Métodos revolucionários (I)

A série de textos «Métodos Revolucionários» está integrada num projecto que se chama “Ras Gustavo e a PUTA” (Política única de transversalidade anarco-artística), e como o nome explica, reúne todas as manifestações possíveis de livre expressão, num infindável limite de suportes… Música, pintura, arquitectura, escrita… Enfim, qualquer operação, símbolo, atitude, manifesto, intervenção, que nos permita rever a enormidade de regras e preconceitos desta sociedade… que ainda tem a lata de se autodenominar “democrática” e de “livre expressão”.
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Nestes tempos que não são perfeitos, mas em que pelo menos temos a certeza de alguém estar sempre pior que nós…
Nestes tempos que não são propriamente inspiradores, mas em que pelo menos temos a garantia de estar a um pequeno passo de quem está um bocadinho melhor… e isso já chega!
Nestes tempos modernos, onde se vive no sossego de uma sociedade democrática, no conforto de políticas centristas e moderadas, que asseguram a nossa liberdade… e zelam pela tolerância.
Nestes tempos que nos embalam na certeza máxima de que “o mundo é assim” como nós… umas vezes bem, outras pior… e que enquanto soubermos estar em sociedade e percebermos que a liberdade de uns começa onde acaba a dos outros… tudo terá ordem e sentido.

E faz muito sentido!

Faz tanto sentido que as pessoas modernas se esqueceram de serem elas próprias a determinarem onde começa e acaba a sua liberdade e deixaram a definição desses limites para alguém mais competente.

Houve tempos nas sociedades ocidentais que quem decidia os limites da liberdade era a Igreja.

Houve tempos que foram os políticos, os parlamentos, as constituições e as ditaduras.

Nestes tempos são as democracias, os media, as multinacionais, as crises, os défices, os trusts, os offshores, as especulações imobiliárias, as taxas de juro, a Euribor, o euro, o FMI, a OPEP, a NATO, a ONU, o G8, as ONGês e toda uma infinidade de siglas, nomenclaturas, desígnios e designações que a todos os minutos nos confundem e nos convencem… que quem decide não somos nós! (mas que todavia continuamos livres!!!)

Quero então propor um simples teste à nossa suposta liberdade… Um teste à nossa competência de decidir onde começa e onde acaba esta liberdade, assumindo nós próprios, pela primeira vez, o risco de importunar a liberdade de alguém!
Um teste que não exige tempo ou dinheiro…
É muito simples: cuspir no chão.

Cuspir no chão é um manifesto claro da nossa expressão individual.

Ninguém cospe da mesma forma, nem tão pouco existem duas bisgas iguais! (Posso admitir que exista quem não ache a bisga, ela própria, assim muito atraente, mas para todos os efeitos nesta sociedade tolerante, gostos não se discutem).

Cuspir no chão é um simbolismo da nossa liberdade de expressão. Se eu estiver descontente com o Governo, cuspo na porta da Assembleia, se me irritar com um polícia cuspo na rua. Sempre com a vantagem de muito dificilmente ser preso ou multado por isso [1], e sempre expressando de forma muito inequívoca os meus sentimentos… de uma forma rápida e directa, bem à imagem da nossa fastsociety.
Cuspir no chão não carece de uma fantástica justificação pseudo-intelectual, que tanto elitiza as famigeradas mentes revolucionárias e as isola no seu discurso… tão inalcançável quanto essas revoluções.
Cuspir no chão é um processo pedagógico, que nos liberta dos processos de auto-censura que construímos em prejuízo da nossa liberdade desde o dia em que nascemos.
Cuspir no chão testa a nossa responsabilidade individual, na medida que nos obriga a saber viver com os olhares e possíveis comentários de desaprovação das pessoas que assistirão a esse acto e muito possivelmente não o compreenderão. Nesta circunstância resta-nos duas hipóteses: a primeira é explicar o porquê deste acto e esperar que o interlocutor encontre espaço na sua mente tolerante para ouvir uma explicação que ele não concebe à partida; a segunda é bem mais simples e resume-se a dirigir um sorriso simpático, acrescentando: “- Não era para si!”. Garanto que a segunda resulta melhor!

Entenda-se que toda a pressão social que esta atitude acarreta obriga o cuspidor a não recorrer à bisga de uma forma gratuita. Mais, eu diria que a banalização da bisga é muito pouco provável, tendo em conta que nas sociedades modernas ninguém gasta saliva assim ao desbarato. [2]
A melhor parte é que, cuspir no chão não tem custos e muito dificilmente existirá alguém que não tenha capacidade para o fazer.
Ainda assim acreditem:
– Há quem passe a vida toda sem nunca mandar uma cuspidela!

Nota 1: Lembrei-me que eventualmente a ASAE poderá levantar questões quanto ao cumprimento dos parâmetros de higiene… Por via das dúvidas o melhor é lavar bem os dentes e nunca sair de casa sem o comprovativo relativo à inspecção oral… Não vá o diabo tecê-las!
Nota 2: O actual Governo já manifestou o seu agrado, por se recorrer a métodos revolucionários não poluentes… dizem que isto dá um empurrãozinho à venda de painéis solares.

Comments

  1. isac says:

    No outro dia vi um programa sobre jovens empreendedores. Uns, abriram uma empresa para retirar chiclets daquelas que ficam agarradas ao chão e que já lá estão há décadas. Conseguiram criar 2 postos de trabalho! Se fizerem uma empresa para recolher bisgas esta pode ser uma óptima medida para criar emprego!

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