O assassinato politico, desmerecida punição

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Recebi ontem uma homenagem, criada por Carlos Loures e que, gentilmente, me dedicou, para assinalar as exéquias de Victor Jara, 36 anos depois da sua morte, realizadas em Santiago do Chile a 3 Dezembro do corrente ano, trinta e seis anos após o seu assassinato no Estádio Nacional do Chile. As suas mãos encantaram o povo, que andava sempre atrás dele, para ouvir as suas canções e lançar vivas a um operário que soube aprender música, crescer dentro de uma vida pobre, e ajudar à eleição de um Presidente. As mãos de Victor Jara não eram esguias, mas fortes; mãos de um trabalhador usadas para o romance, especialmente quando cantava a sua música: Te Recuerdo, Amanda, nome de uma das sua filhas. Nome de um dos seus amores. Mãos partidas e desfeitas pelas botas dos soldados que gritavam: canta agora! Um operário com voz que percorreu o mundo. Por temor, os cobardes torturadores esconderam o seu corpo, após dias de tortura, seguida de morte. Diz a história que a sua fortaleza permitiu que nenhum som de dor sai-se da sua boca, boca que sabia cantar mas não chorar.

Victor Jara vai enterrar após trinta e seis anos da sua morte

Victor Jara vai enterrar após trinta e seis anos da sua morte

Mãos proletárias que fizeram cantar o mundo. Durante o seu funeral, milhares de operários acompanharam-no ao longo de oito horas a andar até ao cemitério dos heróis do Chile.

Não estava só. A mulher da sua vida, Joan Jara e as suas filhas, Manuela e Amanda, discursaram no cemitério sobre a falta que fez nas suas vidas. Joan disse: após a sua horrorosa morte, o tempo congelara…

Amou, salvou o corpo mutilado do seu marido para um funeral secreto

Amou, salvou o corpo mutilado do seu marido para um funeral secreto

Não estava só. A mulher da sua vida, Joan Jara e as suas filhas, Manuela e Amanda, discursaram no cemitério sobre a falta que fez nas suas vidas. Joan disse: após a sua horrorosa morte, o tempo congelara…

Não consigo esquecer esse sítio especial, ao qual acudiam as viúvas dos famosos mortos por motivos políticos. Passaram Margarita Letelier, a viúva do Embaixador do Chile nos Estados Unidos, Hortênsia Bussi de Allende, Carmen Castillo Echeverria, que tinha perdido o seu companheiro, Miguel Herríquez, numa cilada tramada pelo ditador, e as viúvas dos mortos vivos, como Mariana Giacaman Valle, Mónica Echeverria, a mãe de Carmen e Raquel Parot de Bunster, Lily Bell, entre outras, maridos que não sabiam o que fazer nos seus exílios. Ajudámos alguns a terem trabalho na Universidade, outros, bolsas de estudo. Se matar por motivos políticos é uma desmerecida punição, viver sem saber o que fazer depois de terem sido Embaixadores, Ministros de Estado, Reitores, prisioneiros políticos tratados por nós no seu aborrecimento, ou, pior ainda, os viúvos de mulheres ainda na cadeia ou no campo de concentração, sem saberem delas, com filhos para criar.

Estou consciente de escrever estas linhas no dia prévio à morte do mais sanguinário ditador da América Latina, falecido aos 91 anos, a 10 de Dezembro, dia Internacional do Direitos Humanos, do ano de 2006. Este sim, não teve uma desmerecida punição, pelo contrário. Faleceu como eu esperava: declarado réu de crimes contras as pessoas, milhares delas e em tribunal. Os direitos Humanos puniram-no como merecia. Ainda, nesse ano a comemoração foi num Domingo, dia sagrado para o religioso e profundamente cristão ditador. Confiem neles! Os da fé romana traem a torto e a direito… como a Victor Jara, como a todos os que hoje já não podem falar…

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Texto muito importante por revelar acontecimentos que desconhecíamos e por nos pôr em contacto directo com alguém que privou de perto com Víctor Jara e com sua família. Um testemunho que confirma a grandeza e a coragem do grande cantautor chileno.

  2. Carlos Loures says:

    Texto muito importante do ponto de vista histórico, pois revela acontecimentos que desconhecíamos. O Professor Raúl Iturra, tendo privado directamente com Víctor Jara e com sua família, proporciona-nos um valioso testemunho em primeira mão e um relato vivido do inferno criado pelos assassinos golpistas.

  3. Luis Moreira says:

    O Prof é um Aventador de primeira água, já nos conquistou a todos

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