A máquina do tempo: a lumiosa prensa de Gutenberg

Não é gralha. Escrevi «lumiosa», palavra que significa o mesmo que luminosa, mas tem um sabor mais renascentista. Andou na boca e na pena de homens como Sá de Miranda, Camões e Damião de Góis. Embora a figura que hoje quero visitar seja alguém que ficou no limiar dessa Idade Nova cujas portas tanto ajudou a abrir – refiro-me a Johannes Gutenberg que terá nascido em Mogúncia na década de 1390 e que morreu em 1468. Inspirando-se numa prensa de lagar, própria para esmagar uvas no fabrico de vinho, inventou a sua prensa que tanta luz derramou nestes mais de cinco séculos (e aqui resisti heroicamente à tentação de fazer um trocadilho fácil usando a locução latina «in vino veritas»).

Inventou também os tipos móveis e desenvolveu o fabrico de tintas à base de óleo, mais compatíveis com esses novos caracteres, duradouros e resistentes, feitos em chumbo fundido, técnica que, com melhoramentos, sobreviveu até ao século XX, ainda se encontrando oficinas equipadas com tipos de chumbo e usando procedimentos que, basicamente, não são muito diferentes dos de mestre alemão. Fez pesquisas sobre a qualidade de papel mais adequado ao seu invento. E, no dia 30 de Setembro de 1452 – faz hoje 557 anos – deu como pronta a sua Bíblia, o primeiro livro a ser impresso segundo a nova técnica (e um dos poucos, até aos nossos dias, em que não se pode encontrar uma única gralha). Para comemorar esse 557º aniversário da prensa de Gutenberg, queria falar-vos do projecto que recebeu o nome do grande inventor alemão – o «Projecto Gutenberg».

Tudo começou em 1971, quando Michael Hart, um estudante da Universidade de Illinois, teve acesso a um computador gigante – o Xerox Sigma V do laboratório de pesquisa da instituição. Este computador iria, com outros 14, integrar a rede cibernética que daria lugar á Internet. Hart perseguia a utopia de um dia no Futuro os computadores estariam ao dispor de toda a gente – os jovens viajam muito até ao Futuro, frequentando os velhos mais o Passado. Ambas as viagens são maneiras de não estar no Presente.

Hart, fascinado com as potencialidades deste novo auxiliar da inteligência e da memória humanas, resolveu colocar ao dispor de todos, gratuitamente, obras de literatura em formato electrónico. Nascia o «Projecto Gutenberg». Vinte anos depois, instalado no Colégio Beneditino de Illinois, acompanhado de muitos voluntários, Michael dirigia o projecto. Os textos eram introduzidos manualmente até surgirem os digitalizadores de imagens e os programas de reconhecimento óptico de caracteres.

E (este um dos aspectos positivos dos Estados Unidos!) a ideia que parecia megalómana começou a ganhar corpo. A Universidade Carnegie Mellon aceitou administrar as finanças do ambicioso projecto. Assim, em 2000, foi registada no Estado do Mississippi a Project Gutenberg Literary Archive Foundation, Inc., organização sem fins lucrativos destinada a gerir as vertentes legais do projecto. Vamos acelerar a velocidade: em 2006, a instituição tinha mais de 20 mil livros no seu acervo, entrando por semana 50 novos títulos. Actualmente, segundo o site PT Principal, há 30 mil títulos disponíveis, alguns dos quais em português.

De acordo com um artigo publicado no passado dia 20 no El País, com mais de 50 títulos apenas há obras em espanhol, inglês, chinês, alemão, holandês e finlandês, estando referenciadas três obras em catalão. São uns queridos nuestros hermanos, puseram o espanhol em primeiro lugar – o que deve ser aldrabice – mas esqueceram-se do português (oxalá não tenham pegado na palavra ao Mário Lino, que disse que tínhamos uma língua comum, e não tenham incluído os livros em português no mesmo embrulho do castelhano). Havia, em 19 deste mês, 348 obras em língua portuguesa, existindo a intenção de, ainda este ano, digitalizar mais 240 títulos. Na próxima década, aponta-se para que o português seja a terceira língua europeia com mais obras, depois do inglês e do espanhol.

Já tinha ouvido falar neste projecto, mas só agora aprofundei um pouco mais o conhecimento sobre ele. Portanto, nem só a Google proporciona o acesso a obras literárias de forma gratuita. Nem sequer foi pioneira em tal generosidade. O Projecto Gutenberg põe ao nosso dispor um número crescente de títulos. Com a condição de serem obras caídas no domínio público (cujos autores tenham morrido há mais de 70 anos) ou autorizadas por quem detenha os direitos.

Que bonita maneira de honrar a memória e de homenagear Gutenberg e a sua lumiosa prensa.

Comments

  1. isac says:

    Tem razão Carlos. Também já conhecia. Nem sempre os “gigantes” proporcionam as novidades. Mas eu complemento com outra sugestão do mesmo género: http://www.archive.org/ – engloba tudo e mais alguma coisa incluindo filmes raríssimos. Mas há muito mais iniciativas, como o Repositorium de Teses da Univ. do Minho. Como em tudo, é preciso é saber escolher.


  2. É isso mesmo, Isac – saber escolher e estar informado (ou vice-versa).

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