Socialismo-capitalismo

Caro amigo Luís Moreira, sinceramente, acredito no que diz. E isto não passa de uma conversa de amigos. Eu também já lhe disse que não pertenço a qualquer partido e ninguém me faz a cabeça, a não ser que consiga convencer-me de verdade. Apesar de não perfilhar nenhuma doutrina específica, mais ou menos radical, acredito convictamente na superioridade das doutrinas socialistas em relação às doutrinas capitalistas. E, pessoalmente, não tenho a mais pequena dúvida disso, em termos globais. Isto é uma coisa, outra coisa é pô-las em prática, sobretudo dentro de um regime capitalista mais que cristalizado. O socialismo, mais do que imperfeito, tem coisas muito boas e justas, mas também tem coisas más. No entanto, a estrutura natural da doutrina socialista tende inegavelmente a que, eventualmente, teoricamente e até um tanto utopicamente, essas coisas más possam desaparecer ou, pelo menos, reduzir-se ao ponto de poderem ser controladas com o tempo. O socialismo tem uma potencialidade incalculável de futuro. O capitalismo, a meu ver, não tem coisas boas do ponto de vista do horizonte social e do ponto de vista do futuro da humanidade, quando muito poderá ter coisas aceitáveis e toleráveis, e aquilo que alguém possa apontar como bom não é mais do que a decorrência de um mero equilíbrio essencial à sua sobrevivência e reprodução. O socialismo, e isto para quem queira pensar um pouco, ainda que muito imperfeito, volto a dizer, tem na frente dos olhos a humanidade. O capitalismo tem na frente dos olhos o individualismo, a posse, a criação de riqueza ainda que seja obrigado a fazer algumas cedências à humanidade. É a sua estrutura natural e genética, senão não teria esse nome. Por isso, o capitalismo nunca será uma força potencialmente credível para o equilíbrio da humanidade. É praticamente impossível. São forças de sinal contrário. Repelem-se, por mais voltas que a gente dê ao pensamento. A humanidade existe, há que aproveitá-la, há que explorá-la. São concepções filosóficas inteiramente distintas. A filosofia do bem colectivo como meta do equilíbrio, e a filosofia da meta do bem pessoal que pode até coincidir com algum equilíbrio colectivo.
Diz o amigo Luís Moreira que não viveria numa sociedade dita comunista. Acredite que também não sou ingénuo ao ponto de me deixar comer facilmente. Eu percorri, há mais de vinte anos, a União soviética de lés a lés, de norte a sul e de este a oeste desde a Sibéria ao Uzbequistão. Vi coisas fantásticas que gostava que existissem cá, vi outras que, do meu ponto de vista, corrigiria. Pondo de lado tanta coisa que nos escapa, pondo de lado os erros, os males e os crimes que não são do socialismo, mas dos homens iguaizinhos aos de cá, aos do capitalismo, sem tirar nem por, eu quero dizer-lhe que, em princípio, não me importaria de viver e que a minha família vivesse em qualquer dos fantásticos lugares por onde passei e nas condições sociais que vi. E não me venham dizer que vi o que quiseram que eu visse. A pé, de autocarro, de metro, de comboio, de barco, de avião (17 viagens dentro da União Soviética), sem que sentisse ninguém atrás de mim, vi o que os olhos e o pensamento me permitiram. Vi o suficiente para não dizer, como o amigo Luís Moreira, que, mesmo respeitando o PCP, fugiria se ele fosse governo. Pois eu não. Só de uma coisa eu teria medo, das consequências que adviriam do facto de ele ser governo, isto é, das consequências de o não deixarem governar. Não tenho a mais pequena dúvida de que a falta de democracia não estaria no PCP mas em todos os “democratas” que o não deixariam governar, ainda que ele tivesse ganho por 70%.

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