Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (O 16 de Março)*

O seu embarque é no dia 15, véspera do 16 de Março. Teve conhecimento, nesta altura, de preparativos, de encontros, de reuniões que decorreram, sensivelmente entre 11 e 16 de Março, com vista a um golpe?
Na altura, não tive conhecimento. Estava, de facto, relativamente incomunicável com o exterior. Posteriormente, soube que, efectivamente, a seguir à nossa prisão, começou a movimentação para avançar para a decisão final que se tinha já acordado em Cascais, que era o golpe militar.
Hoje sei relativamente bem o que se passou e tenho a minha teoria. Em primeiro lugar, importa ter presente que a minha saída de cena criou enormes problemas ao Movimento, em termos de ligação. A Comissão Coordenadora tentou agarrar a situação, mas não soube fazer frente à tentativa dos spinolistas, que viram ali a hipótese de recuperar da derrota que tinham sofrido, há poucos dias, na reunião de Cascais.
E, por isso, forçaram o golpe, sem estar ainda elaborado o programa político. Tiveram, então, influência o Monge e o Casanova Ferreira, que haviam chegado há pouco tempo da Guiné e vinham, como se costuma dizer, com o fogo todo no rabo. Queriam, à força, fazer rapidamente qualquer coisa…!
A essa desorientação e desorganização acrescenta-se a demissão de Costa Gomes e de Spínola, no seguimento da Brigada do Reumático. Estão, portanto, criadas condições para uma tentativa de golpe não planeado, feito em cima do joelho, destinado a falhar. A Direcção divide-se, o Victor Alves não concorda, a Comissão Coordenadora divide-se, só dois ou três elementos acompanham Otelo, a ligação não funciona, não há coordenação com as unidades e o falhanço é total.
E o facto é que apenas o Regimento das Caldas da Rainha avança, convencido de que Lamego e Viseu já vinham por aí a baixo e outras unidades contactadas em cima da hora, não avançam por razões várias.
Como, por exemplo…
Quando contactaram a Escola Prática de Infantaria em Mafra, encontram-na em exercícios de campo. Apesar disso, quando a unidade recebe ordem da Região Militar de Lisboa para mandar avançar uma força, para fazer frente à que vinha das Caldas da Rainha, os oficiais do Movimento fazem com que o comandante dessa força seja um deles, que vem “navegando à vista”, como se costuma dizer, para ver como as coisas se iam passando. Quando contactam a Escola Prática de Cavalaria em Santarém, o Salgueiro Maia diz-lhes: “Mas, o Vasco Lourenço sabe que eu preciso de 48 horas para me municiar”. Apesar disso, quando recebem ordem para avançar uma força para cercar o quartel das Caldas da Rainha, os oficiais do Movimento fazem com que o comandante dessa força seja um deles, o capitão Palma, e este leva mais de oito horas para fazer o percurso de Santarém às Caldas da Rainha.
Quando contactam com a Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, o oficial de dia, que era do Movimento, o capitão Duarte Mendes – o que veio a vencer o Festival da Canção –, diz-lhes que nada feito, pois o pessoal fora de fim-de-semana.
E, mesmo na força do Batalhão de Caçadores 5, que foi esperar a coluna do Regimento das Caldas da Rainha, à entrada de Lisboa, estavam oficiais do Movimento, nomeadamente o capitão Bicho Beatriz, que comandava uma companhia, também a “navegar à vista”, pronto a alterar o rumo.
Como vê, quatro exemplos de unidades que vêm a ter uma importância decisiva no 25 de Abril.
Mas… e Lamego?
Esteve para sair, chegou à porta de armas, mas recebe uma contra-indicação que a faz parar. Algo semelhante se passa com Viseu.
O facto é que o mau funcionamento da ligação fez chegar a Viseu e Lamego a informação de que já havia unidades na rua, nomeadamente o RI5 das Caldas da Rainha, e este sai porque recebe indicação de que Lamego e Viseu já vêm por aí abaixo.
Tudo forçado pelos spinolistas, nomeadamente por alguns espúrios.
O pior é que conseguem envolver o Otelo.
Mas qual foi na realidade, o grau de envolvimento de Otelo Saraiva de Carvalho?
Total. Durante esses dias, procura organizar as forças e fazer o golpe.
É contactado pelos spinolistas, que o incentivam a reagir à possível demissão de Costa Gomes e Spínola. Elabora um primeiro plano de operações, em casa do Casanova Ferreira, muito em cima do joelho.
Apesar de não terem embarcado na ideia desse militar, que defendia que bastava lançar uma bomba de 250 quilos em São Bento, para resolver a situação!
Em reunião com os pára-quedistas e os cavaleiros de Santarém, vê esse plano reprovado e aceita que os páras apresentem uma ordem de operações, a sério, como eles disseram, até ao dia 20.
Não consegue, contudo, resistir à pressão dos spinolistas, face à demissão dos dois generais que escolhêramos em Cascais e, embora com o apoio de outros elementos da Comissão Coordenadora, não ouve os conselhos do Victor Alves, que se põe de fora, dizendo que tudo ia falhar, avança quando chega a informação de que Lamego já vinha por aí abaixo. E aceita enviar um espúrio, o capitão Armando Ramos, às Caldas da Rainha, com a missão de os fazer sair. Que tem a missão dificultada, porque aos oficiais do Movimento lhes cheira a esturro, pois a ligação habitual nada lhes disse, mas que consegue o seu desiderato, por duas razões. Pela pressão dos vários oficiais espúrios existentes na unidade e porque os oficiais do Movimento (havia lá um forte núcleo do Movimento), nomeadamente quando lhe garantem que o Otelo e o José Maria Moreira Azevedo estão nisto, decidem não permitir que os acusem de boicotar a acção.
Com isto tudo, importa realçar que o 16 de Março não é feito fora do Movimento, não é um processo paralelo. É, sim, dentro do Movimento.
Mas, de qualquer modo, não considera uma tentativa de monopolizar o Movimento por parte de uma facção minoritária, os spinolistas?
Em certa medida, sim. É essa a minha opinião. O facto é que há ali uma grande dose de voluntarismo, uma reacção a quente, quer à nossa prisão, quer à demissão do Costa Gomes e do Spínola. Que leva muitos a atirarem-se para a frente, esquecendo-se de que na reunião de 5 de Março tinha sido assumido, como essencial, a elaboração de um programa político.
Um esquecimento que não deixa de ser significativo porque altera completamente a natureza e objectivos do golpe.
Sim, mas o que me parece è que há graus de responsabilidade muito diferentes. Houve pessoas, em certa medida, manobradas e instrumentalizadas por um grupo que tinha outras intenções. Mas, e isso é bom frisá-lo, o 16 de Março não é fora do Movimento. Não é estranho ao
Movimento. É o Movimento que tenta fazer o 16 de Março. Com a componente spinolista em força mas com elementos da própria Direcção e da própria Comissão Coordenadora do Movimento envolvidos.
Sim, mas nota-se inclusive no próprio relato de Otelo Saraiva de Carvalho no seu Alvorada em Abril uma grande descrença no eventual êxito destas operações. É claro que ele estava a partir para essa acção, completamente vencido e quase resignado ao insucesso…
Bem, é capaz de ter razão aí. Agora, é o que eu digo, há ali um misto de sentimentos que se conjugam para levar a essa tentativa que, na minha opinião, a posteriori, ainda bem que falhou. Mas, a sofreguidão de fazer alguma coisa, o ver o terreno a fugir debaixo dos pés quando o Costa Gomes e o Spínola são demitidos, leva as pessoas a correrem contra o tempo e a fazerem uma tentativa de golpe de Estado em cima do joelho, sem planeamento nenhum, sem coordenação nenhuma e, portanto, é natural que quem estivesse envolvido nisso se tivesse, a certa altura, apercebido que aquilo não tinha muitas condições para sair vitorioso. Mas, por outro lado, também não se queria ficar de fora porque, inclusivamente, podia-se ter
o sentimento que se estava a abandonar
os camaradas da conspiração. Penso que consigo compreender o tipo de sentimentos que, na altura o Otelo, que estava no centro dos acontecimentos, terá tido. Quer dizer, era-lhe proibido, digamos assim, pôr-se de fora mas, por outro lado, não é em três ou quatro dias que se conjuga um plano capaz de fazer um golpe de Estado vitorioso.
Havia que arriscar de qualquer modo. É isso?
Sim, mas, por outro lado, havia como disse a tentativa dos spinolistas em aproveitar as condições para fazer o golpe sem o tal plano político… E é preciso ver ainda que havia também muita gente com aquele sentimento que o Banazol tinha expresso, há tempos, de que “isto estava de tal maneira podre que bastava um levantar-se que os outros iam atrás, toda a gente ia apoiar e o regime caía de podre.” Que se provou não ser bem assim. No 16 de Março provou-se que afinal não era, exactamente, como o Banazol preconizava. Por um bambúrrio, o Otelo não vem a ser preso, o que teria sido desastroso.
São presos cerca de 200 militares. Fundamentalmente, os das Caldas da Rainha e mais alguns ligados ao grupo spinolista, alguns na Academia Militar, como o Bruno, o Monge e o Casanova que foram interceptar a coluna que vinha das Caldas e dizer-lhes que estava tudo perdido.
Mas porquê que Otelo também não foi preso?
O Otelo, tanto quanto ele me contou, teve intenção de os acompanhar às Caldas da Rainha, mas quando chegou ali à rotunda do aeroporto, ou junto do RALIS, aquilo estava tudo já de tal maneira ocupado por forças militares que ele achou melhor não aparecer para não se denunciar.
Normalmente, o Otelo também devia ter sido preso o que, inclusivamente, provocou uma situação compreensível a seguir ao 16 de Março.
É que o Otelo começou a ser olhado de lado por muitos militares do MFA, porque diziam: “Eh pá, toda a malta foi presa e este tipo não? Ele que andou tão envolvido, porque é que não foi preso?” E o Otelo teve alguma dificuldade, junto de alguns, em demonstrar que não tinha ligações nenhumas com o poder e com a PIDE. O facto é que não tinha sido preso, unicamente, por sorte…
Apesar dessa clarificação, no sentido de integrar o 16 de Março no Movimento, o certo é que ele foi inspirado pela figura de Spínola.
E continua por esclarecer o envolvimento de Spínola no golpe das Caldas…
Eu penso que o grau de envolvimento dele nunca foi muito grande.
Quer dizer, o Spínola, quer no 16 de Março, quer no 25 de Abril, mais tarde, nunca se envolveu muito directamente. É evidente que ele dava, digamos assim, a directiva geral, certamente, aos seus homens…
Talvez fosse o suficiente. Pelo que afirma o seu ajudante-de-campo António Ramos, partiram dele próprio os contactos para uma acção de protesto contra a demissão dos dois generais. Tudo leva a crer que houve aqui um forte impulso do próprio Spínola, obviamente através do seu ajudante-de-campo.
Se falarmos em acção de protesto, tipo manifestação, sim. Tal como lhe disse atrás, essa foi, aliás, uma das pressões feitas sobre o Otelo. Agora, acção de força, duvido. Duvido e tenho argumentos. Como lhe contei, por duas vezes (e a última tinha sido a 3 de Março…) o Spínola mostrou-se sempre renitente a qualquer acção de força da nossa parte.
Falava em discursos e manifestações. Por isso, duvido que ele tivesse dado luz verde aos seus homens, para desencadearem um golpe militar.
Mas, como conheço bem o António Ramos e outros spinolistas, admito perfeitamente que, ao receberem alento para fazerem qualquer coisa, o seu espírito, a sua capacidade de decisão de homens atirados para a frente, os levasse a ignorarem os conselhos de acalmia de Spínola e a avançarem.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

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