A Trofa, os jornalistas e a imprensa regional

Foi ontem, numa terra onde eu nunca tinha estado, que senti o quanto valeu a pena. Decorria em Vila Nova de Famalicão  o [primeiro] Encontro de Imprensa Regional e lá fui, à procura dos pares, saber como páram as modas a norte – onde os jornais são mais antigos, são muitos e ainda empregam muita gente. Tinham passado apenas umas horas desde que o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado a propósito do (inenarrável, mas real) caso da apresentação pública na Trofa, a semana passada, de que tive conhecimento por aqui mesmo, num post do João Mendes. IMG_4595

Eu e o João não nos conhecemos pessoalmente. Aliás, eu e muitos desta casa não nos conhecemos pessoalmente. Convenço-me que é a história da minha vida, reconhecer uma tribo muito antes de ver os seus membros, olhos nos olhos. Muitos não sabem, mas foi assim também com esta equipa que é a direcção do SJ: a maioria não se conhecia, pessoalmente, até ao dia em que tomámos posse, há dez meses. A maioria não tinha qualquer experiência sindical, mas esse é um caso sociológico que um dia se há-de contar. Pela minha parte, levavam-me duas bandeiras – a imprensa regional, onde sempre trabalhei, e alguma protecção aos freelancers (como eu e tantos), muitos deles à força, a tentar um difícil equilíbrio na precariedade.

O Aventar (assim como o Farpas, a Preguiça e as redes) ajudaram-me muito nos dois anos de desemprego. Foi assim que me mantive viva, à tona da água, às vezes a escrever as histórias que deveriam estar nos jornais, pelas quais alguém deveria pagar, por serem trabalho. Mas essa é a outra parte do problema da imprensa regional, como tão bem focava ontem, a norte, o incansável presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro, quando falava do modelo de negócio que é preciso descobrir para rentabilizar as histórias que contamos, o que anunciamos, o contributo que damos para o desenvolvimento regional. O verdadeiro, que inclui as pessoas, e não apenas a estrada, o edifício, a infraestrutura (esse chavão…)

E então foi ontem, na Casa das Artes, sugestivo palco para o Encontro, que percebi como é que isto anda tudo ligado: ao final da manhã um rapaz que eu nunca tinha visto veio ter comigo e agradecer o que o Sindicato tinha feito por ele e pelo jornalismo daquela região, ao tomar posição sobre aquela ilegalidade, que é, afinal, um ataque vergonhoso à liberdade, perpetrado por quem deveria ser o primeiro defensor da democracia num concelho – o presidente da Câmara. Era o Hermano Martins, o jornalista cuja voz ouvimos no famoso vídeo da Trofa.

Conheci ontem muitos camaradas que fazem parte dessa tribo de que vos falo. Gente que todos os dias dá de si tudo o que tem para exercer, dignamente, a profissão. E que às vezes só precisa de espaço para contar a história. O tempo não volta atrás e não vale insistir na tecla gasta do papel, muito menos encarar o on-line como adversário. A rede é um aliado fortíssimo para os jornais, só ainda não descobrimos muito bem a forma de vestir este fato.

É verdade que para um jornal ser respeitado é preciso dar-se ao respeito. Ninguém o consegue a lamber botas. Por isso é tão desafiante esse equilíbrio na proximidade, mel e cicuta para quem trabalha na imprensa regional, onde a liberdade e a independência financeira andam mesmo de mãos dadas. Portugal tem qualquer coisa como 700 títulos, alguns de reconhecido valor e qualidade – editorial e gráfica. Um património que faz inveja a muita da europa dita desenvolvida. Mas chegou lá também essa moda nascida em Lisboa que “proletarizou os jornalistas e profissionalizou as fontes”, tal como disse, por lá, o presidente da ERC – Entidade Reguladora da Comunicação Social, Carlos Magno.

Retive, na viagem de centenas de km que (aparentemente) me separam da Trofa, a história que a Luísa Ribeiro, do Diário do Minho, contou no final do encontro, quando fazia as conclusões: “havia um presidente da Câmara que tudo o que pedia ao seu gabinete de comunicação era para não dar erros ortográficos. Para não ficar mal visto”. Para aqueles momentos em que o press da autarquia sai no jornal ipsis verbis. O combate começa aí. A luta tem várias frentes. Mas é possível ganhar essa batalha e erguer uma fortaleza, como lhe chama João Palmeiro.

Ontem, no norte, estava lá tudo o que é preciso nessa guerra de sobrevivência, que só se faz com soldados, sejam eles de chumbo, de papel, ou digitais.

Comments

  1. Vera Araujo says:

    Muitos parabéns pelo texto. E muitas felicidades na batalha por todo o país.


  2. Belíssimo texto, boa sorte para o seu trabalho no sindicato e é sempre bom saber que não ficam a olhar para o tecto, e vão a acção em defesa dos jornalistas. Força e espero que nunca mais fique desempregada.