Sons de Abril: José Barata Moura


A música é de José Barata Moura e chama-se «Vamos Brincar à Caridadezinha». Editada pela Orfeu, em 1973, faz parte do primeiro disco do artista e é essenciamente uma música de protesto e de crítica ao regime e à sociedade do tempo da Ditadura.
Sobres esta música, escreveu ernando Madail no «Diário de Notícias» de 22 de Dezembro de 2007: «”Vamos brincar à caridadezinha, festa, canasta e boa comidinha”, cantava José Barata Moura em tom de crítica àquele tipo de senhora que “passa a tarde descansada, mastigando a torrada, com muita pena do pobre, coitada!” O músico, que seria reitor da Universidade de Lisboa entre 1998 e 2006, devia estar cansado de ler notícias como a que o DN publicava no dia 18 de Dezembro de 1965 sobre uma “obra de amor e de bem-fazer”.
A explicação vinha logo no título daquela notícia a meio da sétima página : “A sede dos ‘Fernandinhos Pobres’ começou a encher-se de crianças dos bairros humildes de Lisboa que ali vão buscar alegria e agasalhos”. E a legenda acrescentava: “dirigentes e benfeitoras dos ‘Fernandinhos Pobres’, durante a festa de ontem”.
Para os espíritos mais progressivos, parecia impossível escrever algo deste género: “Uma centena de crianças humildes de Lisboa foi já, ontem à tarde, ao grupo ‘Fernandinhos Pobres’ receber alguns dos donativos que ali costumam distribuir na quadra do Natal”. Mas, enfim, nessa longa noite do fascismo lusitano, havia – já se sabe! – exploração.
“Presidiu à cerimónia a sr.ª D. Maria Natália Rodrigues Thomaz, filha do Chefe do Estado [acerca da qual corriam quase tantas anedotas como sobre o pai]. Presentes, também, muitas senhoras da alta sociedade que patrocinam aquela obra de caridade.” Ah! Essa amaldiçoada palavra “caridade”!
“A partir das 14 horas, começaram a afluir os gaiatos, juntamente com as mães e outros familiares à sede daquele organismo de beneficência. Eram crianças das mais pobres que há na cidade [como se isso fosse um motivo de orgulho para elas] , filhas dos casais que vivem nos bairros mais humildes, tais como Sete Moinhos, Casal Ventoso e Curraleira [provavelmente uma garantia de que, afinal, não eram os falsos pobres de que sempre se suspeita, seja na distribuição de prendas aos pobrezinhos ou no rendimento mínimo]. A pouco e pouco as cem alcofas foram sendo distribuídas. A primeira foi entregue pela sr.ª D. Maria Natália Rodrigues Thomaz [apontada, então, quase como sendo um sinónimo da fealdade], a segunda pela sr.ª D. Maria Madalena Morais, presidente da Cruz Vermelha, e a terceira pela sr.ª D. Maria Emília Castro, esposa do sr. dr. Augusto de Castro [director do Diário de Notícias e, obviamente, uma figura do regime]. E, durante mais de duas horas estas e outras senhoras espalharam, com estes donativos, alegria e conforto a tantas famílias.”
Lá cantava José Barata Moura, no seu timbre claro, em que todas as sílabas se entendem perfeitamente, que “o pobre, no seu penar, habitua-se a rastejar e, no campo ou na cidade, faz da sua infelicidade algo para os desportistas da caridade”. Adiante.
“Na sede dos ‘Fernandinhos Pobres’ reinava uma atmosfera de ternura e de felicidade contagiantes. As crianças riam ou abriam os olhitos com aquela expressão de encanto que é apanágio das suas horas de emoção mais alta.” Seja lá este aspecto o que for…
“As beneméritas protectoras do grupo, a que preside a sr.ª D. Virgínia Lopes da Silva, comungavam, também, na satisfação geral dos seus protegidos, que se sentiam com o Natal deste ano mais iluminado e mais aberto à esperança.” Estávamos, pois – nunca se deve esquecer! -, em pleno fascismo, um tempo de ignorância e de miséria. Aliás, a notícia do lado parecia uma metáfora velada, pois “Lisboa sem sol foi ontem uma cidade triste” e “o nevoeiro deu-lhe uma poesia estranha e fantasmagórica fora dos hábitos alegres dos alfacinhas” – em contrapartida, registavam-se 40 graus em Lourenço Marques, como se designava, nesse tempo de guerra contra os turras (os guerrilheiros da Frelimo), a agora Maputo.
“Hoje, à tarde”, concluía o jornalista, “o mesmo grupo e as mesmas senhoras vão ainda distribuir por mais quatrocentas crianças outras valiosas prendas. São peças de vestuário e de calçado, um lanche e umas guloseimas, para que os miúdos participem, com algo de concreto, no sortilégio mágico do Natal.”
Moral da História: 42 anos depois, derrubado o regime fascista e finda a guerra colonial, com 33 anos de democracia e 22 de adesão europeia, ainda continuamos a necessitar de instituições como a dos “Fernandinhos Pobres”. E a canção parece não ter perdido actualidade: “Não vamos brincar à caridadezinha, festa, canasta e falsa intençãozinha.»

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