Um novo aventador

Nasceu em 1969. Licenciado e Doutorado em Sociologia, é professor associado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Participou na fundação do Observatório das Actividades Culturais e desempenhou funções como programador do Porto/Capital da Cultura 2001. Eleito Deputado à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, na IX e na X Legislaturas. A nível autárquico, tem sido o candadidato do Bloco à Presidência da Câmara Municipal do Porto e voltará a sê-lo nas próximas Autárquicas. É autor de uma importante obra na área da cultura e da sociedade, sobretudo relacionada com a cidade do Porto.
Senhoras e senhores, apresento-vos João Teixeira Lopes, o novo autor do Aventar.

DN – 1,3 mil milhões de mentiras

Em manchete, o DN de ontem anuncia que a não construção do TGV implicava a devolução a Bruxelas de 1,3 mil milhões de euros !
Como já muita gente veio dizer é uma notícia falsa. Os apoios comunitários são concedidos em pacotes que se desdobram em projectos. O dinheiro que não se aplicar num projecto pode aplicar-se noutro projecto, já existente ou a criar.
Mas o que levará um jornal a dar uma notícia destas, quando milhares de pessoas lhe poderiam explicar como funcionam as coisas?
Se examinarmos a data da notícia, logo nos chama a atenção que o TGV era o projecto que estaria em cima da mesa na Comissão de Obras Públicas na Assembleia da República, onde o Ministro Lino se apresentaria nessa mesma tarde.
Não é pois, por falta de informação que este jornalismo se pratica. É por ser mau jornalismo, por dar voz a interesses instalados e poderosos que estão à espera de abocanhar o seu pedaço. Mesmo que isso seja muito mau para o país.
As notícias que hoje nos chegam, do Primeiro Ministro, do Ministro das Obras Públicas e do próprio Presidente da República, que atiram a discussão e as decisões para depois das eleições, mostram bem que o jornal quiz influenciar o que aí vinha.
É assim que funciona a promiscuidade entre o “jornalismo de sarjeta” e os grupos poderosos que nos controlam, e nos empobrecem. Não há fontes, não há cruzamento de informações, não se ouvem as várias partes interessadas.
Dá-se a notícia e depois espera-se que a Justiça à verdade diga nada!
Depois queixam-se que os jornais vão perdendo leitores.

Ruy – Ainda a propósito da crise e do G 8*

Esta crise é a primeira e mais profunda crise do imperialismo, do capitalismo na sua fase superior, dos oligopólios, das oligarquias financeiras mundiais, da globalização, do neoliberalismo.
São de uma natureza diferente e nova, as causas da actual crise económica e financeira. Nunca como agora exorbitantes somas de capital são retiradas do reinvestimento para ingressarem na especulação financeira – as trocas especulativas diárias são da ordem de 1,5 triliões de dólares por dia, enquanto as trocas de bens e serviços realmente existentes mal atingem os 25 biliões, algo como 60 vezes menos. Este, um dado novo, que condiciona o desenvolvimento económico capitalista como nunca antes se tinha presenciado. Ao desviar-se o capital do investimento para a especulação, decresce o investimento produtivo e com ele aumenta o desemprego e decresce o crescimento económico. Foi a especulação financeira global a responsável pela actual crise. E não é crível que passados os tempos desta fase critica, com a “retoma”, a especulação financeira tenda a regredir. Pelo contrário, ela ressurgirá e seguramente com mais pujança ainda, arrastando os países para um menor e mais acelerado crescimento económico, maiores taxas de desemprego e maiores desigualdades sociais.
É em torno da Bolsa e dos operadores financeiros, internacionalizados como se encontram, que reside a grande especulação financeira mundial. Todos parecem sentir alívio com a subida dos índices bolsistas a que assistimos nestes últimos dias. Todos pretendem regressar e depressa a um mundo financeiro em tudo igual ao que precedeu a crise. Não compreendem ou não querem compreender que desse modo estão a cavar os alicerces de uma inevitável, mais rápida e profunda crise futura.

* Ruy é leitor do Aventar e autor do blogue Classe Política

TGV e novo aeroporto ficam à espera de outro Governo

Os primeiros sinais surgiram, embora algo tímidos, nos dias seguintes às eleições europeias. Foram-se acentuado nos dias seguintes e eis que, uma semana depois, recebemos a confirmação. As grandes obras nacionais seguem o seu curso mas devagarinho. Tão devagarinho que caberá ao próximo Governo decidir. Este vai dar continuidade aos processos mas sem chegar a vias de facto.

Cavaco Silva, depois de um primeiro sinal, também ele tímido, sem medo mas com reticências, transmitiu hoje outro sinal, mais sólidos, sem receios.

O adiamento da decisão final sobre o TGV para depois das eleições seria "um caminho de bom senso", aventou hoje o Chefe de Estado. Embora garanta não ter toda a informação, o que se pode entender como não tendo a palavra final de José Sócrates, o há-vontade com que hoje se pronunciou indica que já lhe sopraram que assim será.

Se o diploma lhe for enviado, afirma, tomará a sua decisão "de acordo com os interesses do país". Não será necessário. Nenhuma decisão sobre esta matéria vai aterrar na sua mesa de trabalho. Nem o TGV nem o novo aeroporto de Lisboa. Ninguém entenderia que, a poucos meses das eleições, e depois de uma derrota eleitoral, o Governo decidisse adjudicar projectos desta envergadura.

É sabido que o Verão, em concreto Julho e Agosto, momento de férias para a esmagadora maioria dos portugueses, são utilizados pelos executivos políticos, centrais e locais, para aprovar projectos menos populares ou deliberar sobre matérias para as quais não pretendem muita atenção. No entanto, os processos do TGV e do novo aeroporto não estarão neste lote de deliberações. O risco de um elevado custo eleitoral é demasiado grande para jogadas de antecipação.

O campo do Ramaldense

Ramalde é uma freguesia do Porto com profundas desigualdades sociais. De um lado, a zona do Pinheiro Manso, do Foco ou da Urbanização do Lago. Mesmo ao lado, o bairro das Campinas, Francos ou o Viso. Quem vai, por exemplo, ao Café Porto Alegre, a meio da Avenida Antunes Guimarães, depara-se com dois mundos: o dos senhores «chiques» das vivendas da avenida e as gentes pobres dos bairros dali da beira.
O mítico campo de futebol do Ramaldense fica entre estas duas realidades. Desde pequenino, lembro-me de ir para lá ver os jogos de futebol e os de hóquei em campo. Ia mais ao Estádio da INATEL, junto ao Bairro da Previdência, onde vivi até aos 24 anos, mas muita da minha mocidade passei-a no Ramaldense.
Pois agora parece que o campo vai ser encerrado definitivamente, após a sentença do Tribunal Constitucional, a última instância a que o Ramaldense podia recorrer. Os proprietários do espaço decidiram denunciar o contrato, após 65 anos de utilização por parte do clube, provavelmente para vender o terreno a algum especulador imobiliário.
A renda estava em dia, mas nem isso demoveu o senhorio. Não lhe interessa que mais de 100 crianças percam um espaço de prática desportiva. Não lhe interessa que desapareça a escolinha gratuita de futebol que movimentava quase 50 crianças dos 5 aos 9 anos. Não lhe interessa que 80 atletas seniores, juniores, juvenis e femininos deixem de poder praticar a modalidade. Não lhe interessa os 200 jogos que ali vão deixar de ser realizados anualmente.
Claro que não interessa. A renda era irrisória e o dinheiro, como sempre, fala mais alto. Aposto que daqui a uns anos, onde está o campo de Ramaldense, estará uma urbanização de luxo, iguais às do Lago. Quanto às crianças que deixam de poder praticar desporto, não há que temer. A sua vida seguirá outro rumo. Droga e outros vícios é coisa que não falta por ali…
Depois disto, é impossível deixar de dar alguma razão ao Filipe Moura.

O TGV é uma fraude ! Serve a quem?

O governo socialista já veio admitir publicamente que o TGV não vai avançar antes das eleições de Outubro. Mais uma vez o povo travou as derivas absolutistas de um governo que não merece a nossa confiança.
Há um coro de vozes de gente sabedora e independente contra os megaprojectos de que este governo tanto gosta.
A viabilidade económica não é possível, o país não tem extensão territorial nem população suficiente para viabilizar o TGV!
O TGV custaria 8 mil milhões de euros ( mais os 40% habituais de derrapagem) para alcançar uma velocidade de 250 Kms/hora. Nos últimos dez anos investiram-se 1,5 mil milhões de euros com os pendulares que alcançam uma velocidade de 220 Kms/hora!
O governo, seguindo a sua propaganda mentirosa, vem dizendo que a velocidade atingiria os 350 Kms/hora. Sabe-se agora que em todo o mundo só há uma rede onde essa velocidade é atingida. Entre Tóquio e Shangai que distam 1 600 Kms em planícies praticamente desertas!
Como sempre, presos ao rídiculo, vamos ter um TGV de 350 Kms/hora que uma hora depois do arranque já saiu do território….
É preciso as pessoas perceberem o que está em jogo. Todo este dinheiro será pedido ao exterior, a taxas cada vez mais altas , numa economia estagnada e que não vai crescer por muitos anos. Nos próximos 30 anos as gerações seguintes vão empobrecer com esta dívida gigantesca!
Agora o argumento é que toda a UE tem TGV. Pois tem! Mas tambem tem governos responsáveis, economias crescentes, dívidas controladas, o povo a viver bem, enfim países ricos!
É preciso dizer não ao TGV, à terceira Ponte, às autoestradas em duplicado! Nós já somos o país com mais autoestradas por habitante, se isso fosse determinante, seríamos um país rico.E não somos! Somos um país pobre!

Talvez a troco de um chupa-chupa

A companhia aérea britânica, British Airways, enviou hoje um e-mail a mais de 30 mil empregados, a solicitar que trabalhem voluntariamente entre uma semana a um mês sem renumeração.

O maior erro !

Há trinta e tal anos começou a construção de habitação nos suburbios das cidades.
O maior erro, na opinião do Bastonário da Ordem dos Engenheiros. Esse investimento devia ter sido canalizado para os centros históricos urbanos, fixando aí as pessoas, poupando-as ao trânsito, ao tempo perdido na entrada das cidades.
Hoje ninguem tem dúvidas que a sustentabilidade dos países passa pela dinâmica das cidades, tornando-as atractivas para a habitação, arrastando as actividades económicas.
Há mais de 800 000 fogos para reabilitar o que dá trabalho às empresas para cerca de 10 anos. E é emprego imediato, em empresas nacionais, activando as PMEs que contribuem com cerca de 70% do emprego.
Há já bons exemplos de sucesso, como Évora, que tem vindo a desenvolver um trabalho meritório neste campo. A qualidade de vida em Évora é já reconhecida, cerca de 80% das pessoas inquiridas se mudassem de terra para viver, escolheriam esta cidade.
Este trabalho teria um impacto imediato na saída da crise . Mas este governo e o seu chefe, preferem a aventura dos grandes projectos que, a fazerem-se, irão lançar o pais na pobreza.
Temos o dever de fazer ouvir a nossa voz contra a megalomania deste governo, a pressa que não se percebe mas que se adivinha.
Já hoje ninguem tem dúvidas que seremos o país que mais dificilmente sairá da crise e em pior estado, com uma dívida externa colossal, uma economia estagnada.
É tempo de dizer basta ! As últimas eleições já foram um grito de alerta, espera-se a bem de Portugal e dos Portugueses que esse grito se faça ouvir com mais força nas próximas eleições legislativas e nas autarquicas!

FCP – os negócios à Dragão

Cissokho, uma força da natureza. Alto, 22 anos, com um poder muscular fora do comum, forte pontapé, uma velocidade de sprinter e uma resistência de fundista!
Bastava vê-lo jogar uma só vez para perceber que com umas lições estava ali um jogador fabuloso.
Vi-o em Alvalade e parecia que tinha uma mota nas pernas, tal era a diferença de velocidade.
Por uma verba modesta, a rondar os trezentos mil euros, mudou-se para o FCP. Para as mãos de quem sabe. Meteu o “Cebola” mais para dentro e deixou aquele espaço todo pela esquerda e por fora para o atleta dar largas à sua força.
Outro, medroso, tê-lo-ía aprisionado à defesa, não sais daqui, não passas o meio campo. Em três tempos tinha tirado o potencial galopante ao diamante. Mas não, deu-lhe vida e tactica, depois foi como “fio de azeite”. Paciência, respeito, gozo pelo que se faz.
Apareceu-lhe o Manchester pela frente, e depois? O melhor em campo.Correu o tempo todo como na sua praia favorita.
Agora, por quinze milhões, vai para o Inter substituir Maldini!
Um negócio feito com mérito, com risco num mercado global e competitivo.
Quem não gosta de ver ganhar dinheiro assim?

Carlos Fonseca – A superioridade do povo madeirense e do seu líder

A barriguita é que está um nadinha avançada para a Paris Hilton; daí a entrada do Cristiano Ronaldo no jogo.

A barriguita é que está um nadinha avançada para a Paris Hilton; daí a entrada do Cristiano Ronaldo no jogo.

Irão / Iran

Para acompanhar todos os desenvolvimentos, entre outros blogues, ESTE.
Por estar a fazer um trabalho muito bom (ver ESTE post).

Depois, temos o Twitter e aqui podem acompanhar, entre muitos outros, estes:

http://twitter.com/persiankiwi

http://twitter.com/StopAhmadi

http://twitter.com/amiralii

http://twitter.com/alirezasha

http://twitter.com/Bahram81

http://twitter.com/StopTheDictator

(lista em actualização).

Galp – Negócio socialista

Américo Amorim e os seus sócios Angolanos receberam, em quatro anos, 330 milhões de euros de dividendos e a sua posição na empresa vale mais mil milhões do que o preço de compra.
O preço dos combustíveis ao público é o tal que não pode descer e é mais alto que o da vizinha Espanha.
E tambem é o tal que cresce quando o preço do petróleo sobe e não desce quando o preço do petróleo cai!
E é o tal que não está em Cartel apesar de o preço em todas as distribuidoras ser o mesmo.
Enfim, uma empresa protegida pelo Estado, dinheiro privado e um mercado que não existe!
Não há, em país capitalista algum, um negócio como este .Sem risco, em cartel, com monopólio na fase da refinação, com uma maioria no mercado que roça os 60%.
O brilhante mundo do governo socialista!

A Marcha do Orgulho LGBT e as famílias hetero


Realiza-se já no próximo Sábado, 20 de Junho, mais uma Marcha do Orgulho LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgéneros. No dia 11 de Julho, irá repetir-se, mas no Porto.
Pela primeira vez desde que existe a Marcha, tenho uma filha. E foi então que me ocorreu a seguinte pergunta: devem as famílias heterossexuais participar no evento e levar os seus filhos?
A resposta, como é óbvio, tem de ser positiva. Por várias razões: em primeiro lugar, de forma mais geral, por uma questão de solidariedade para todos aqueles que se vêem na necessidade de mostrar que são iguais aos outros e que reivindicam essa mesma igualdade na lei. De forma mais específica, penso que a formação de uma criança deve incluir o contacto com pessoas que pensam de forma diferente daquelas que normalmente a rodeiam. «Abrir os olhos» para outras realidades, aprender desde cedo a conviver com as diferenças, saber que gostar de pessoas do mesmo sexo é a coisa mais natural do mundo. Ganhar instrumentos para pensar com a própria cabeça quando for grande e ser a favor, se isso corresponder à sua consciência, do casamento gay» ou da adopção de crianças por casais do mesmo sexo.
Não é por isso, descansem os críticos, que ela será mais ou menos heterossexual. Aliás, devo dizer que tanto me faz que a minha filha seja hetero, lésbica ou bissexual. Para mim, é igual ao litro, desde que conviva bem com a sua sexualidade e com a sociedade que a rodeia. Mesmo travesti, se for uma actividade que lhe dá prazer, por que não? (transgénero é que não gostava, porque aí já se colocam outros problemas, relacionados com o próprio corpo e com o conforto ou desconforto que se sente em determinado papel que a sociedade nos atribui).
Regressando ao tema, encaro a Marcha do Orgulho LGBT da mesma forma que encaro, por exemplo, o Dia Mundial da Mulher. Não devia ser necessário e não devia fazer sentido numa sociedade que se pretende igualitária. Mas se não há outra forma de se chamar a atenção para a necessidade de impor uma verdadeira e efectiva igualdade, então que se organize tudo o que for preciso.
E se para a igualdade de uma sociedade somos todos necessários, heteros e gays, então devemos dizer todos presente. Nas Marchas, nos Manifestos, nos Abaixo-Assinados, nos Referendos se os houver (embora não devesse ser necessário, porque direitos individuais não se referendam).

P. S. – Foi o Paulo Jorge Vieira que me chamou a atenção, há uns dias, para a Marcha do dia 20, antes ainda do Carlos Loures publicar, ontem, um texto com uma opinião diametralmente diferente da minha. Felizmente, no Aventar, convivemos bem com as diferenças. Temos social-democratas, socialistas, bloquistas e comunistas; temos portistas e benfiquistas; temos católicos e ateus; temos moderados e radicais; temos muita gente e até o Adalberto. É isso que faz a riqueza deste blogue.

1000 «posts»

Ultrapassámos ontem, em apenas dois meses e meio de vida, os 1000 «posts» publicados. Isto dá uma média, contas feitas por alto, de uns 13 «posts» por dia e de 40 «posts» por «blogger». Apenas uma média, claro, porque tanto temos autores com mais de 200 publicados (grande Luís Moreira!) como outros que ainda não se estrearam. E até tivemos um, Bernardino Guimarães, que entrou e saiu sem «molhar a sopa».
Seja como for, 1000 «posts», penso eu, é obra! Por que será que vinte rapazes e raparigas têm assim tanto para dizer em tão pouco tempo?

Falando de democracia: Em defesa dos palhaços

No ano passado, o jornalista Daniel Oliveira, do Expresso, foi condenado a pagar uma indemnização a Alberto João Jardim por difamação. Em 10 de Junho de 2005, o colunista designava num artigo daquele semanário o presidente do Governo Regional da Madeira por «palhaço rico». Dizia em determinado passo do texto: «Alberto João Jardim é um palhaço. Envergonha, de cada vez que abre a boca, a nossa democracia. Não é politicamente incorrecto. É apenas um palhaço que manda numa ilha com mais de duzentas mil pessoas.» (…) «É um palhaço perigoso».
*
Porto Santo é o meu local de férias. Desde há quinze anos que ali passo uns dias no Verão. Durante este período, fiz também viagens à Madeira. Tenho, por isso, podido apreciar a evolução do arquipélago. Neste aspecto, não concordo com Daniel Oliveira – a Madeira não tem estradas a mais, equipamentos a mais, empregos a mais – é agradável verificar que no Porto Santo não há desemprego, não se vê mendicidade e as chagas da droga e da prostituição, pelo menos, não são visíveis. A Madeira não tem nada a mais, como diria o poeta cubano Nicolás Guillén – tiene lo que tenía que tener. Jardim apresenta obra feita, coisa de que nem todos os autarcas se podem gabar. A corrupção, o tráfico de influências, o nepotismo, existirão, mas não de forma tão gritante como em alguns concelhos do continente – embora haja a considerar que Jardim tem a comunicação social local domesticada.
O que se contesta não é o que Jardim fez, mas a maneira como fez e continua a fazer – o estilo arruaceiro com que ataca adversários, com que insulta os continentais que, afinal, contribuem com os seus impostos para que os Madeirenses tenham benefícios de que os insultados, em muitos, casos não usufruem; a permanente chantagem com a ameaça da independência. Mas, apesar desde espectáculo degradante, não é um palhaço – é apenas um mau português que, talvez, se encontrasse outro Estado que lhe pagasse as despesas, abdicaria da nacionalidade. Não encontra e prossegue com diatribes e ameaças que produzem efeito, pois a nossa classe política é como é. Um exemplo: é estranho que quando Jaime Gama, em 1992, lhe chamou «Bokassa Branco», comparando-o ao tirano da República Central Africana, Jean-Bédel Bokassa, Jardim não o tenha processado. É verdade que, passados dezasseis anos, o agora presidente da Assembleia da República, mudou de opinião e se referiu ao presidente da Região Autónoma e à sua obra nos termos mais encomiásticos. Isto sem que Jardim tenha modificado a sua maneira de estar na política, moderado a prepotência e a verborreia ordinária.

A verdade é que o tão falado «défice democrático» não começa nem acaba na Madeira. De Eanes a Cavaco Silva, passando por Guterres e por Sampaio – tudo gente que «oportunamente» o senhor Jardim insultou, a pretexto das boas relações «institucionais» entre órgãos de soberania, sempre que vão ao arquipélago, não deixam de ir cumprimentar o senhor Jardim que, borrifando-se para as tais relações, se reserva o direito de os ir ou não receber. Esta classe política merece o senhor Jardim. O povo português, particularmente o madeirense, é que não.
Quem é então este homem que provoca uma agitação que não é explicada senão pela incontinência verbal, por um sinuoso oportunismo e pela pacovice dos nossos media que servem de caixa de ressonância aos seus dislates. Dispenso-me de lhe referir a biografia. Dela, o único aspecto assinalável é o de que, quando se deu o 25 de Abril, Jardim tinha 31 anos, não sendo, portanto uma criança. Mas nunca ninguém ouvira falar dele. O gosto pela democracia, só lhe veio quando ela deixou de fazer doer, quando qualquer idiota ou qualquer ébrio passaram a poder dizer, impunemente, tudo o que lhes passar pelas cabeças. A coragem truculenta que agora manifesta a desafiar os poderes da República, teria sido bonito que a tivesse posto ao serviço da luta pelas liberdades democráticas antes de 1974 – mas não, isso «era perigoso»! Esteve na Câmara Corporativa, parece que andou pelas instâncias dirigentes da Mocidade Portuguesa, mas nunca militou em qualquer movimento democrático, por mais conservador que fosse. A «córagem» (como ele diz) só lhe chegou quando a liberdade, conquistada por «cubanos», «bastardos» e «f.d.p.», lho permitiu. Na minha modesta opinião, quem tem feito a celebridade da personagem são os jornalistas – fala-se demasiado de uma pessoa que não tem importância específica. Tem a importância que amigos e, sobretudo, adversários, lhe conferem. De certo modo, assumiu a espessura e a dimensão de um mito. Põem-no com insistência a opinar sobre os mais diversos temas – estava na Madeira quando, em Agosto de 1991, se deu o golpe de Estado contra Gorbatchov que desencadeou o desmantelamento da União Soviética que viria a consumar-se em Dezembro, logo apareceu a criatura a debitar sobre a transcendência do acontecimento, com o ar ridículo que compõe sempre que quer parecer um político convencional.
Porque é que, na minha opinião, o senhor Jardim não é um palhaço? Vou tentar explicar o que é, quanto a mim, um palhaço. O britânico Charlie Chaplin (1889-1977) foi talvez o mais colossal dos palhaços. Homem de grande cultura e inteligência, um dos maiores génios criativos do século XX – clown e actor por antonomásia, excepcional realizador, talentoso compositor musical; Oleg Popov (1930), o palhaço russo que foi considerado o «maior do mundo»; Charles Rivel (1896-1983), o inesquecível clown catalão – quem, tendo-o visto, poderá esquecer o seu épico conflito com uma simples cadeira; os Anhucas e Augustos portugueses, que deliciaram gerações de crianças e não só, no Coliseu dos Recreios, no Coliseu do Porto e por outros chapitôs do País… Estes, e muitos outros, são para mim os palhaços. Adoro os palhaços, pois só um artista com um grande coração e com uma grande sensibilidade escolhe uma tão difícil carreira. Como pôde Daniel Oliveira comparar gente tão excelente a uma criatura que só não envergonha a classe política, porque vergonha é coisa que tal classe não tem (salvo honrosas excepções)? Bem sei que o jornalista especificou que falava de um «palhaço rico» e os grandes palhaços são quase sempre palhaços pobres.
Mesmo assim, acho que os palhaços, os pobres e os ricos, deviam ter processado Daniel Oliveira por terem sido comparados a Jardim ou, pelo menos, como são gente bondosa, deviam ter exigido um pedido de desculpa.

Alberte Momán – Trazo*

trazo
cun forte movemento dos brazos
do corpo todo
as figuras que me dita o tempo
en pequenos suicidios
da ética inoportuna
en favor da política correcta
inherente á madurez

visito os lugares doutro tempo
falo
coa gravidade propia da razón absoluta
e fico prendido ao asento
seguro de ser observado
polo fío da última cervexa

non son horas xa
a máquina de amasar
fixo o seu traballo
e os doces fican na bandexa
agardando a chegada dos máis novos
como esgrime a prudencia

* Alberte Momán é um poeta galego e autor do blogue Moman