Ainda o esquecimento

Continuação daqui

Sem as bases históricas correctas e uma extensa pesquisa (seria preciso regressar a tempos até anteriores à 1.ª Guerra Mundial), é difícil perceber como uma única pessoa, um artista frustrado, conseguiu montar um esquema maléfico, de tal modo aliciante ao ponto de levar consigo milhões de seguidores numa rota de colisão com a própria Humanidade, deixando uma marca tão profunda e duradoura no Mundo Moderno, atingindo proporções à escala planetária e que ainda hoje é sentida. Tudo parece sempre centrado numa única pessoa, Hitler, que juntamente com um punhado maléfico de controladores, conseguiu fazer uma lavagem cerebral a uma nação inteira com único objectivo de aniquilar judeus.

Na realidade, ao longo dos tempos, uma visão “holywoodesca” da situação, contribui com uma perspectiva muito redutora, extremamente centrada no conflito armado (talvez até em demasia e ainda assim não totalmente reveladora), deixando quase sempre de parte o enfoque sobre os pilares que sustentaram uma ideologia que teve tanto de perverso como de eficaz.

Não resisto a deixar mais alguns excertos do prefácio de “A Deportação”. Faço-o por várias razões. Tão ou mais importante que o conflito militar e as batalhas, os horrores da guerra e o sangue derramado, é também tudo o que lhe serviu de base, o sofrimento civil e os pilares que permitiram que uma mentalidade tão deturpada pudesse nascer e fortalecer-se ao ponto de ter, obrigatoriamente, que se expandir para fora do seu próprio território e acima de tudo, de ter poder para o fazer. Também, porque noto as incríveis semelhanças, ainda que para já mais ténues, entre tempos tão distantes como os que precederam a  2.ª Guerra Mundial e os de hoje em dia, nomeadamente depressão económica, aproveitamento político duma situação social instável, desemprego crescente e propaganda. Costuma-se dizer que a História se repete. Fico na dúvida se serão apenas reminiscências de um passado que já se tornou longínquo ou raízes de um qualquer futuro próximo.

Excertos de “A Deportação”, 1970

“A origem de todo este mal encontra-se em Hitler. Mas Hitler não estava só. A derrota tinha momentaneamente desarmado os Senhores da Guerra sem ter reduzido as suas ambições nem despertado os seus escrúpulos. Impacientes e vigilantes, eles aguardavam. Por Senhores da Guerra não devemos apenas entender o alto comando mortificado, mas também aqueles que vivem da guerra e da preparação para ela, o grande capital e a grande indústria, o “Herren Klub” de Hugenberg, os Krupp, os Thyssen e os outros.”

(…)

“Sem poder sobre o povo, tinham de agir por interposta pessoa. Um aventureiro demagogo começava então a fazer-se ouvir. Disfarçada com umas pinceladas de “socialismo” e o pretexto de servir os interesses e a honra da raça germânica, a doutrina que ele pregava era a mesma deles. Mas deram-lhe ouvidos. Tinha a audiência que lhes faltava. Eles tinham o dinheiro que fazia falta a Hitler. Ao apoiarem a sua empresa, pensavam que esse agitador se tornaria um instrumento dócil nas suas mãos. O “socialismo”, para ele, mais não era do que uma palavra de apresentação de que nem ele nem os outros faziam o menor caso. Não foi inteiramente assim que as coisas se passaram. Guindado ao Poder pelo seu ascendente popular e pelos Senhores da Guerra, Hitler instalou-se nele. Mas que importava, se eles tinham tudo a ganhar com isso? Já tinham fornecido os estandartes e as botas envernizadas; passaram a fornecer também as armas e depois os tanques e os aviões. Era Hitler que reinava, mas quem prosperava eram eles. O mais seguro poder é o que permanece invisível: Hitler caiu e eles sobreviveram.”

(…)

“Em 1929, escrevia Hitler no Angriff, de Goebbels: “Quando a propaganda impregnou de uma ideia um povo inteiro, bastará um punhado de homens para a organização poder extrair disso as consequências desejadas”. Quatro anos mais tarde, ao ser chamado ao Poder pelo velho marechal Hinderburg, ele não tardou a mostrar a que é que chamava “um povo inteiro” e o que é que entendia por “uma ideia”: um povo inteiro subjugado à mais feroz das tiranias em nome de uma ideia que não passava de uma impostura estúpida e sedutora. O pangermanismo sempre fez receita. A propaganda tinha cumprido bem a sua tarefa. Não era já de um punhado de homens que o Führer dispunha, mas de centenas de milhares ébrios de orgulho, carregados de ódio, mentalmente fanatizados pelo mito da superioridade da “Raça dos Senhores”, e aos quais tudo era prometido, tal como tudo era permitido. Todos os que vegetavam, todos os que a inveja roía, todos os que se viam num desemprego sem esperança, todos os que não comiam o suficiente, e também todos os cobardes que preferiam matar a sujeitar-se a morrer, toda essa gente sem distinção, infelizes misturados com a escória, era convidada para a grande carniça. Os jovens sentiam-se objecto dos seus particulares cuidados. Ele definia-os assim: “Uma juventude fortemente activa, dominadora, brutal, eis o que desejo. Quero ver no seu olhar aquela centelha de orgulho e de independência que transparece nos olhos dos animais selvagens. Não quero nenhum adestramento intelectual. Para os meus jovens, o conhecimento constitui uma ruína.”

(…)

“A solidariedade era uma das formas da Resistência [nos campos de concentração]. Até aos últimos meses da guerra era praticamente impossível preparar uma verdadeira revolta armada. Não só o estado de esgotamento físico e moral dos deportados não permitia que se encarasse a hipóteses de um levantamento, mas também a delação que grassava, praticada abundantemente por todos os indivíduos duvidosos de que falei, misturados na multidão dos outros, tornava difícil a menor combinação. Tanto mais que certos detidos, que não eram dos tais cadastrados duvidosos, mas que eram fracos de espírito, se submetiam à “lei” dos campos em vez de lhe oporem uma recusa total; acreditavam esses que, ao denunciar o “delinquente” ou o suspeito, realizavam uma espécie de acto cívico, que, de resto, logo era recompensado com uma ração melhorada ou uma isenção do serviço de faxina.”

(…)

“Apesar da quase impossibilidade de se estabelecer qualquer combinação, de se organizar, de encontrar armas, 1944 e 1945 assistiram, no entanto, a verdadeiras revoltas, as primeiras das quais foram, que eu saiba, as dos campos judeus de Treblinka, em Agosto de 1943, de Sobibor, em Outubro de 1943, do Sonderkommando de Auschwitz, em Outubro de 1944, e de Mauthausen, em Fevereiro de 1945. Revoltas selvaticamente reprimidas, mas que provam a inabalável recusa de submeter-se, recusa transformada em acção, que não foi inútil, uma vez que era possível combater sem esperança de vencer.”

(…)

“Não há que perdoar àqueles que não são culpados. Seria grave injustiça fazer recair sobre o povo alemão, como um todo, a responsabilidade moral de um mal cujo nascimento, nas condições históricas em que se debatia, ele não discerniu. Quando mediu o perigo, já era demasiado tarde para lhe deter o crescimento, tendo sido ele a primeira vítima, ainda que muitos dos seus filhos tenham começado por se mostrar os sustentáculos de uma tal situação, para dela virem depois a sofrer, por sua vez, as mortais consequências. Mas quantos, no resto do mundo, se mostraram mais clarividentes, mesmo já com a guerra à porta? Seria ainda injusto atribuir aos jovens alemães de hoje a culpa de alguns dos seus pais, crimes de uns, cegueira de outros, esquecendo todos aqueles (e inúmeros são…) que sofreram e pereceram sob o terror e todos os que resistiram em condições ainda piores do que as que nós conhecemos. Uma tal maldição seria nada menos do que um genocídio moral, uma forma in
si
diosa de racismo, e a aplicação do princípio, detestável entre todos, da responsabilidade colectiva, um dos mais odiosos fundamentos do “direito” hitleriano.”

(…)

“Quem não vê, hoje, que a impunidade e o esquecimento fazem ainda fermentar certos espíritos nostálgicos de uma ditadura restaurada de que eles seriam os chefes todo-poderosos. E que, ao dirigirem-se de novo aos frustrados, aos descontentes, aos jovens mal informados do que aconteceu, eles encontram uma audiência iludida? E isto não apenas na Alemanha, mas por toda a parte onde o ódio troa ou a violência mina.”

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