Vasco Lourenço – Do Interior da Revolução (O Golpe Militar)*

As instalações para a reunião foram obtidas pelo capitão Bismarck, que por sua vez recorreu a um amigo que fizera a guerra com ele como oficial miliciano. O amigo cedeu-lhe a vivenda e mais, esteve à entrada da mesma, com a mulher e os quatro filhos (crianças) para despistar, para dar a entender a quem visse aquele movimento de tantas pessoas, que se tratava de uma reunião familiar. Ora acontece que, sem o dono saber, a sua irmã tinha utilizado essa vivenda para aí esconder material explosivo da LUAR. Mas o mais dramático é que, na sequência da prisão do Palma Inácio, em 22 de Novembro, dois dias antes, haviam sido feitas outras prisões de elementos da LUAR, entre os quais a irmã do nosso anfitrião. Que, nesse dia 24, ao mesmo tempo que se realizava a nossa reunião, estava a ser interrogada e torturada pela PIDE/DGS que pretendia saber onde ela guardara o tal material explosivo. A senhora portou-se muito bem, não lhes deu qualquer informação, e foi essa a nossa sorte. Está a ver o que teria acontecido se ela falasse e lhes indicasse a vivenda, e eles lá fossem, provavelmente desprevenidos, e dessem com cerca de quarenta oficiais, a maioria deles armados!
Ainda me lembro que, quando estávamos a estacionar os carros, nas proximidades da vivenda, o capitão Francisco me chamou, abriu o porta-bagagens e disse-me: “Oh Vasco, isto hoje vai à bazucada! Se eles aparecerem, levam com isto!” E apontava para duas bazucas e algumas granadas! Eu reagi de imediato: “Estás louco? Isto hoje vai à bazucada?!”
Está a ver o ambiente previamente vivido. Agora, com a enorme animação, mesmo exaltação, que se viveu durante a reunião, teria sido lindo, se os pides aparecessem…! Desconfio que não saía de lá nenhum ileso. Com as inevitáveis consequências que isso provocaria…
É extraordinário o que me conta! Porque revela os vários caminhos e as várias frentes de luta que conduziram ao 25 de Abril, assim como o contributo de muitas pessoas, tantas anónimas, para esse objectivo. Mas revela também a importância do factor sorte nos encontros, mas também nos desencontros, como foi o caso…
Aliás, essa vivenda tem uma história. Já em 1969 alguns oficiais da Armada, que se vieram a integrar no Movimento, através do Pereira de Bastos, familiar dos proprietários, a tinham utilizado para lá passarem o filme Couraçado Potemkin, proibido pela censura…
Vamos então à reunião…
Vem a ser uma reunião bastante importante, onde é feito o ponto de situação, relatada a evolução do Movimento até ali, a cisão que tinha havido, e é dito que aquela Comissão Coordenadora provisória, que tinha saído de Alcáçovas, estava dissolvida. Nós considerávamos que tinha terminado as suas funções e, portanto, era necessário escolher uma nova Comissão Coordenadora. Bem, e então decidimos que seria necessário convocar uma grande reunião onde estivessem praticamente presentes delegados de todas as unidades do país.
Mas é também muito importante por uma outra razão: é onde surge o tenente-coronel Luís Ataíde Banazol. Aparece, de forma bastante radical, mesmo brusca, a pôr a questão nestes termos: “Vocês andam para aqui a perder tempo com papéis, assinaturas para aqui, abaixo-assinados para acolá. Isto não vai lá com papéis, não vai lá com assinaturas. Isto só vai com um golpe militar. Há que fazer rapidamente um golpe militar. Bem, e eu quero dizer-vos que estou mobilizado, estou a formar batalhão em Évora. Vim aqui com o meu segundo comandante. Se não houver outra maneira, nós pegamos no batalhão, tomamos conta de Évora e avançamos sobre Lisboa e, como isto está tão podre, vai cair, porque todas as outras unidades vão aderir. Isto está podre, o Governo vai cair. Nós vimos direitos a Lisboa e vamos difundindo uma espécie de comunicado, um panfleto sobre a situação e sobre o que é necessário fazer.”
Uma acção com algumas semelhanças com o falhado golpe de Beja
em 1961…
Bem, como calcula, aquilo caiu que nem uma bomba. Autenticamente que nem uma bomba. Um burburinho dos diabos, uma grande confusão. Como moderador da reunião, tento serenar os ânimos, e decreto um intervalo, onde poderíamos acalmar, discutir, desanuviar…
Recordo que dou comigo a desabafar para o Luís Macedo: “Eh pá, isto de facto é espantoso. Ando eu aqui há não sei quanto tempo a falar na hipótese de fazer um golpe militar e ninguém me dá ouvidos. Porquê?
Porque sou capitão, igual aos outros. Chega aqui um tenente-coronel que ninguém conhece de lado nenhum” – apenas era conhecido de dois ou três que o tinham lá levado, nomeadamente, o Piteira Santos que era um capitão que estava em Évora – “chega aqui um tenente-coronel, atira com a hipótese de um golpe militar e toda a malta desata a bater palmas, só porque é tenente-coronel.”
Mas então, como é que controlaram a situação?
A verdade é que o Banazol abusou, digamos assim, dos galões de tenente-coronel para chegar a uma reunião de capitães e de majores e atirar uma bomba para cima da mesa. E, de facto, aquilo agitou e a maior parte da malta começou a pensar em termos de golpe militar em vez de andar às voltas com os documentos.
Bem, e desde logo ali foi decidido marcar uma reunião para oito dias depois, onde deviam estar delegados de todas as unidades do Movimento. Esses delegados, além de levarem a indicação de quantos elementos representavam, deviam responder a quatro questões:
Primeira – Qual das três hipóteses de acção apoiavam?
a) “Conquista do poder para, através de uma junta militar, criar no país as condições que possibilitem uma verdadeira expressão nacional”, tenho aqui entre aspas “Democratização”.
b) “Dar oportunidade ao Governo de se legitimar perante a Nação através de eleições livres, devidamente fiscalizadas pelo Exército.”
(Sabíamos bem que livres, livres, só se nós as fiscalizássemos.) “Precedidas
de um referendo sobre a política ultramarina.”
c) “Utilização das reivindicações exclusivamente militares como forma de alcançar o prestígio do Exército e de pressão sobre o Governo.”
Segunda – “Devemos circunscrever o problema só ao Exército ou devemos alargá-lo a todas as Forças Armadas?”
Terceira – “Como deve ser constituída a Comissão Coordenadora?
Por quem e quais as suas funções?”
Quarta – “Para a solução escolhida, acha que se deve contactar algum chefe? Em caso afirmativo, quem?”
Para além da informação sobre o Movimento, foi esta a agenda definida e para que pedimos respostas. É evidente que isto mostrava já um avanço qualitativo extraordinariamente grande. Foi bastante importante, de facto, a presença do Banazol para agitar as massas e para levar, desde logo, a uma aceitação do golpe militar como hipótese e que nós difundimos depois por todas as unidades. “Tragam-nos respostas a isto para Óbidos.” Organizámos, então, a reunião de Óbidos que, juntamente com mais meia dúzia foi das mais importantes.
Já agora, quais foram as outras mais importantes?
Se quisesse definir uma classificação de importância das reuniões, englobaria nas mais importantes: Alcáçovas, em 9 de Setembro de 1973; a tetrapartida na zona de Lisboa, em 6 de Outubro de 1973;  São Pedro do Estoril, em 24 de Novembro de 1973; Óbidos, em l de Dezembro de 1973; Caparica, em 5 de Dezembro de 1974; Cascais, em 5 de Março de 1974.  São talvez estas as fundamentais, a que acrescentaria, aliás, a realizada em casa do coronel Marcelino Marques em Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1974, e a realizada em casa do capitão Candeias Valente, em Lisboa, a 24 de Março de 1974. Mas nesta, já não estive, porque tinha sido chutado para os Açores.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

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