Um homem que é o máximo

O homem julgou que era o maior. O homem fez parte da orgulhosa brigada da mão gelada. O homem pode ter cometido ilegalidades financeiras graves, as autoridades judiciais podem ajudar neste aspecto. O homem indignou-se quando foi acusado. O homem partiu com uma reforma dourada. O homem, mesmo na reforma, mesmo no tempo da contenção de despesas, continua a usar e abusar dos meios do banco que liderou.

O homem, consta, não gosta de calças de ganga. O homem, consta, sente-se injustiçado. O homem gosta de viajar à custa dos accionistas e clientes do banco. O homem é assim, gostem ou não.

Até pode ser que venha a ter direito a estátuas e a condecorações.

Porque não enfia-las numa redoma?

Admito que ainda sou do tempo em que menino e moço, podia brincar nas ruas à vontade. Hoje os tempos são outros. As crianças não brincam nas ruas. Aliás, já quase não brincam. Pelo menos a sério. Vá lá, aquela coisa de passar horas agarrados a uma consola de jogos não é brincar, pois não?

De ano para ano crescem os limites da fronteira até onde as crianças podem ir. Não podem brincar na rua, não podem brincar com brinquedos que não tenham passados três milhões de testes, não podem apanhar um pouco de sol, um pouco de chuva, nada.

Agora, a Associação Para Promoção da Segurança Infantil, que se começa a assemelhar a uma entidade fundamentalista, veio alertar para os riscos das visitas das crianças às praias. Alerta para o perigo de as crianças "correrem risco de morte" só para estar algumas horas na praia. Por causa do problema da segurança rodoviária, porque pode haver acidentes, ou afogamentos.

Sim, pode acontecer tudo isso e muito mais. Como há muitas outras formas de podermos morrer quase sem dar por isso. O ser humano é, na realidade, muito frágil.

Já agora, para além dos inúmeros conselhos de como prevenir tragédias, porque é que a associação não se entretém a elaborar uns quantos, decentes, sobre como ajudar as crianças a brincar melhor.

Sempre será melhor que cresçam como crianças do que como seres superprotegidos e envolvidos numa permanente redoma que os protege de tudo, até da própria vida.

Carlos Fonseca – Mr. Pescanova

Num blogue colectivo, como numa equipa de futebol, o plantel não é imutável. Há entradas e saídas, contratações (às vezes milionárias), dispensas e rescisões voluntárias. Carlos Fonseca enquadra-se nestes último caso – decidiu abandonar voluntariamente o Aventar. Vamos tratar de imediato da sua substituição, já que ocupava um lugar importante no plantel. Enquanto isso não acontece, aqui fica, em jeito de despedida e de agradecimento, um dos seus últimos «posts». Para ti, Carlos, as portas do Aventar estarão sempre abertas.
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O Zezinho há tempos participara num ‘casting’, realizado por agência de publicidade de projecção internacional. Mais tarde, foi informado que tinha sido o candidato seleccionado, assim como do objectivo do filme: inaugurar uma unidade de aquicultura da Pescanova em Mira.
Ontem, chegou o ambicionado dia da inauguração. O Zezinho lá se apresentou com vários companheiros de brincadeira, entre os quais o inigualável Manel, personagem que não dispensa uma oportunidade que seja de lançar a bronca da ordem: – os economistas fazem sempre confusão, quando falam de investimento – asseverou. O Manel, também economista em acumulação com o papel de comediante, largou ‘tal bernarda’ e disse para si próprio: – é preciso que o povo saiba que aqueles 28 gajos sofrem todos de insanidade e só produzem confusão. Loucos e ignorantes!
Mas regressemos ao Zezinho. Ele vestiu-se a rigor e com estilo à altura da elevada responsabilidade do acto publicitário. Camisinha branca muito, muito, leve, metáfora da espuma marinha, e gravatinha do vermelho igual ao do logótipo da Pescanova. Alegoria perfeita. Entre os amigos, houve logo quem afirmasse: – O nosso Zé está um autêntico Mr. Pescanova. E quando ele extraiu da água o pregado, com mãozinhas delicadas para não magoar o peixinho e evitar molhar os punhos da camisa, foi o delírio. Toda aquela gente tributou ao herói entusiástica salva de palmas, sorrindo de felicidade. O Manel e o Jaime foram dos mais satisfeitos, no meio dos presentes, rodeados de tanques e pregados por todos os lados.
Agora até ao final do Verão, o Zezinho tem a carteira de compromissos preenchida. De inauguração em inauguração, lá vai estar ele, vestido a preceito e em estrito respeito pelos ‘briefings’ dos criativos publicitários. Não é despicienda, antes pelo contrário, a vontade de vencer, de vencer folgadamente. Com grande foguetório, se ganhar absolutamente, porque significará ganhar por muitos e também derrotar muitos mais, de hoje e de amanhã. É a vida de um artista do género dele.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a sexta e última parte:

Chegaram, no final do corredor, a uma sala lugubremente iluminada por velas. Sentado a uma mesa estava um homem encapuchado. Fez um gesto com as mãos. Os raptores deixaram-nos sós. Era um sujeito aparentemente alto e forte e que, quando falou, revelou uma voz  de pessoa educada e habituada a comandar, utilizando uma linguagem cuidada e com boas maneiras:

– Não sei se o meu amigo conhece ou se recorda daquela fala do Hamlet em que ele diz, mais ou menos assim, salvo erro, para sua mãe, a rainha Gertrudes – «Talvez eu seja cruel, mas apenas quero ser bom» – suspirou – na vida e na política também é assim, muitas vezes, para sermos bons, temos de ser cruéis. Por isso, o trouxemos até aqui desta forma desagradável e a esta hora imprópria. Peço-lhe, desde já, imensas desculpas.

Sem saber porquê, Jorge, pareceu-lhe já ter ouvido antes aquele timbre de voz, aquela maneira de  pronunciar correcta e totalmente as palavras, ao contrário do que acontecia entre os lisboetas em que, sobretudo nas camadas populares, muitas das sílabas eram comidas e na sucessão de vogais mudas havia palavras que pareciam bizarras sequências de consoantes. Não falava também com as vogais abertas do Norte e eliminando os vês ou com a pronúncia da sua Beira, com ceceios e abundância de xis, nem com o característico português cantado do Sul. Aquele cuidadoso escandir das palavras, aquele silabar ritmado das frases, que lhe parecia já ter ouvido noutro lugar, estaria próximo de um hipotético português-padrão que alguns homens das gerações anteriores, geralmente formados em Coimbra, caprichavam em manter como traço cultural distintivo do português eivado de simplificações fonéticas e de modismos que os jovens gostavam de utilizar pelas mesmas razões: fidelidade à tribo. O seu pai falava assim também, embora não de forma tão pronunciada. Ele próprio utilizava um português filtrado em Coimbra, dificilmente identificável do ponto de vista regional, ao contrário de Luciano que gostava de exibir, de assumir com exuberância e orgulho a sua condição de beirão, falando ostensivamente axim, como diziam os alfacinhas. Mas não conseguiu lembrar-se onde ouvira já aquela tão correcta como estranha maneira de usar o idioma.

Fez um gesto de assentimento com a cabeça:

– Lembro-me bastante bem dessa fala. E Shakespeare até, salvo erro, diz a seguir, também pela voz de Hamlet: «Isto começou muito mal, mas o pior ainda está para chegar!», qualquer coisa neste género – Jorge recuperara a serenidade e a aparente lhaneza do encapuchado pusera-o, de certo modo, mais à vontade. «Pelo menos»,  pensou tentando tranquilizar-se, «parece ter sido ultrapassada a fase das navalhas».

Uma gargalhada sonora e expontânea saiu por detrás do balandrau negro:

– Essa é boa!  Esperemos bem que não. Esperemos que o pior já tenha passado.

Após uma pausa, o mação começou por indagar sobre as suas preferências ideológicas. Jorge disse a verdade, que era um ferrenho, um convicto adepto da República embora o assassínio do rei e do herdeiro do trono tivesse sido, na sua opinião, um excesso desnecessário e cruel. O homem pareceu ficar satisfeito com a resposta. E depois de um breve silêncio,  desbobinou o seu discurso. Estava completamente ao corrente da sua relação com Margarida e sabia que ele se referira a uma reunião que tivera lugar em casa da jovem actriz e que tinha conhecimento do que se dissera nessa reunião. A bem da Revolução que estava iminente, aconselhava-o a não dar com a língua nos dentes, sob pena de ele e a rapariga virem a ter graves problemas. Até mesmo as suas vidas ficariam em perigo, pois havia questões em jogo que tornavam completamente  irrelevantes as vidas de um jovem bacharel de Celorico da Beira e de uma insignificante actrizita do teatro de revista. «Como o amigo calcula, de ambos os modelos há à venda no mercado a três o vintém!», disse tentando fazer humor para quebrar a tensão que o ambiente e as circunstâncias haviam criado, o que, obviamente, não conseguiu. Jorge esboçou um pálido sorriso, mas não achou graça nenhuma. Cogitou: «Mau, mau, lá voltamos nós novamente às ameaças».

Depois de uma breve pausa, o sujeito disse-lhe também que nunca estivera nos planos da Maçonaria matar o rei e o príncipe real. Nem tal coisa pensar! Que o alvo do atentado sempre fora o João Franco. A mudança do objectivo definido pelas instâncias superiores, fora decidida exclusivamente pelos elementos do grupo à última hora. Isto correspondia inteiramente à versão que os conspiradores tinham combinado tornar oficial. Jorge assentiu com repetidos acenos de cabeça, como se acreditasse.

– Uma surpreendente e desagradável questão de indisciplina que, de modo algum, é habitual na nossa organização. Nunca tinha acontecido uma coisa assim – concluiu, acrescentando com uma nota de dramático pesar na voz – Mas, coitados, também, na verdade, os nossos pobres companheiros pagaram com as suas vidas esse indesculpável e trágico acto de indisciplina.

Na reunião, tinham dito mais ou menos o mesmo. Só que, em vez de indisciplina tinham usado outra expressão, menos respeitosa, mas talvez mais sincera, mais objectiva: «tontice militante», era assim que tinham dito. A versão referida na reunião  da Rua do Ouro  e que ele escutara era a que ficara a valer para efeitos de consumo externo. Jorge continuava a assentir com a cabeça.

Em seguida, o polido cavalheiro ralhou-lhe pedagógica e mansamente, como quem critica uma pequena travessura infantil,  por andar envolvido com a protegida de um senhor deputado, tão respeitável e poderoso:

– Não é coisa que um rapaz decente como o senhor, com os seus princípios, com a educação familiar e a formação académica que recebeu, deva fazer. Não é nada bonito, mas eu compreendo; também já tive a sua idade. Os sentidos imperam sobre a razão, é biológico e natural – fez uma pequena pausa e prosseguiu – Mas isso está ainda no começo, é apenas um devaneio juvenil com pouco mais do que um dia de duração, é melhor terminar já, senão depois vai custar-lhe bastante mais. Digo-lho, meu amigo, por experiência própria – disse, parecendo deveras preocupado com a vida sentimental do rapaz.

Sigur Rós:

Depois deste primeiro almoço do Aventar por terras da Maia aqui fica uma prenda para todos os que não puderam ir:

“To mark the 10th anniversary of the Icelandic release of their
breakthrough album ‘Agaetis Byrjun’, Sigur Ros have made available
two exclusive live performances from the original launch party
concert at the Icelandic Opera House on the night of June 10, 1999 –
back when few people outside Reykjavik hadn’t the foggiest clue who
they were”:

http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=4608579&server=vimeo.com&show_title=1&show_byline=0&show_portrait=0&color=&fullscreen=1

nýja lagið from sigur-ros.co.uk on Vimeo.