O pensamento político de José Sócrates e de Anna Ilona Staler (homenagem a João Miguel Tavares)

 
Tal como Luís Rainha, também eu já tive oportunidade de penetrar Anna Ilona Staller no que ao seu pensamento político diz respeito.
Vem esta conversa a propósito do recente ataque despropositado de João Miguel Tavares a Anna Ilona Staller. Tal como Luís Rainha, também considero que João Miguel Tavares fica muito mal neste retrato e que, se vai ser processado por José Sócrates, também o devia ser pela política italiana.
Continuando com a seriedade que este tema impõe, devo dizer que o grande pecado de João Miguel Tavares foi não concretizar. Comparou muito ao de leve José sócrates e Anna Ilona Staller, mas não foi tão fundo quanto se impunha na análise do pensamento político de ambos. Mesmo quando sabemos que o pensamento político de José Sócrates se resume a duas ou três citações famosas e que, ao invés, o pensamento político de Anna Ilona Staller é um poço sem fundo onde cabe tudo, em particular um conjunto de ideias muito meritórias.
Nesta análise, distinguirei a Anna Ilona Staller política da Anna Ilona Staller actriz, embora haja pontos de contacto nestas duas realidades tantas vezes intercomunicantes. Já quanto a José Sócrates, não há distinção possível: o José Sócrates político confunde-se de tal forma com o José Sócrates actor que, muito provavelmente, nem o próprio conseguirá perceber qual o papel que está a desempenhar em cada momento. Ali, tudo é artificial, tudo é de plástico, todo o movimento é controlado ao pormenor a cada segundo.
Vamos à parte política. Em algumas questões fracturantes, encontramos semelhanças ideológicas. Anna Ilona Staller, feroz ambientalista, recusa terminantemente a energia nuclear. José Sócrates também e até já descartou o projecto de Patrick Monteiro de Barros. Anna Ilona Staller é contra a pena de morte e todas as formas de violência, pensa-se que José Sócrates também. Anna Ilona Staller defende a educação sexual nas escolas, José Sócrates vai avançar com doze horas por ano de educação sexual nas escolas. A nível ambiental, Anna Ilona Staller propõe um imposto automóvel para reduzir a poluição. José Sócrates, embora não indo tão longe, já se mostrou publicamente preocupado com as metas de Quioto.
Agora, as diferenças.
Anna Ilona Staller é contra a NATO, José Sócrates não. Anna Ilona Staller defende a legalização das drogas leves, José Sócrates nada fez nesse sentido. Anna Ilona Staller defende o sexo nas prisões entre cônjuges, José Sócrates apenas se forem pessoas do mesmo sexo. Anna Ilona Staller critica o uso de animais em experiências científicas, José Sócrates parece que não.
Quanto ao cinema, a comparação é mais difícil pelos motivos já referidos. Ainda assim, direi que Anna Ilona Staller transportou para o cinema uma parte da sua vida política. Numa atitude sem precedentes, marcou a «sétima arte» com as mesmas causas identitárias que a celebrizaram na política – o amor pelo Homem (e pela Mulher), sem distinção de cor, de idade ou de tamanho; a paixão pela educação, bem patente em «A Liceal», de 1975; a denúncia da hipocrisia humana em «Vícios privados, Públicas virtudes», do mesmo ano; a recusa da autoridade, em «A tutte auto della polizia», ainda de 1975; uma subtil crítica à Guerra Fria, em «Telefone vermelho»; ou uma chamada de atenção para a escassez de alimentos em «Banana e chocolate».
Quanto a José Sócrates, é político e actor em simultâneo. Mas se olharmos para os filmes que Anna Ilona Staller protagonizou, bem poderíamos dizer que o primeiro-ministro poderia ter contracenado com a política-actriz. Em «Vícios privados, Públicas virtudes», por exemplo; ou em «A tutte auto della polizia», sendo que em ambos a sua licenciatura sem mácula e a campanha negra do Freeport poderiam ser o ponto central do enredo. Ou ainda em «A Liceal», em que Anna Ilona Staller poderia ser substituída por Maria de Lurdes Rodrigues e ambos discutiriam, em filme, mais medidas para pôr os professores na ordem.
Uma nota final, sempre com a seriedade que este tema impõe, para destacar o comportamento de José Sócrates em todo este processo. Como todos sabemos, já não é a primeira vez que o primeiro-ministro faz tábua rasa de uma conquista de Abril chamada «liberdade de expressão». O professor António Balbino Caldeira, «Do Portugal Profundo», já sofreu na pele as investidas do pândego que nos governa, com apreensão de computador pessoal, invasão da casa da mãe a meio da noite, etc, etc, etc..
Desta vez, coube a João Miguel Tavares a honra de ser objecto da atenção do primeiro-ministro, pensa-se que enquanto tal e cidadão. Já vai poder pôr esse facto no «curriculum», se bem que, escrevendo no «Diário de Notícias», não se lhe augure um futuro muito risonho.
Mas afinal, o que disse João Miguel Tavares? Que ouvir José Sócrates a falar de moral na política seria a mesma coisa que ouvir Cicciolina a falar de monogamia. Que ofensa! Que grave!
Tão grave como se eu dissesse que ouvir José Sócrates a falar de moral na política seria a mesma coisa que ouvir Hitler a falar de direitos humanos.
Tão grave como se eu dissesse que ouvir José Sócrates a falar de moral na política seria a mesma coisa que ouvir Lucílio Baptista a falar de moral na arbitragem.
Tão grave como se eu dissesse que ouvir José Sócrates a falar de moral na política seria a mesma coisa que ouvir a irmã Lúcia a falar de sexo.
Tão grave como se eu dissesse que ouvir José Sócrates a falar de moral na política seria a mesma coisa que ouvir Carolina Salgado a falar de monogamia.
Tão grave como se eu dissesse que ouvir José Sócrates a falar de moral na política seria a mesma coisa que ouvir o Jugular a falar de moralidade na blogosfera.
E agora? Vai processar-me a mim?

Comments


  1. Começo a ter pena do JS. Está sempre a apanhar pancada neste blogue. Ainda me vou instituir como Provedor do PM.

  2. Luis Moreira says:

    Ninguem pode dizer que Sócrates é culpado mas tambem Sócrates ainda não quiz pôr tudo em pratos limpos, colocando-se ao dispor da Justiça para mostrar as suas contas bancárias, o seu património! E Sócrates foi sempre um político profissional não deve ser difícil comparar o que ganhou e declarou com a (possível) riqueza que tenha acumulado.Já a Cichiolina passou a vida a pôr tudo em pratos limpos.Ou melhor ,mostrou sempre tudo o que tinha. (perdão…)


  3. São ambos jeitosos … podiam fazer um filme juntos …;)

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