Tomemos esta valsa

                                                     Foto: Nuno Ferreira Santos

Por estes dias, quase nos sentimos obrigados a pedir desculpa quando vimos falar do prazer. Em tempos difíceis, há um olhar severo (muitas vezes o nosso) sobre aqueles que escolhem falar de coisas tão etéreas como canções. Mas os nossos corações não pulsam ao compasso histérico dos mercados, e aos nossos corpos não basta o feijão com arroz da sobrevivência. E é, afinal, nos tempos de sombra que fazem mais falta os faróis, por muito escassa que se revele a sua cintilação.

Tudo isto – como a gente se sente obrigada a justificar-se – para dizer que, ontem à noite, um trovador antigo, um profeta irónico, um monge zen, um homem do mundo, chamado Leonard Cohen esteve em Lisboa. Já escrevi outras vezes sobre ele, trago versos seus nos meus bolsos, como se fossem fragmentos de mapas, e por vezes até tenho a ilusão de que sou eu, com tantos outros como eu, que o mantemos vivo e que o alentamos na sua luminosa velhice, para que fique um pouco mais connosco.

Leonard é de um outro tempo. Não por ser um homem de 78 anos – uns vigorosos, abençoados 78 anos – mas porque é um homem da palavra e do silêncio, do fogo, das cinzas, da memória. Tudo nele resiste à voracidade dos tempos actuais e, por isso mesmo, as suas canções soam, a um tempo, anacrónicas e revolucionárias.

Há versos de mágoa e perda, e até de raiva, mas também a alegria de uma pequena valsa – “é tua agora, é só o que resta” – a recolha obstinada e terna dos momentos tocados pela graça. Como as suas “irmãs da misericórdia”, também das suas canções se poderia dizer que trazem reconforto àqueles que viajaram por muito tempo e nem sempre encontraram guarida.

“Não tenho futuro, sei que os meus dias são escassos”, canta-nos, sem que isso seja um lamento, mas um mero aviso de que não há tempo para o supérfluo. A sua profunda voz de barítono, na sua textura densa, vem vestida de tempo e sabedoria. E numa das canções mais recentes, “Going home”, revela-nos o seu plano:

“Ele quer escrever uma canção de amor/ Um hino de perdão/ Um manual para viver com a derrota.”

Leonard cumpriu o plano e já nos deixou tudo isso. E por isso as despedidas fazem-se com passos de dança, ai, ai, ai. Para estes dias rotineiros e envilecidos trazemos esta pequena valsa, que é nossa agora, é tudo o que resta.

Comments


  1. Carla – lindo – é isso mesmo e que nunca tivémos nem uma “imitação” o que não quer dizer que o pa+is é um VAZIO – e se é agora por fora, não é por dentro

  2. Carla Romualdo says:

    obrigada, Celeste, e também não acho que seja, de forma alguma.

Trackbacks


  1. […] dia tão triste, lembremos um excelente texto da Carla Romualdo (já agora, eis outro) e esta Villanelle que o A. Pedro Correia nos […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.