A queda de um anjo

Num curto post, publicado no Blasfémias, João Miranda critica os familiares das vítimas do colapso da ponte de Entre-os-Rios por terem apresentado um processo judicial mal fundamentado e quererem agora que seja o Estado a assumir o pagamento dos custos judiciais, que foram condenados a saldar por terem perdido em tribunal.

É, de facto, um pedido sem sentido. Não foi o Estado que apresentou o processo, nem que o fundamentou de forma deficiente. Imagine-se o que seria, se todos nós recorrêssemos ao tribunal para tentar resolver qualquer litígio, mesmo sem fundamento ou provas. Se a coisa corresse bem, não havia problemas. Se corresse mal, o Estado pagava.

No caso de Entre-os-Rios, perder o processo foi como se a famosa estátua do anjo tivesse caído. Não há aqui menor sensibilidade em relação ao triste acontecimento de 2001. Há apenas uma questão de bom-senso.

O valor, é verdade, é exorbitante, num sinal de que a justiça em Portugal é lenta, chata, burocrática e muito dispendiosa. 500 mil euros por este caso parece excessivo.

Nos comentários a este texto, diz-se que “a culpa morreu solteira” porque “ninguém foi responsabilizado”. Não é verdade. Jorge Coelho demitiu-se do cargo, assumindo as culpas, mesmo que não as tivesse. Hoje é presidente de uma grande empresa construtora. Esperemos que, nestas funções, possa evitar a queda de alguma ponte ou viaduto. Mesmo dos que não servem para nada.

Actualização:
O Público online colocou uma informação da Lusa, segundo a qual o Tribunal de Castelo de Paiva disse hoje que o valor das custas relativas ao processo da queda da ponte de Entre-os-Rios é de 57 mil euros e não de perto de meio milhão, como disseram as famílias das vítimas. O presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios (AFVTE-R), Horácio Moreira, surge na mesma notícia a admitir que seja esse o valor. “Se o tribunal diz que é esse o valor, eu acredito”. E, sem se rir, desvalorizou a diferença. Sim, porque entre 57 mil euros e 500 mil, a diferença é insignificante. Acho que vou passar a acreditar no coelhinho da Páscoa.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    A verdade é que uma Justiça cara é só por si uma Justiça desigual.Há menino que vai de recurso em recurso porque tem dinheiro.Já se passou comigo.Com o advogado contrário a avisar-me que eu não tinha dinheiro para lutar contra uma empresa de comunicação social e a Juíza a dizer que era melhor para mim e para a minha família ,desistir.Com ameaças veladas porque o meu advogado sabia menos que eu.

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