Em que estás a pensar?

Desde que abri uma conta no Facebook (FB) tendo aprofundado a suspeita de que vivemos vidas de fachada. Para quem não conhece, o FB transmite a cada uma das pessoas que compõem a nossa rede de amigos informação sobre as nossas actividades, mostra-lhes as fotos que colocamos online, as ligações para videos do youtube, conta os resultados dos testes tipo revista Maria que pululam por lá, das frases que se escrevem em resposta à pergunta central que o FB faz a cada um dos inscritos: “Em que estás a pensar?”.

Que essa seja a pergunta isco, aquela com que o FB espicaça os seus utilizadores, já não augura nada de bom, claro. Há perguntas demasiado perigosas e essa é uma delas. Tomem como exemplo o meu amigo A. (as letras são completamente aleatórias, claro). O A. é um artista, um homem de sensibilidade e talento, cujas noites, pensava eu, se consumiam numa boémia criativa onde não faltariam álcool, mulheres, poetas malditos, nuvens de fumo…

Mas quando ligo o FB e recebo a lista das suas actividades recentes, descubro que ele passa essas noites a ver videoclips dos anos 80, que busca, em sucessivos testes, a resposta a perguntas como “quem eras noutra vida?” e “de que cor é a tua aura?” e que, nas raras noites em que parece sair de casa, anuncia-o três dias antes em parangonas “Vai ser de arromba!!!”

Não é o único a surpreender-me, claro. A B. é uma mulher de muitas qualidades, solteira, atraente, profissionalmente bem sucedida, mas que, por ainda não ter encontrado o parceiro amoroso com que sonha, dá como resposta ao tal “em que estás a pensar?” confissões acerca do homem ideal, dos desencontros das suas relações amorosas, e até declarações explícitas que fazem corar de vergonha alheia.

E que dizer do C., que descreve cada uma das suas comezinhas actividades diárias com o detalhe de um maníaco? E fotografa a comida antes de tocar no prato para poder publicar uma imagem do seu jantar?

Uma atrás de outra, abrem-se janelas para um desamparo que por vezes é ridículo, mas nem por isso menos pungente. O que nos leva a contar o inconfessável, quando, na solidão das nossas casas, o único elo de ligação com o mundo é um teclado e no monitor se acende esse aguilhão. “Em que estás a pensar? Em que estás a pensar? Em que estás a pensar?”

Aliciaram-me com o argumento de que o FB seria uma ferramenta que me permitiria manter o contacto com os amigos geograficamente distantes, ou estabelecer contacto com pessoas com quem dificilmente me cruzaria de outro modo, mas quer-me parecer que o FB é muito mais do que isso. É uma janela para a solidão alheia. Eu que o diga, naquelas madrugadas em que me ponho à procura de videos da Nina Simone.

No Dia Mundial da Criança


«A dor das crianças não mente», de Pedro Namora.

Carlos Medina Ribeiro – Nas próximas Autárquicas, não se esqueçam de votar em quem permite isto!*

Post publicado originalmente aqui

Acesso ao pátio do prédio N.º 43, da Av. de Roma, pelo N.º 1 da Rua Frei Amador Arrais. O pátio tem 4 garagens e 6 lugares marcados no pavimento. Esta foto, sem carros a impedir o acesso, só foi possível de obter porque foi tirada num domingo, muito cedo.

As fotos seguintes foram tiradas, com pouco tempo de intervalo, no passado dia 28, à tarde.


A condutora do carro encarnado quer sair do estacionamento que se vê na 1ª foto.

A poucos metros dali, à entrada da rua, um fiscal da EMEL olha para todo o caos que é o seu ex libris (“seu” – da rua e da EMEL). Depois, foi pela rua afora, ao longo de tudo o que se vê na 2ª imagem – e eu, que por acaso ia no mesmo sentido, pude testemunhar o que ele fez.
Pergunta-se: O que foi?

* Carlos Medina Ribeiro é engenheiro electrotécnico e autor dos blogues colectivos Sorumbático e O Carmo e a Trindade.

Quando a morte nos chega por SMS

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Que dizer e como encarar a morte que nos entra pelo ecrã do telefone sob a forma de uma mensagem? Como encarar quando algumas das mais belas palavras, como um simples mas tão importante “amo-te”, significa o fim?

Acredito que a todos nós a morte já bateu à porta. Com o seu infame manto negro e a tenebrosa foice já nos veio buscar alguém que nos disse muito. Alguém mais ou menos próximo. Um familiar, um amigo. Sabemos que é inevitável, acontece com todos e um dia será a nossa vez. Mas é inevitável sentir a dor que nos invade, um sentimento de perda que nos coloca frágeis, que nos mostra quão banal é a nossa vida e quão importante ela é.

Não sei se, de facto, alguma das 228 pessoas que estavam a bordo do aparelho da Air France, que hoje não completou a viagem entre o Rio de Janeiro e Paris, conseguiu ou não enviar mensagens de telemóvel a familiares, como contou o Jornal de Notícias brasileiro. Um ex-director geral do departamento de Aviação Civil desmentiu a possibilidade, porque o envio de mensagens por telemóvel seria muito difícil. Apesar de tudo, gostava que isso tivesse acontecido. Não porque daria contornos ainda mais dramáticos a um drama cruel, mas porque teria restado um último suspiro, um derradeiro sinal de termos sido lembrados. De alguém de quem vamos ter saudades temos, nos últimos instantes, saudades nossas.

«Sem Eira nem Beira» censurada na Rádio!

Há uns meses atrás (como se o Aventar não tivesse apenas dois meses de vida!), o João Paulo deu-nos a conhecer a nova música dos Xutos, «Sem Eira nem Beira», dedicada ao «senhor engenheiro». Deu muita polémica e até o senhor comendador José Pedro veio fazer marcha atrás e dizer que, afinal, a música não era dirigida a quem parecia ser.
Pois bem, soube-se agora que as rádios portuguesas, em peso, censuraram os Xutos e a música «Sem Eira nem Beira». Afinal, pensam que isto é uma democracia ou quê?
Mas como o Aventar orgulha-se de ser um dos poucos espaços de liberdade deste pântano em que se transformou Portugal, temos todo o prazer de voltar a apresentar a música directamente enviada para o index das rádios portuguesas e que dá pelo nome de «Sem Eira nem Beira». Tal como os Xutos, dedicamo-la ao «senhor engenheiro».

MPI: Boas e más companhias

Como já disse aqui, tive a honra de ser um dos proponentes do novo MPI – Movimento pela Igualdade, e que tem como principal objectivo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Agora que o Movimento foi apresentado publicamente, e que são conhecidos os 800 nomes das pessoas que o assinaram, cumpre-me dizer que é um prazer e um orgulho estar ao lado de gente tão ilustre como Alexandre Quintanilha, Ana Luísa Amaral, Daniel Sampaio, Diana Andringa, Fernando Alvim, Inês de Meneses (a da rádio), José Saramago, Miguel Moutinho, Paulo Jorge Vieira, Rui Reininho ou Sérgio Godinho.
Ao invés, lamento estar ao lado de pessoas como Fátima Lopes, a torcionária das peles, Nuno Cardoso, o coveiro do Porto, Vital Moreira, Edite Estrela, Luís Capoulas Santos, Ana Gomes ou Jamila Madeira. Quer dizer: conseguem colocar entre os subscritores do Movimento cinco dos dez primeiros candidatos do PS às Eleições Europeias, incluindo o cabeça de lista, e têm a lata de vir dizer que isto não tem objectivos político-partidários? Razão teve o «Público» ao ilustrar a cerimónia com uma foto de um comício do PS.
Se sabia, não tinha assinado.

SNS / Saúde Privada

Esta questão é fatal como o destino.Os hospitais privados estão a enviar para os hospitais do Serviço Nacional de Saúde os doentes com patologias que requerem cuidados continuados e mais caros.
Os hospitais privados tratam os doentes até ao limite do Seguro de Saúde do doente. A partir daí o SNS que pague!
Este procedimento pode ser abordado por vários ângulos.
Antes de tudo como é que um hospital interrompe um tratamento a meio, gerando graves prejuízos para o doente sem que seja demandado juridicamente? É, óbvio, que em caso de doenças prolongadas, como o cancro, o hospital sabe à partida que o tratamento não se acomoda no limite do seguro. No mínimo, seria de não aceitar esses doentes, canalisando-os de imediato para o SNS.
Depois, é tambem incompreensível que o SNS, perante um doente titular de um seguro não se faça pagar ao abrigo da apólice.Quem não tem apólice de seguro não tem que pagar nada no SNS, como é evidente.
Para os que consideram que o SNS devia dar espaço à Saúde Privada, ficam a perceber, com esta realidade, que no mínimo, SNS/Saúde Privada são complementares, e com grandes vantagens mútuas.
A Saúde Privada alivia a pressão sobre o SNS, principalmente, em cirurgia e nas patologias agudas mas este, alívia a pressão sobre aquela, em tudo o que não dá lucro e que, pelo contrário, é um gigantesco custo social.
Quem julga que a Saúde Privada pode tomar o lugar do SNS tem aqui este exemplo ! Dirão que o Estado deveria ser “financiador” e não “prestador” de serviços .E os que acreditam no papel social insubstituivel do Estado, dirão que num país pobre e desigual, o SNS é um factor poderoso de inclusão social !
Lembro-me sempre que nos USA há 40 milhões de pessoas que não têm cobertura de saúde!

Home

No dia 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, estreia a nível mundial, o filme “Home“. A música é espectacular e as imagens ainda são melhores. Uma oportunidade para ter uma visão sobre o maravilhoso mundo natural que nos rodeia e suporta. Uma oportunidade para reflectir porque o desprezamos e destruímos.

Alguns dados fornecidos pelo filme:

– 20% da População mundial consome 80% dos recursos do planeta.
– O mundo gasta 12 vezes mais em custos militares do que na ajuda a países pouco desenvolvidos.
– 5000 pessoas morrem todos os dias por beberem água poluída. Mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável
– Em todo o mundo, 1 bilião de pessoas passa fome
– Mais de 50% dos cereais produzidos são usados para rações de animais e biocombustíveis
– 40% da terra arável está degradada
– Todos os anos, 13 milhões de hectares de floresta desaparecem
– 1 Mamífero em cada 4, 1 ave em cada 8 e 1 anfíbio em cada 3 estão ameaçados de extinção. As espécies estão a desaparecer a um ritmo 1000 vezes mais rápido do que a média natural.
– 75% dos produtos pesqueiros estão esgotados, danificados ou em vias disso
– A temperatura média do planeta dos últimos 15 anos é a mais alta desde que há registos.
– As calotas polares diminuíram 40% nos últimos 40 anos.
– Em 2050 podem haver 200 milhões de refugiados climáticos.

Novas categorias do ECD: Professor, Professor Cobarde e Professor Cobarde Incoerente

Na grandiosa manifestação de Sábado, estiveram 70 mil professores. No final de um ano lectivo esgotante, em época de exames e avaliações, em finais de Maio, sob um calor tórrido, e depois de um ano de chantagens, ameaças e perseguições, aqueles 70 mil significaram mais, muito mais, do que os 120 mil de Novembro.
O Paulo Guinote, na «Educação do Meu Umbigo», dá bem nota de como até o «Diário de Notícias» ajoelha perante tais números.
Todos os professores estão de parabéns. Todos? Bem, todos não. Estão de parabéns todos aqueles que, tendo ido ou não a mais esta manifestação, resistiram a tudo e, nas suas escolas, ao longo do ano lectivo, recusaram participar na palhaçada que é este modelo de avaliação e recusaram-se, por conseguinte, a entregar os Objectivos Individuais.
Pelo que se diz por aí, foram cerca de 60 mil os que não entregaram os Objectivos Individuais. Mas na manifestação estiveram 70 mil. Ou seja, haverá pelo menos uns 10 mil professores que, obedientemente, entregaram os seus Objectivos Individuais e, depois disso, decidiram ir à manifestação. Pelo meio da multidão, haveria mesmo aqueles que pediram a avaliação na componente científico-pedagógica para chegar ao Muito Bom. Sinceramente, não sei o que estiveram ali a fazer.
É por isso que proponho três novas categorias no Estatuto da Carreira Docente, em vez das duas – Professor e Professor Titular – que este Ministério impôs. Proponho que sejam criadas as categorias de Professor, Professor Cobarde e Professor Cobarde Incoerente. Professor é aquele que, fiel aos seus princípios, se recusou a embarcar neste modelo e, por conseguinte, nada fez nem entregou relativamente ao processo de avaliação. Professor Cobarde é aquele que, atemorizado pelas ameaças do Governo e pelas lamentáveis pressões dos seus Órgãos de Gestão e até de algumas Câmaras Municipais lacaias do Governo, baqueou e entregou os seus Objectivos Individuais. Professor Cobarde Incoerente é aquele que, não contente pelo facto de ter entregue os Objectivos Individuais e, nalguns casos, ter pedido a avaliação na componente científico-pedagógica, fez greve na terça-feira e foi à manifestação de Sábado.
De fora destas minhas congeminações ficam os professores que nunca fizeram greve, nem foram às manifestações, e que concordam com o modelo de avaliação proposto e com a política geral deste Ministério da Educação. Esses, pelo menos, são coerentes.

Casamento gay, não!

Aqui no Aventar, cada qual pensa pela sua cabeça. Não há compromissos a não ser com a verdade, com o respeito e com a consciência de cada um. É por isso que não devem estranhar haver postes sobre o mesmo assunto com opiniões completamente opostas. É o caso do “Casamento de pessoas do mesmo sexo”! Já estive naquela de “pois sim, casem à vontade e divorciem-se tambem à vontade que é o que costuma acontecer a quem casa”.
Mas houve quem me chamasse a atenção para valores fundamentais. O casamento – diz a Lei que é entre duas pessoas de sexos diferentes – é a célula principal da sociedade tal qual a conhecemos. Não devemos deitar fora um valor social com essa importância sem razões substantivas. E não há razões suficientemente fortes. Em primeiro porque já foram reconhecidas aos gays “as uniões de facto” com todo um quadro legislativo que lhes reconhece a dignidade enquanto pessoas e prevê o tratamento adequado à propriedade! Em segundo, porque o casamento, ao prever que seja entre duas pessoas de sexo diferente, não impede o casamento de gays! Estamos todos em pé de igualdade!
O casamento deve ser protegido para que a procriação aconteça num quadro inequívoco e único. Há pessoas de sexos diferentes que procriam fora do casamento mas isso é um direito que não exclui ninguém. Depende da vontade dos próprios.
Por último, é falacioso comparar este combate ao que foi travado pelos negros para lhes serem reconhecidos os direitos humanos. É romântico, mas tambem estultícia, porque os negros não casam por ser negros, mas sim por serem homens que casam com mulheres!São argumentos que é preciso levar em conta, há muita gente que pensa assim.
E, já agora, deixo uma pergunta.E se os heterossexuais, perante a legalidade do casamento gay avançarem para a exigência de um ” casamento procriador”, os homossexuais vão ficar em desigualdade de direitos?
Estas questões sociais, jurídicas e constituicionais são relevantes!