"O maior escândalo do século na medicina"

“O maior escândalo do século na medicina”

( Façam o sacrifício de ler, pois creio que vos trará algum proveito)

Exerço clínica há quase 50 anos, desde uma clínica um tanto primitiva da primeira fase da minha vida, em plena serra da Gralheira e no interior da Guiné, até à clínica especializada da maior parte da minha vida. Portanto, tenho direito a algum crédito naquilo que digo. E o que digo não é bom nem agradável.

Clama o Sr. Wolfgang Wodang, presidente da Comissão de saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, que a campanha da “falsa pandemia de gripe, criada pela Organização Mundial de Saúde e outros institutos em benefício da indústria farmacêutica, é o maior escândalo do século na medicina”. Ele vai pedir um inquérito para analisar a pressão que os laboratórios terão exercido sobre a Organização Mundial de Saúde. De facto, mais grave do que isto não é fácil conceber.

Claro que, como diz o povo, “tarde piaste”, ou “agora agarra-lhe no cu com um gancho”, ou ainda “agora adianta-te um grosso”. Com cinco mil milhões no papo, a indústria farmacêutica faz um manguito e farta-se de rir à gargalhada. Só não estará totalmente satisfeita, porque uma boa parte da população já tem os olhos mais ou menos abertos, muitos médicos e outros agentes de saúde não são otários, e, portanto, marimbaram-se para o esquema, mandando às urtigas as vacinas, senão não eram cinco mil milhões, mas dez mil, quinze mil ou vinte mil milhões. A não ser que os governos já as tenham todas pagas, mesmo as não utilizadas. Se assim for, só lhes resta ensopá-las com batatas.

De pés bem assentes na minha vida e experiência clínicas, com a responsabilidade que sempre procurei ter, mas de pé atrás pelas inúmeras patranhas a que há anos estou habituado, e também avisado desde início desta “pandemia” pela análise lúcida e isenta de muita gente, quer do mundo médico quer do mundo político, como por exemplo o Prof. Vaz Carneiro e Ignatio Ramonet, eu não tomei a vacina, não a prescrevi nem a aconselhei a nenhum dos meus pacientes, nem tão pouco aos meus familiares, nomeadamente filhos, noras e netos. E não estou arrependido. Nem eles, creio eu.

Há mais de trinta anos que escrevo pequenos artigos em jornais regionais, jornais diários nacionais, e até aqui no Aventar, sobre saúde e sobre o lado negro da medicina. E este lado negro, ao contrário do que seria de esperar com os grandes avanços científicos, parece ser cada vez mais negro aos olhos de quem se move, amparado na consciência e no bom senso, no meio desta complexa teia que é o mundo da assistência médico-sanitária.

E esta patranha da gripe A é um poderoso exemplo, infelizmente não o único. Uma boa parte dos responsáveis pelas instituições de saúde, por todos os organismos assistenciais nacionais e internacionais, não percebem nada de clínica, há muito que se arredaram – por imposição dos poderes que os avassalam – da vontade própria, do bom senso e dos critérios éticos, uns porque são otários, outros porque não lhes interessa saber mais do que o suficiente para se manterem nos tachos, outros porque são eles próprios as correias de transmissão dos grandes interesses que (des) governam esta área infindável. E o que haverá de mafioso no meio desta complexa e tenebrosa rede de interesses transnacionais, não deverá ser difícil de imaginar a quem quer que seja.

Mas o maior escândalo do século não será este, o da vacina da gripe. Digamos que há muito grandes escândalos do século dentro da medicina e de todas as promíscuas relações desta com as áreas afins. Muitos mesmo. Referirei apenas três. Um deles é o colesterol. O colesterol é um factor de risco como qualquer outro, que tem de ser encarado dentro do contexto clínico de cada paciente. E é inegável o benefício de alguns fármacos neste campo. Mas a voracidade do lucro a qualquer preço, com o beneplácito da ignorância popular, com a ajuda da ignorância e incompetência de muitos médicos que vêem as “guidelines” como tábuas de Moisés, explorando a quase generalizada permissividade acrítica que impingem aos agentes de saúde, e com a irresistível pressão da indústria e de todos os seus satélites da comunicação social, transformou a religião anticolesterolémica numa das maiores minas de ouro da actualidade. Mas muitas outras minas do género existem.

O outro escândalo do século é a transformação da medicina e da assistência médica numa fábrica de exames. Em detrimento da mais importante actividade médica que é uma boa prática clínica, coadjuvada, necessariamente, pela maravilhosa tecnologia de que hoje dispomos, tudo se inverteu, toda a medicina se virou do avesso. Uma boa prática clínica custa muito a fazer e a aprender, obriga a uma curva de aprendizagem de uma vida inteira, e não dá dinheiro. O que interessa aos “promotores de saúde” e à ausência de competência e saber de muitos médicos, é realizar exames e intervenções aos montes, muitas vezes sem critério nem critérios, com todas as terríveis consequências que daí advêm. Já o disse mais do que uma vez, a título de exemplo, há pacientes que nos procuram, trazendo consigo (e com que qualidade!) um electrocardiograma, um ecocardiograma, um Holter, uma prova de esforço, uma cintigrafia miocárdica, análises etc. e nunca foram observados por um cardiologista! Isto é mesmo o que diz o povo “pôr o carro à frente dos bois”.

Daqui decorre o terceiro escândalo, que, ao fim e ao cabo, será o corolário de todos os outros. As graves consequências de tudo isto. A quantidade de cancros é assustadora. Pelo que vemos, eles crescem como tortulhos nas cidades, nas vilas e nas aldeias. E eu não tenho dúvidas de que uma das principais causas está no absurdo e nunca visto abuso de remédios de toda a ordem e no desmesurado e repetitivo recurso a meios de diagnóstico agressivos. E este escândalo poderá ser o mais grave, se nos lembrarmos de equacionar os benefícios e os prejuízos de toda esta drogaria, exames e intervenções, ministradas umas, massivamente e “ao calhas”, e realizadas outras, tantas vezes, sem orientações clínicas criteriosas. Chega-se a inventar doenças para consumir drogas para as quais não se conhece destino. E cada dia cada molécula de cada laboratório surge com insignificantes diferenças das suas congéneres, sem nenhum valor terapêutico acrescentado, apenas como tentativa de a promover perante a concorrência.

Se colocarmos num prato da balança os benefícios em termos de saúde para a humanidade, e eles são inegáveis, e no outro prato colocarmos os irreparáveis malefícios de natureza económica e iatrogénica ( iatrogenia física, química, económica, psíquica e social) este último prato bate no chão com estrondo.

NOTA: Só para vocês fazerem uma ideia da dimensão destas coisas. Li e vendo pelo mesmo preço. Mas como é um produto que bem conhecemos e com que diariamente lidamos, não é difícil de aceitar. Há um remédio que não é indispensável, podendo ser inclusivamente substituído por outros muitíssimo mais baratos, sem significativa desvantagem, prescrito na posologia de um comprimido diário, que dá ao produtor um rendimento, a nível internacional, igual ou maior do que o PIB português.

Comments

  1. madalena says:

    excekente. estava já convencida que muitas doenças decorrem dos tais exames preventivos agressivos .
    e as doenças que esses senhores inventam? terapias hormonais para estados naturais? ritalin para traquinas? antidepressivos para tristeza?
    nojenta a forma como exploram a ignorãncia e o medo das pessoas.


  2. É verdade Madalena. A palavra é mesmo “nojenta”, mas ainda mais do que nojenta é profundamente revoltante.

  3. Carlos Loures says:

    Tenho ouvido falar da trapaça que estava por detrás da história da pandemia; nem queria acreditar. Depois houve aquela senhora finlandesa, ligada ao ministério da Saúde, que fez aquela sensacional denúncia – mas logo a desacreditaram porque ela acredita em conspirações de extra-terrestres… Pelo sim, pelo não, e com o apoio dos médicos que me vigiam, não tomei a tal vacina. O teu texto, em boa hora, vem confirmar a minha desconfiança (e de muitos). Como o Luís Moreira costuma dizer, «é um texto de serviço público!».

  4. Luis Moreira says:

    Obrigado, caro Adão! És um homem de coragem. E um médico integro!

  5. Acélia Maria says:

    Apesar de quase leiga no assunto concordo plenamente. Obrigada.

  6. pedro says:

    A medicina passou de actividade nobre a negócio monstruoso. E muitos médicos não o são por vocação, mas porque acham que a actividade é muito lucrativa.
    A juntar a isso há o medo inculcado nas pessoas e a indústria da aparência e juventude eterna.
    São muitas aranhinhas a construírem – cada uma segundo os seus interesses – uma enorme teia, onde nós, cidadãos, acabamos sempre enredados.


  7. Assim sendo, como é possível que estas patranhas ainda funcionem?


  8. «… igual ou maior do que o PIB português.» ora, isso qualquer placebo faz!

  9. Frederico Paula says:

    Gostei imenso deste artigo. principalmente pela clarividência na abordagem do problema. De facto, por muito que a notícia peça um comentário imediatista, é preciso manter a visão global do problema. obrigado!


  10. Caro efe, será o PNB? sou um nabo em economia.

    Caro Frederico, obrigado eu pelo comentário

  11. Nuno Castelo-Branco says:

    Comigo, tramam-se. Recuso-me a ser “vacinado” por tudo e por nada e neste caso da chamada gripe A, parece mesmo ser… nada! Os meus pais são vacinados todos os anos, o que não os impede de no inverno, passarem semanas de cama, precisamente com gripes atrás de gripes.
    Não estou para colaborar com negociatas farmacêuticas,sempre ansiosas por novidades bolsistas. Não me convencem do contrário.
    Aliás, em Portugal têm sempre farta colheita, pois os media incutem desbragadamente o mrdoo em cada telejornal. Se não são os “pézinhos”, aí estão os adenovírus, nitrofuranos etc, etc. Num país onde as farmácias se recusam – e o Estado cede!!! – a vendar medicamentos à unidade, não valerá a pena dar muito crédito a todas estas vigarices adjacentes.
    Agora é a gripe A.
    Não, dispenso!


  12. Essa da unidose é outra que tal. Nisso estou contra o bastonário. Claro que não se pode dizer, “você não quer vender medicamentos em unidose?” Tem de se impor por lei. E para isso é preciso tomates, ou tomatas, conforme se é ministro ou ministra.

  13. carla romualdo says:

    Muito lúcida a tua análise, Adão, como é habitual. Mas como travar a relação tão promíscua que a Medicina mantém com as Farmacêuticas? Os avanços científicos estão dependentes do investimento dos grande grupos farmacêuticos. Sem o dinheiro das farmacêuticas não há investigação, sem investigação não haverá descobertas, não se conhecerá a fundo uma determinada patologia, e sem isso não se chegará a uma cura. Em contrapartida, as farmacêuticas exigem pacientes para os seus fármacos e a coisa já funciona ao contrário: “Que doença vamos criar para este medicamento?”
    Eu sento-me frente ao médico no seu consultório, levo logo uma catrefada de exames para fazer e basta-me ver os brindes que ele tem espalhados pela mesa (o porta-canetas, o pisa-papéis, a caneta, etc, etc) para saber que vai tentar impingir-me um medicamento. Não são todos, claro, mas são a maioria.
    E enquanto isso, o lobby desses médicos e o lobby das farmacêuticas impede a entrada das medicinas que erradamente se chamam “alternativas” porque deveriam ser consideradas “complementares” no SNS…


  14. Amiga Carla. Isto dá pano para mangas e não é num simples comentário que as coisas se conversam. Não são os brindes que fazem mossa, e não é pelos brindes que se compram médicos. Isso não tem qualquer valor. O processo é muito mais profundo e complicado. Tem a ver com o pouco senso de muitos médicos e instituições, com a permeabilidade acrítica dos médicos, quanto à receptividade do que lhes impingem, mas essencialmente com os estudos ultra-competitivos (muitos deles de grande utilidade), mas dirigidos à imposição dos produtos e com a multidão de opinion-makers laterais, pagos a peso de ouro. Quanto à investigação, é certo que se não fosse a investigação da indústria farmacêutica quase nada havia. Mas uma grande parte do orçamento da investigação é gasto em investigação de marketing, essa sim portentosa.
    Quanto às medicinas alternativas ou complementares nem me fales nisso, Carla! até arrepia! Se na medicina científica, assente naquilo que hoje denominamos medicina da evidência, realizada através de estudos internacionais e multicêntricos inacessíveis a qualquer pequena empresa do ramo, a coisa deixa muito a desejar, imagina o que é dar qualquer ponta de crédito a práticas desprovidas de qualquer estudo ou rigor científico. A complicada fisiopatologia, a complexidade multifactorial da doença, a difícil farmacologia clínica e a labiríntica farmacodinâmica, não se compadecem com palhaçadas. No fundo Carla, tudo seria fantástico se o homem não fosse um bandalho.

  15. carla romualdo says:

    É verdade, isto dá pano para mangas.
    Apenas dois comentários: “não é pelos brindes que se compram os médicos”. A muitos não, seguramente, mas quando vejo o alto patrocínio das farmacêuticas a certos congressos médicos que, por acaso, até se fazem em sítios ideais para passar umas férias, permito-me desconfiar.
    Em segundo lugar, não estou nada de acordo contigo, Adão, e desculpa este atrevimento de leiga, acerca das medicinas alternativas ou complementares. Há quem ande por aí a vender a banha-da-cobra, pois há, mas também há quem desenvolva um trabalho sério. O conhecimento empírico, sedimentado por uma tradição milenar, é fonte de muita sabedoria, como aliás descobriram as farmacêuticas quando se deram ao trabalho de ir estudar a aplicação que certas tribos índias faziam das plantas com propriedades medicinais. Tal como em relação à medicina ocidental, é preciso separar o trigo do joio. Ficávamos todos a ganhar

    • Luís Moreira says:

      Carla, é claro que cada vez mais há medicamentos naturais e homeopáticos que são usados com sucesso, mas a formação científica dos médicos, colocam-nos de pé atrás. O que é natural. Tenho um amigo médico que trata doentes com cancro só depois de terem passado por todas as fazes da medicina tradicional. Tem uma ligação profissional com a universidade de Navarra que desenvolveu técnicas cirurgicas adequadas ao cancro. Está ligado a clínicas na Suiça, na Alemanha, na Holanda e em Espanha que tratam estes doentes com um “approach” diferente, medicamentos naturais que se dirigem a reforçar o sistema imunitário e a atacar, apenas, as células doentes.
      Mas todos os outros amigos meus médicos, não acreditam…


  16. Quanto aos congressos e ressorts, tens razão, mas é crónico e hoje em dia indignificante para quem tem alguma vergonha. No resto estás enganada Carla. Não há hoje qualquer espécie de compatibilidade entre o que antigamente se fazia, ainda que com a sabedoria empírica, admirável, dos nossos antepassados, e a medicina moderna. É a mesma coisa que quereres hoje fazer um electrocardiograma com o electrocardiógrafo de Einthoven. A mesma coisa do que quereres comparar um computador com o livro do merceeiro. Como te disse, a mesma doença é plurifacetada, por vezes dentro do próprio doente, os diagnósticos de hoje são extremamente precisos e super-especializados e as terapêuticas para esses diagnósticos também. Mas isto Carla é para abordarmos no nosso cafezinho de um dia destes.

  17. Nuno Castelo-Branco says:

    Adão, para que temos então Parlamento e Governo? Os decretos, decretam-se. Aplica-se a cláusula da saúde pública. Pode crer que quem tiver coragem para o fazer, só terá a ganhar e como sempre, os lóbis lá terão de se submeter. Como deve ser.

  18. Fernando Moreira de Sá says:

    Caro Adão,

    A minha Avô, que foi uma das primeiras mulheres farmacêuticas em Portugal e o meu Pai que foi farmacêutico e fundador da Cofanor, se ainda fossem vivos, tenho a certeza, fariam fotocópias deste artigo e o colocariam no sítio mais visível da Farmácia.

    Felizmente, a minha irmã, que é farmacêutica (eu fui a ovelha negra que preferiu seguir outra área) vai receber este texto por mail e, tenho a certeza, irá fazer a devida justiça a tão nobre peça!

    É nestes momentos que fico orgulhoso de pertencer a este blog!!!

  19. Carla Romualdo says:

    Combinadíssimo, Adão, dá gosto ouvir um médico como tu. Quando estiveres livre dá uma apitadela e combinamos o cimbalino (esta é para meter-me com o Luís Moreira).

  20. Carla Romualdo says:

    Já agora, aqui fica a ligação para um texto que vem mesmo a propósito:
    http://aeiou.expresso.pt/a-saude-e-o-panico=f557593

  21. Adão Cruz says:

    Caro Fernando Moreira Sá, obrigado pelo comentário, que quer a gente queira quer não nos envaidece e nos estimula.

    Carla, este texto de Mário Cláudio é uma maaravilha.

  22. Walkiria says:

    Muito interessante a matéria e também a sua postura.
    Aqui no Brasil os médicos (SUS e particulares) têm mania de prescrever um remédio com o genérico prednisona para crises de sinusite. Este farmáco é uma das piores drogas que já manipularam. É a porta aberta para desencadear inúmeras doenças reumáticas graves. Me arrepia a cada vez que leio os efeitos colaterais de certos remédios.

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