-dia, não deixando passar incólume a gestão pública medíocre, fora da blogosfera, onde importa.