Vasco Lourenço – Do interior da REvolução (O Regime reage)*

Qual foi o critério da escolha de quatro capitães para uma primeira admoestação por parte do regime?
Como já referi, eu era o coordenador de toda a ligação. O Antero Ribeiro da Silva e o Carlos Clemente eram dois dos meus elementos intermédios de ligação. O Martelo era o elemento de ligação em Águeda, na Escola Central de Sargentos. Houve lá um documento que eles não conseguiram destruir que tinha os nossos nomes e um oficial leva-o ao comandante. Há a participação para a Região Militar, vem para o Estado-Maior. E eles, com base nisso, resolvem transferir os quatro.
Levantam-nos um processo de averiguações e depois um processo criminal. A ideia era expulsarem-nos do Exército.
Bem, eu, no dia 8, por acaso, estou na carreira de tiro interna da minha unidade o BRT – agora BIRT – na Trafaria. Estava a treinar tiro de pistola, para os torneios internos da Região Militar e chegou a ordenança do comandante que me diz: “Meu capitão, o nosso comandante pede para ir ao gabinete dele.” Sensivelmente ao meio-dia. Bem, interrompi o tiro, e encontro-me com o comandante que estava com cara de comprometido e, ao mesmo tempo, preocupado. Sem me dizer nada, estende-me um papel, assim um pouco a medo. Era uma mensagem do Estado-Maior do Exército a dizer que eu, por razões de serviço, era transferido, imediatamente, para o Quartel-General da Zona Militar dos Açores, em Ponta Delgada. Olhei para ele e digo: “Mas, que é isto?! A que propósito?!” Ainda por cima, eu estava numa situação militar de inamovível.
Portanto, não podia ser transferido fora do meu serviço. E ele: “Recebi
esta ordem… é para seguir amanhã! O embarque é daqui a 24 horas.”
“Estão malucos! Estão doidos! Não vou! Não vou! Era o que faltava!
Não estou para os aturar! Não vou, não vou!” E começa o comandante:
“Eh pá, isso é uma chatice. É uma chatice. Se me dizes que não vais… Eu recebi essa ordem, eu tenho que a fazer cumprir. Portanto, se me dizes que não cumpres a ordem, eu … sou obrigado, regulamentarmente, a fazer-te cumprir a ordem. Portanto, como é que é?” Olho para ele e digo: “Então e se eu disser que vou?” “Bem, se disseres que vais… vais embora e amanhã vem cá buscar o bilhete do avião e a guia de marcha.”
“Então, eu vou. Eu vou.” Ele olha para mim: “Mas vai mesmo?” “Vou! Estou-lhe a dizer que vou!” “Mas vai mesmo?” “Oh homem! Já não é a primeira vez que isto acontece. Não me faça perguntas esquisitas para não receber respostas esquisitas! A minha posição para si é: eu vou!”
E, desta vez o “Baptistinha”, como o tratávamos, terá alternado mais que nunca o tratamento por tu e por você, que já costumava fazer…
A minha ideia era ir buscar a guia de marcha, mesmo que depois não fosse, para não comprometer o comandante. Era, de facto, a minha ideia quando saí dali. Bem, simplesmente, saí dali e fui, rapidamente, convocar uma reunião da Direcção o mais alargada possível. Entretanto, soubemos das outras três transferências. Foi em casa do Pinto Soares. Apareceu também o Antero Ribeiro da Silva, e decidimos fazer uma reunião à noite, da Comissão Coordenadora, com elementos da Marinha e da Força Aérea, em casa do pai do Luís Macedo. Mais uma vez fomos para a casa do brigadeiro, que mal sonhava que nós estávamos em casa dele a conspirar.
Eu estou a ver aqui o rascunho do Otelo. Havia vários pontos a discutir, mas o mais importante era o estudo da reacção a tomar face às retaliações que se estavam a verificar. Era o ponto fulcral da discussão. Duas posições fundamentais se levantam ali: Uma, “pronto, paciência… o importante é continuar a conspiração e a preparação.” Outra, “não senhor, não vamos deixar passar isto em branco e vamos fazer algo de muito duro, e responder à retaliação”. Eu e os outros dois (porque dos transferidos só não estava o Martelo) tentámos alhear-nos, digamos assim, da decisão, assumindo: “Nós aceitamos a decisão que aqui for tomada pelo colectivo.” Decidiu-se não ir: o Movimento iria raptar-nos e impedir o nosso embarque.
De quem é que surge essa ideia no mínimo original?
Francamente, não lhe sei dizer quem é que tem a ideia de que a solução seria raptar-nos – defendendo a posição individual dos transferidos, pois eles queriam ir mas não os deixavam –, evitar o embarque e no dia seguinte fazer uma concentração, às quatro da tarde, no Terreiro do Paço, junto do Ministério do Exército, todos fardados. E aí, lá vem a tal manifestação.
Aí decide-se mesmo fazer uma manifestação. Todos fardados de número um, com condecorações, tudo junto do Ministério do Exército, para forçar a revogação do despacho do ministro.
No entanto, os marinheiros presentes, (lembro-me que o Contreiras, era um deles), diziam que tinham muito boas relações com o Ministro da Marinha: “Nós temos boas relações com o Ministro da Marinha. O tipo é um gajo porreiro. Nós propomos ir falar com ele. Deixem-nos falar com ele.” Uma grande discussão. “Isso só vai alertá-los. Isso não…”
Mas depois de muita discussão, decidiu-se: “Pronto. Vão lá falar com o ministro da Marinha, mas isto não nos faz parar.” E eles foram falar com o ministro, foram-no acordar às 3 da manhã, e dizer-lhe qualquer coisa como isto: “Os oficiais do Exército não admitem essa situação. Vão-se opor a ela, portanto, para evitar problemas mais complicados, fale lá com o ministro do Exército e convença-o a revogar a decisão.”
Bem, eu saí dali, eram 4 e meia da manhã, dizendo-lhes que me informassem do evoluir da situação, com a decisão de às 7 da manhã, ser raptado, pelo Otelo. Cheguei a casa por volta das 5 e, está claro, como andava a cair de sono, adormeci profundamente Passada uma meia hora, acorda-me a minha mulher… Estava o telefone a tocar. Atendo e oiço do outro lado (e é bom frisar isto, porque eu e quem me estava a telefonar, sabia que o telefone estava sob escuta da PIDE).
“Daqui fala o Sanches Osório. Sai imediatamente de casa porque houve bronca.” “Houve bronca?” “Pois, aquela diligência da malta da Marinha.
Está tudo de prevenção rigorosa. As Forças Armadas entraram de
prevenção rigorosa, portanto, sai imediatamente de casa.” A prevenção rigorosa é uma situação militar que não existia em Portugal desde 1962, quando foi da tentativa do Golpe de Beja…
Permita-me aqui um parêntesis para falar da sua mulher, pois sei que pelo meio da conspiração ainda arranjou tempo para casar…
Sim, nós casámos em plena conspiração, a 29 de Setembro de 1973. Casámos num sábado e na segunda-feira estava a chegar a casa às 5 da manhã. Aliás, logo nessa primeira semana foram cinco reuniões conspirativas. Portanto, ela estava mais do que habituada a isso, assumia perfeitamente e apoiava-me bastante. Então e informou-a do que se estava a passar?
Sim, genericamente, para não a assustar demasiado. Dissera-lhe da decisão de me transferirem para os Açores, e quando cheguei da reunião, onde ela sabia irmos discutir o que fazer, disse-lhe “não vou! Vamos opor-nos à transferência.” E, ela “já calculava isso. Nunca
tive dúvidas, que era isso que iam fazer.” Bem, despedi-me, com a promessa de a contactar assim que fosse possível.
Saí e fui direito à casa do Otelo. Em vez de o raptor me ir raptar a mim, fui eu ter com ele. Chego a Oeiras, aí às seis e meia da manhã, e vejo um Mercedes lá perto da casa dele. Um Mercedes oficial, penso:
“Que é isto? haverá aqui algum problema? Terão vindo prender o Otelo
em vez de me irem prender a mim? Como é que é isto?!” Escondi-me
no carro, estive a observar, até que vejo sair um tipo lá de casa, meter-se no carro e arrancar. Logo de seguida chega outro Mercedes. Bo
m, eram dois fulanos ligados ao Governo, que viviam ali e que, devido à situação, também foram chamados. Deixei-os sair, lá toquei à campainha do Otelo. Ele aparece-me e quando lhe digo que ele também iria ser chamado à sua unidade, responde: “Sim, sim. Já me chamaram. Já me contactaram para me apresentar na unidade.” Isto porque, na situação de prevenção rigorosa, os efectivos estavam a 100 por cento nas unidades.
Daí que os que lá não pernoitavam, caso dos oficiais e sargentos, eram
imediatamente chamados. Fico ainda um bocado em casa dele, enquanto ele faz alguns contactos, e passado algum tempo, é o Monge que arranja um sítio para eu me esconder. Fui para uma casa desabitada de uma tia dele, em Miraflores, no mesmo prédio em que ele vivia.
Depois, apareceu-me o Dinis de Almeida, que estava colocado em Penafiel. Tinha recebido ordem para se apresentar imediatamente na
unidade. Como não regressou imediatamente, porque andou ainda aqui
na conspiração, foi punido e foi transferido para a Figueira da Foz.
Portanto, no 25 de Abril já não estava em Penafiel mas na Figueira da
Foz. Esta transferência, que já era a segunda do Dinis de Almeida, e as transferências motivadas pelo 16 de Março – nomeadamente dos
oficiais de Lamego – viraram-se claramente contra o regime e foram-
-nos bastante úteis. Em unidades onde o Movimento não tinha força
(caso do Regimento de Cavalaria de Estremoz), a ida forçada de oficiais
nossos para lá, permitiu a intervenção dessas unidades no 25 de Abril.
Como costumo dizer, ao castigarem-nos e transferirem-nos, ajudaram-
-nos a espalhar a conspiração…
Quanto ao Dinis de Almeida, arranjou-me comida, foi colher informações, e assim nos fomos mantendo em contacto, uns com os outros.
Rapidamente se chegou à conclusão de que não havia possibilidades
de fazer a tal manifestação que estava prevista. Porque os oficiais tinham ido todos para as unidades. E, face a essa nova situação, foi decidido, então, que os oficiais do Movimento fizessem manifestações – entre aspas – junto do comandante da unidade, mostrando o seu desacordo com o que se estava a passar, o apoio aos camaradas transferidos e a exigência da revogação da ordem do ministro.
Isso no dia seguinte? Dia 9?
No dia 9. Que era o dia do embarque e da manifestação. Entretanto,
o Pinto Soares, que estava de baixa no hospital, não tinha unidade que
o chamasse e não se apercebeu bem desta nova situação. De maneira
que, apareceu de farda número um (foi aliás o único) para a manifestação no Terreiro do Paço. Quando se inteirou do que se estava a passar, decidiu apresentar um pedido de demissão de oficial, por não concordar com a retaliação em relação aos capitães, na direcção da Arma de Engenharia.
Mas isso não foi uma atitude demasiado voluntarista?
Sim, mesmo quixotesca. Mas o Pinto Soares é um homem de carácter,
que preza muito determinados valores, é um homem para se atirar para
atitudes desta natureza. E daí, ficou, desde logo, denunciado… Era mais um a prender na primeira oportunidade, não é?
E essas manifestações junto dos comandantes chegaram a fazer-se?
Claro. E eu conheço em pormenor – porque me contaram – o que se passou na EPI. Em Mafra, havia, na altura, uns quarenta e dois ou
quarenta e quatro oficiais do Movimento. Que nomearam uma delegação de dois capitães e um tenente, com este, que era o Marques Júnior como porta-voz, dado que pertencia à Comissão Coordenadora. Foram falar com o comandante em nome dos outros todos. A Escola Prática de Infantaria de Mafra era a única unidade do Exército comandada por um brigadeiro. Normalmente, as unidades são comandadas por coronéis.
Era, de facto, uma unidade bastante importante. E a conversa passa-se, mais ou menos, desta maneira: “Meu comandante, queremos falar consigo, e a primeira questão é esta: nós estamos de prevenção rigorosa?”
“Pois, estamos de prevenção rigorosa.” “A ordem foi dada por quem?”
“Foi o ministro do Exército que deu a ordem, através da Região Militar.”
“Mas o meu Comandante sabe porque é que nós estamos de prevenção
rigorosa?” “Não, não sei.” “O meu comandante não sabe? Mas nós sabemos” Aí o homem começou: “Mas como é que é?! Eu não sei e vocês sabem? Então porque é que foi?” “É que houve três camaradas
nossos, três capitães do Movimento (falava-se sempre no Movimento)
que foram transferidos para as ilhas, por ordem do ministro do Exército,
e não embarcaram, porque o Movimento não os deixou embarcar.”
Vasco Lourenço esperem lá, eu não estou a perceber bem. Quem é que deu a ordem de transferência?” “Foi o ministro do Exército.” “O ministro do Exército, deu uma ordem, e houve três capitães que não embarcaram, que não cumpriram essa ordem?” “Pois… Quer dizer, eles até queriam cumprir mas o Movimento é que não os deixou.” “O Movimento?! Mas quê…”
“Os outros capitães… Os outros oficiais do Movimento não os deixaram.”
“O quê?! Mas vão contra uma ordem do ministro do Exército?!
Não, não estou a perceber nada disto.” “Sim, e nós estamos aqui para
dizer ao meu comandante que estamos de acordo com o Movimento em
ter impedido o embarque desses três oficiais e estamos contra a ordem
do ministro” “Hã? Mas como é que é? Vocês, oficiais da minha unidade,
não aceitam a ordem do ministro?” “Sim, sim. Mas, queremos frisar bem.
Não somos nós os três. Nós estamos aqui a falar em nome de quarenta
e quatro oficiais da unidade.” E, aí, o comandante começa a ficar aflito:
“Bem, mas então eu tenho que comunicar isso superiormente. Isso é muito grave. Eu tenho que participar superiormente.” “Pois, é precisamente por isso que nós estamos aqui, porque queremos que o senhor participe superiormente, exigindo a revogação da ordem do ministro.” Bem, aí o Comandante não se aguentou, desatou a chorar que nem uma criança.
Começou a ver o mundo dele todo a ruir…
Bom, o que é facto é que nós, os transferidos, decidimos reunir-nos em casa do Pinto Soares. Só dois, porque entretanto o Carlos Clemente
não tinha saído a tempo de casa e tinha sido apanhado pelo tenente-
-coronel Ferrand de Almeida, (o mesmo que vem a ter aquela cena no
Terreiro do Paço com o Salgueiro Maia, a quem se rende) que o leva até ao avião e ele embarca mesmo para Angra do Heroísmo.
Como estava tudo nas unidades, fizemos uma espécie de reunião pelo telefone, contactando os outros membros da Direcção e da Comissão Coordenadora. Optámos por nos entregar porque já tínhamos atingido os objectivos principais, já os tínhamos posto em situações complicadas, decretando uma medida excepcional de segurança, todos
aflitos, à nossa procura…

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

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