no rastro da sexualidade camimha o amor;no rastro do amor caminha a sexualidade

NO RASTRO DA SEXUALIDADE CAMINHA O AMOR

NO RASTRO DO AMOR CAMINHA A SEXUALIDADE.

Ensaio de Etnopsicologia.

amor

amor

A frase que me serve de título, não é minha. Retirei-a de um texto sem autor que comenta as ideias de Freud sobre o amor. Amor que, no texto de 1908, O eu e o isso, tal como no de 1905: Três ensaios sobre sexualidade (comentados anteriormente neste blogue), é definido como pulsão, a qual, como o autor a pensa no texto de 1915: A pulsão e as suas vicissitudes, é um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se situam no consciente, acautelados pelo Id do inconsciente. Definições que podem ser lidas em http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/freud.html.

No presente texto quero falar eu. Sempre defendi a ideia de que o amor surge primeiro e, a seguir, o desejo. Freud coloca o desejo antes do amor, porque tinha como objectivo curar neuroses, atribuídas à falta de satisfação da libido. Eis porque define amor como pulsão. Aliás, o próprio autor tinha problemas pessoais com o sentimento amor. A energia de Eros (libido) faz referência a tudo o que pode sintetizar-se como amor, incluindo: o amor a si mesmo, aos pais, aos filhos, à humanidade, ao saber e aos objectos abstractos. Nele convergem pulsões parciais de ternura, ciúme, inveja e desejos sexuais orientados para os mesmos objectos. O amor é, assim, apresentado como uma ampliação do conceito de sexualidade e ao mesmo tempo ancorado na inadequação radical dos objectos à satisfação sexual, vinculada a um factor de desprezar inerente à sexualidade humana. Citação retirada do texto de Olivia Bittencourt Valdivia, publicado em A Linguagem Interminável dos Amores, Jornal do Federal Nº 34, 1993.

Esta é a teoria psicanalítica a falar. Mas, nós, como explicamos os nossos amores, e como entendemos se devemos distinguir idades e sexos para saber que o sentimento aparece primeiro: amor ou o da paixão? Sempre fui da opinião que o amor ia em frente da paixão. A paixão é a libido que orienta os nossos comportamentos e desnorteia a razão. Paixão que não aparece apenas na idade púbere. A paixão é um sentimento que é uma força da natureza e começa nos tempos em que, pela nossa frente, há quem nos alimente, nos agasalhe e nos aconchegue. Paixão é essa grande inclinação ou predilecção por esse ser humano, por quem nutrimos um grande afecto, violento, um amor ardente. É razoável que essa primeira paixão se materialize no seio da mãe que nos alimenta. Sentimento que perdura ao longo de toda a nossa vida e que, quando nos falta, provoca-nos tristeza. As mães têm essa vantagem na corrida de afectos perante os descendentes, corrida que acaba quando, em frente da criança, aparece um outro tipo de paixão. Uma afectividade diferente do seio que amamenta, convertido em amor pela pessoa que trata de nós na idade púbere.


Amor ou sentimento que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição ou atracção, ou paixão atractivaatrativa entre duas pessoas, como afeição forte por outra pessoa que é só para nós, com a correspondente afeição de esse outro ego que faz de nós seres gentis, ardentes, em procura da união íntima com o corpo de quem acorda em nós um anseio de colaboração e protecção. Na paixão, procuramos; no amor, damos e esperamos uma reciprocidade do sentimento. Não é em vão que Freud, em carta ao seu discípulo Jung, tenha dito: a psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor.

Se a psicanálise, num conjunto de associação de ideias, e o terapeuta orienta o analisado para sentimentos de afectividade, o amor não é o caminho para a paixão. A paixão é o roteiro para o sentimento de amor. O amor é expansivo, a paixão é retraída apenas para quem nos faz bem.

Dois conceitos difíceis de definir e separar. A paixão pelo alimento, acaba em amor por quem nos amamenta; o amor por quem toma conta de nós acaba em paixão, normalmente associada à intimidade das pessoas, sem ser necessariamente erótica. O erotismo não é paixão, é apenas a procura de satisfação das pulsões da libido, pelo alívio da ansiedade que proporciona o orgasmo ou distensão física e psicológica que o orgasmo causa nas pessoas após uma relação íntima e a dois, após a sedução

e o amor resultando na sustentável e ansiada leveza do ser.

paixão

paixão

A paixão acaba brevemente, quando as necessidades básicas da pessoa ficam satisfeitas, como acontece com o seio materno, que de paixão e anseio, convertem-se em ternura por quem nos soube manter vivos e acarinhados. O amor dura o tempo de um suspiro quando não existem ligações em comum, como a descendência; um objectivo de interesse mútuo, como o Curie ou os Kinsey; político, como John Fitzgerald Kennedy e a sua mulher Jacqueline Bouvier, ou Maria Callas, que ficou sem voz ao perder o homem dos seus amores, Aristóteles Onassis, ou Alexandre O Grande e o seu companheiro Pancaste que o acompanhava em todas as guerras e tomava conta dele, em conjunto com as duas mulheres do Imperador. Ou um casal comum, que tem por missão criar os seus rebentos e têm, entre eles, um passado cumprido como memória, partilhando tarefas domésticas e económicas e estão ladeados de amigos bem conhecidos ao longo dos anos.

Há uma grande diferença entre paixão e amor, como tentei explicar antes. A paixão é curta. O amor cultivado pode durar até à morte, ainda que seja unilateral. Para que a paixão dure, é preciso satisfazer uma demanda física, cultural ou psicológica e acaba quando essa satisfação é cumprida. No caso do amor, se há respeito mútuo, o caminho para a paixão erótica fica aberto. Especialmente se há uma combinatória de comportamentos e um respeito mútuo pelo que o outro faz.

Na língua lusa há uma grande confusão: paixão é sexualidade, como se fosse amor. Eis o motivo do título deste texto, retirado de Freud, que eu sinto o dever de corrigir como ele fez no seu texto de 1939: A civilização e os seus descontentamentos, previsto no seu texto de 1913 Totem e Tabu.

Freud época debate paixão e amor, na ciência e na sua pessoa

Freud época debate paixão e amor, na ciência e na sua pessoa

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Como sempre, é um texto muito bom , muito profundo. Um estudo sobre o amor, a paixão, a satisfação da líbido, pulsões que, não raras vezes confundimos. Mas a língua portuguesa permite-nos distinguir os matizes das palavras, desdobrando-as em múltiplas acepções – a palavra paixão, por exemplo, tem um vasto campo semântico, com dezenas de significados, desde a área da religião «paixão de Cristo», até à região do amor, onde se desmultiplica em acepções que cobrem todo o leque de sentimentos e impulsos. A palavra amor também possui essa riqueza, essa plasticidade. Quando Camões diz

    Amor é fogo que arde sem se ver,
    é ferida que dói, e não se sente;
    é um contentamento descontente,
    é dor que desatina sem doer.

    É um não querer mais que bem querer;
    é um andar solitário entre a gente;
    é nunca contentar-se de contente;
    é um cuidar que ganha em se perder.

    É querer estar preso por vontade;
    é servir a quem vence, o vencedor;
    é ter com quem nos mata, lealdade.

    Mas como causar pode seu favor
    nos corações humanos amizade,
    se tão contrário a si é o mesmo Amor?

    não está apenas a falar de amor carnal, de pulsão sexual, está a referir o amor numa dimensão superior que, englobando o desejo, o transcende e supera.

    Raúl, o português é um idioma muito plástico e rico e, relativamente ao amor , à paixão e ao sexo, poderia citar-te milhares de páginas. Fiquei-me pelo Camões, mas há poemas lindíssimos de outros poetas, o Bocage, por exemplo ou o Pessoa, que, acusado de ser misógino, tem páginas muito belas sobre o tema. Desta vez não fui sucinto. Um grande abraço.

  2. Raul Iturra says:

    Caro Carlos, o seu comentário é de uma grande excelência. Tentava, por todos os meios, de “incutir” na cabeça dos leitores, esses vários sentidos da palavra paixão e amor. Escolhi especialmente essa frase de Freud do caminho do amor. Lamento imenso que os homens confundam amor e paixão. A paixão no é apenas a libido, mas quis por essa imagem da Vénus de Bordeau, como uma contradição, e não um bebé a mamar. A ver si as cabeças pensam mais. O texto não é fácil de ler, especialmente porque as imagens são palavras. Esse jovem Freud, era em São Paulo, em procura de entender o conceito amor, que nem sentia nem queria entender. Como amor, esse beijo carinhoso, é o prelúdio de uma paixão sem pulsão: é o meu sonho….O seu comentário é o melhor que tenho recebido até hoje…Abraço

  3. Luis Moreira says:

    A paixão tira. O amor dá!
    A paixão tira, no sentido que queremos a satisfação da posse do ser objecto da paixão. O amor dá, no sentido de quererermos ,para si, o melhor, a felicidade. A paixão extingue-se. O amor fortalece-se.
    Mas belo, mesmo belo, é tudo começar pela paixão, transformar-se em amor, que se transforma nesse outro amor que é a amizade, a ternura e o carinho.
    Tal como o Loures, tambem acho que o “amor” do Raul, em Português, tem significados que estão para além desta paridade de “paixão/amor”

  4. Raul Iturra says:

    Obrigado Luís. Não era em vão comparar as diversas acepções da palavra paixão. Agradeço o seu comentario e leitura. Em Portugal há eese terrivel engano…que devemos curar..

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