Métodos revolucionários 1

Nestes tempos que não são perfeitos, mas em que pelo menos temos a certeza de alguém estar sempre pior que nós…
Nestes tempos que não são propriamente inspiradores, mas em que pelo menos temos a garantia de estar a um pequeno passo de quem está um bocadinho melhor… e isso já chega!
Nestes tempos modernos, onde se vive no sossego de uma sociedade democrática, no conforto de políticas centristas e moderadas, que asseguram a nossa liberdade…e zelam pela tolerância.
Nestes tempos que nos embalam na certeza máxima de que “o mundo é assim” como nós… umas vezes bem, outras pior…e que enquanto soubermos estar em sociedade e percebermos que a liberdade de uns começa onde acaba a dos outros… tudo terá ordem e sentido.
E faz muito sentido!
Faz tanto sentido que as pessoas modernas se esqueceram de serem elas próprias a determinarem onde começa e acaba a sua liberdade e deixaram a definição desses limites para alguém mais competente.
Houve tempos nas sociedades ocidentais que quem decidia os limites da liberdade era a igreja.
Houve tempos que foram os políticos, os parlamentos, as constituições e as ditaduras.
Nestes tempos são as democracias, os media, as multinacionais, as crises, os défices, os trusts, os offshores, as especulações imobiliárias, as taxas de juro, o euribor, o euro, o FMI, a OPEP, a NATO, a ONU, o G8, as ONGês e toda uma infinidade de siglas, nomenclaturas, desígnios e designações que a todos os minutos, nos confundem e nos convencem…que quem decide não somos nós! (mas que todavia continuamos livres!!!)
Quero então propor um simples teste à nossa suposta liberdade… Um teste à nossa competência de decidir onde começa e onde acaba esta liberdade, assumindo nós próprios, pela primeira vez, o risco de importunar a liberdade de alguém!
Um teste que não exige tempo ou dinheiro…
É muito simples: cuspir no chão.
Cuspir no chão é um manifesto claro da nossa expressão individual.
Ninguém cospe da mesma forma, nem tão pouco existem duas bisgas iguais! (Posso admitir que exista quem não ache a bisga, ela própria, assim muito atraente, mas para todos os efeitos nesta sociedade tolerante, gostos não se discutem.)
Cuspir no chão é um simbolismo da nossa liberdade de expressão. Se eu estiver descontente com o governo, cuspo na porta da assembleia, se me irritar com um polícia cuspo na rua. Sempre com a vantagem de muito dificilmente ser preso ou multado por isso [1], e sempre expressando de forma muito inequívoca os meus sentimentos… de uma forma rápida e directa, bem à imagem da nossa fastsociety.
Cuspir no chão não carece de uma fantástica justificação pseudo-intelectual, que tanto elitiza as famigeradas mentes revolucionárias, e as isola no seu discurso…tão inalcançável quanto essas revoluções.
Cuspir no chão é um processo pedagógico, que nos liberta dos processos de auto-censura que construímos em prejuízo da nossa liberdade desde o dia em que nascemos.
Cuspir no chão testa a nossa responsabilidade individual, na medida que nos obriga a saber viver com os olhares e possíveis comentários de desaprovação, das pessoas que assistirão a esse acto e muito possivelmente não o compreenderão. Nesta circunstância resta-nos duas hipóteses: a primeira é explicar o porquê deste acto, e esperar que o interlocutor encontre espaço na sua mente tolerante para ouvir uma explicação que ele não concebe à partida; a segunda é bem mais simples, e resume-se a dirigir um sorriso simpático, acrescentando: “- Não era para si!”. Garanto que a segunda resulta melhor!
Entenda-se que toda a pressão social que esta atitude acarreta, obriga o cuspidor a não recorrer à bisga de uma forma gratuita. Mais, eu diria que a banalização da bisga é muito pouco provável, tendo em conta que nas sociedades modernas ninguém gasta saliva assim ao desbarato. [2]
A melhor parte é que, cuspir no chão não tem custos, e muito dificilmente existirá alguém que não tenha capacidade para o fazer.
Ainda assim acreditem-me:
– Há quem passe a vida toda sem nunca mandar uma cuspidela!

Nota: Lembrei-me que eventualmente a ASAE, poderá levantar questões quanto ao cumprimento dos parâmetros de higiene…Por via das dúvidas o melhor é lavar bem os dentes, e nunca sair de casa sem o comprovativo relativo à inspecção oral…Não vá o diabo tecê-las!
Nota 2: O actual governo já manifestou o seu agrado, por se recorrer a métodos revolucionários não poluentes… dizem que isto dá um empurrãozinho à venda de painéis solares.

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Comments


  1. Só uma dúvida: pode ser uma inócua, branquinha e apenas com algumas das habituais bolhinhas ou tem de ser uma das amarelas, corpulentas, com formatos estranhos e bem mais consistentes? E em que medida é que a nossa liberdade será avaliada consoante for de um tipo ou outro?

  2. Manuel Antunes says:

    Por acaso o senhor não me quer indicar a sua morada? É que apetecia-me escarrar forte e feio à porta de sua casa. Excercendo a minha liberdade individual, claro, com todo o civismo do mundo e apenas como forma de mostrar o meu descontentamento perante determinados autores de blogues.

  3. Gustavo Carvalho says:

    Caro José Freitas, pode ser um simples perdigoto! Desde que seja com atitude…Quanto à avaliacão da liberdade…esse é o ponto fulcral de todo o texto. Só nós próprios somos capazes de avaliar, medir, gerir, restringir, esticar a nossa liberdade, consoante a nossa vontade, consoante a nossa capacidade… só assim seremos responsáveis por ela.

  4. dalby-o-calmo says:

    Oh Manuel Antunes, ainda dizem que eu sou um tipo «descontrolado»!!! eu sou o 3º pastorinho , o francisquinho comparado com essa agressividade toda! Anda Ricardo Santos Pinto que tenho de falar contigo!! ON VA PARLER!! ON VA PARLER!!!!

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