o pecado de masculinizar a mulher

a mulher pensada por vários homens

Grande surpresa a minha! Os meus colegas ensaístas tinham reservado um dia especial para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Solicitaram-me que não escrevesse a 8 de Março porque a escrita, nesse dia, era apenas para senhoras. No entanto, tornei a ver o texto escrito a 7 de Março, reproduzido no dia proibido.

No entanto, muitas mulheres escreveram nesse dia, as do nosso grupo e outras convidadas. E vários de nós, homens, que tínhamos escrito, no dia prévio, sobre a mulher. A frase desse dia, o slogan ou estandarte por falar assim, é retirada de uma Canção dos Beattle You can work it out. Por outras palavras, podes fazer crescer ou podes conseguir. A intenção do slogan desse dia, que nem devia existir, porque somos todos iguais, é humilhar a mulher ao dizer que ela também pode crescer, também pode trabalhar, também tem forças para conseguir ser um outro ser como os homens. O mais irónico é a palavra blog, um caderno de rascunhos, de ideias novas de apontamentos para não esquecer. Mas a palavra blog numa frase como esta, refere a capacidade adquirida pelo sexo feminino de ser capaz de desenvolver as suas qualidades como os outros fazem. Aliás, a frase foi colocada por um grupo de homens que deu licença às mulheres para, nesse dia especial, poderem demonstrar que eram pessoas de poder, como os homens pensam que são. Salientem-se ainda, que o sítio em que a frase foi escrita, é denominado blog e é gerido ou administrado por homens. Há uma ou duas mulheres que, timidamente, acompanham essa gestão, excepto duas de apelido semelhante, mas que são convidadas a participar na escrita desde outro blog.

Normalmente, uso a palavra como blogue, por não ter tradução. Em todas as línguas são iguais e como a nossa língua lusa usa a letra e em quase todas as palavras – como dizer eagua por água, por exemplo, ou acrescenta um e a todas as palavras consonantes, como esta mesma de blog, ou o nome Malen passa a ser Malene, e outros que, na pressa do tempo não me deixa pensar mais, porque queria falar – eis outra: falare, ou Schubert, com a e a seguir a letra t – da masculinização que os homens fazem das mulheres. Masculinização não por fazer delas homens, mas para submetê-las sob a sua protecção. Nos meus 20 anos, passados já quarenta e vários trocos, as mulheres eram as pessoas que iam um passo atrás do homem, ou agarrada ao braço do homem que ela acompanhava, pai, marido ou filho crescido. Poucas trabalhavam e ficavam em casa a organizar a vida doméstica ou a comandar sobre as que organizavam a vida familiar para elas. As guerras eram para homens, enquanto as mulheres eram enfermeiras ou tomavam conta de seres masculinos acobardados como mães. Era o seu papel fundamentalmente diferente do dos homens. Hoje em dia, tudo tem mudado, em ideias, porque nos factos, as mulheres praticamente precisam de licença do sexo oposto para gerir a sua vida.

É verdade que elas têm filhos e os educam, preparam a comida e tratam da roupa. Os homens não foram criados para isso e não sabem nada da vida doméstica, excepto se são pais abandonados com filhos, o que na Europa muito acontece. O caso contrário, é mais comum, as mulheres ficam sós com as crianças, porque não sabem colaborar na vida doméstica, ou porque se aborrecem de ter outra pessoa em casa que espera ser servida, até ao ponto de ter que se masculinizar, deitar o homem fora e passar não apenas ao sustento da prole, bem como de tomar conta do trabalho do qual todos vivem, desse ordenado que é o sal –sale-, o condimento do lar.

Aos meus 40 anos comecei a ver mulheres a concorrerem com os homens por postos de trabalho, mas observei também que entre um e outra, ele era mais bem pago pelo mesmo desempenho de labores públicos.

Critico os meus congéneres masculinos, sejam heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, aí não há problema, por fazerem do dia da mulher um dia especial e colocarem esse emblema que me parece muito mal: nós também podemos lutar, crescer, sermos capazes de fazer o que o sexo feminino faz. É um insulto que não tem perdão, é um pecado. Bem sabemos os da cultura ocidental o que é pecado: a condenação do comportamento social que suja os afazeres e a reputação.

Confesso que nem todos são assim, mas os seres humanos masculinos com os que debato dentro destas linhas, quiseram fazer – fazere – um favor às mulheres e permitiram um dia de gestão feminina.

Masculinizar uma mulher, é permitir-lhe apenas por uma vez, fazer o que eles fazem e envergonham-na se não entrar na luta com os másculos, que sabem muito bem mandar sobre ela e muitas delas, permitem a humilhação de serem uma entidade sempre de pé atrás.

Quem me dera ser mulher! Não teria aceite tamanha desonra. Assim como me é difícil passar a ser um subordinado de mulheres que têm sofrido na vida e batem no próximo que as acompanha.

Há muito para dizer, mas o tempo e o espaço o não permitem.

A meu ver, o trato com as senhoras deve ser de uma forma naturalmente amiga, elegante e gentil, como espero que elas o sejam também comigo.

Critico duramente o Aventar pela sua arrogância. Porque não trabalharmos juntos todos os dias, suavizar o tratamento das feridas por outros sem que a ferida, ainda que pareça não acontecer?

Trabalharmos juntos e em pé de igualdade, com um pequeno se não: elegância para elas, respeito pelo seu trabalho. E não apenas uma permissão de um dia para fazerem o nosso trabalho…. A mulher operária, médica, secretária…, é do sexo sedutor e nós, sedutores. Donde:

mínima gentileza para uma pessoa igual

que eu cultivo para mim e a mulher amada. Se assim não fosse, não teria camélias para mim.

O pecado não está perdoado. É simples: Marguerite Yourcenar, o prémio Nobel do Chile em literatura, Gabriela Mistral, Teresa de Calcutá, Diane Spencer, a pintora mexicana Frida Kalo, e a médica e doutora em artes de defesa, Michelle Bachelet, que esta quinta-feira entrega o seu cargo de Presidenta do Chile, ao fascismo que tornou a um pais dobrado, mas não partido…

E guardo respeitoso silêncio pelas mulheres que aceitaram uma parva proposta… que é também pecado…

Comments

  1. Francisca says:

    Que texto tão parvo e imbecil.
    Então somos todas parvas e burras, os homens são todos parvos e burros, só escapa o iluminado que escreveu o texto.
    Se bastasse qualquer um para me insultar teria todas as razões para me sentir ofendida. E não venha cá dizer que não compreendi. Quem não compreendeu nada, mesmo nada, foi o senhor. também já percebi que não vai compreender, coitado, não pode.


  2. Uma ligeira correcção:a imagem inspira-se num cartaz da II guerra, de J. Howard Miller, e é um incentivo ao esforço de guerra das mulheres que na retaguarda asseguravam o esforço agrícola e industrial, ocupando lugares até aí reservados aos homens.
    Como o Raul sabe as duas grandes guerras do séc. passado tiveram um papel determinante na emancipação económica das mulheres; já assinados os armistícios não foi fácil convencê-las a abandonar as ocupações a que a guerra lhes tinha aberto portas.
    Porque entendo que qualquer emancipação feminina passa pela igualdade de acesso ao trabalho, porque quem não se sustenta não é livre, faria uma leitura diferente da imagem.
    Mas isso sou eu, que tenho a deformação profissional de enquadrar as coisas no seu contextozito histórico.

  3. Ricardo says:

    Não percebeu, caro professor. Não percebeu a iniciativa do Aventar. É pena.

  4. Luis Moreira says:

    Já sabiamos que a iniciativa podia ter esta leitura, e num texto ou outro aflorou a questão. É isto o Aventar, um espaço de liberdade de opinião.

  5. maria monteiro says:

    “A meu ver, o trato com as senhoras deve ser de uma forma naturalmente amiga, elegante e gentil, como espero que elas o sejam também comigo”

    Deverá ser o trato universal de todos(as) com todos(as) … claro que aqui ou ali surgirão sempre pequenos desvios de circunstância mas que a forma amiga seja sempre… amiga

  6. Carlos Loures says:

    Parece-me que não há equívoco nenhum do Professor Iturra. Aliás, muitos colaboradores do blogue emitiram essa opinião – não faz sentido haver um Dia Internacional da Mulher. Embora a intenção possa ser louvável, resulta numa discriminação. Em mais uma. Do mesmo modo, embora eventualmente condenando a celebração, o Aventar reservar esse dia para a colaboração de mulheres, pareceu-me ser um erro a não repetir. Até porque, no meio de bons textos (alguns de homens) apareceram coisas de uma vulgaridade extrema. Acho que as críticas de Raúl Iturra fazem sentido. Embora não tivesse perdido tempo a fazê-las.

  7. Raul Iturra says:

    Não é simples responder a comentários tão diferentes, nascidos de ideias muito pessoais. Apenas cabe responder pela sua ordem de aparição no texto. Não sei quem é Francisca, não está na lista dos membros do nosso espaço de debate. Apenas sou capaz de ripostar que bem longe de mim a ideia de ofender: não é o meu hábito e não fui assim educado. Senhora Dona Francisca, faz-me sentir o “tonto da aldeia”. Talvez se se tiver lembrado de ler a parte final do meu texto, seria em outra ideia que basearia o seu comentário. Não esqueça a mulher que eu esqueci de mencionar: Marie Curie. A história reza assim: Cientistas franceses. Pierre Curie inicia as suas investigações científicas dedicadas ao estudo das radiações infravermelhas, em colaboração com Desains, e dos cristais, com o seu irmão Paul-Jacques, e descobre em 1880 a piezo-electricidade. Em 1895 casa-se com Marie Sklodowska e, em colaboração com ela, descobre materiais radioactivos diferentes do urânio. A partir da pechblenda conseguem isolar o polónio e o rádio (1898). No mesmo ano descobrem o rádon, gás radioactivo, e, no ano seguinte, fixam o fenómeno da radioactividade induzida. Após a morte de Pierre, atropelado por um veículo, Marie prossegue as suas investigações. Em 1910 obtém o rádio em estado metálico. O casal Curie recebe o Prémio Nobel de Física em 1903, e Marie recebe o de Química em 1911. Falece de uma leucemia produzida pela sua excessiva exposição a substâncias radioactivas. É esta ideia que procuro nas relações humanas. Quando falo de masculinizar a mulher, refiro esse dia de licença que os gestores de Aventar dão ao sexo feminino para comemorar o Dia Internacional da mulher, criado a começos do Século XX, para limpar as injustiças que a Revolução Industrial cometera com as mulheres ao longo dos Séculos XVIII e XIX, bem com limpar também esse retiro da mulher do lar para poder colaborar com outros dos dois sexos e de diferentes idades, que deviam trabalhar na manufactura desde a madrugada até entrada a noite. Infelizmente o texto que analisa este facto, ainda não foi a editora: Marx, um devoto luterano. A ideia da existência de um dia internacional da mulher foi proposta na viragem do século XX, no contexto da Segunda Revolução Industrial, quando ocorre a incorporação da mão-de-obra feminina em massa, na indústria. As condições de trabalho, frequentemente insalubres e perigosas, eram motivo de frequentes protestos por parte dos trabalhadores. As operárias em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos contra as más condições de trabalho e os baixos salários, em 8 de Março de 1857, em Nova Iorque, a 25 de Março de 1911, um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist mataria 146 trabalhadores – a maioria costureiras. O número elevado de mortes foi atribuído às más condições de segurança do edifício. Este foi considerado como o pior incêndio da história de Nova Iorque, até 11 de Setembro de 2001. Para Eva Blay, é provável que a morte das trabalhadoras da Triangle se tenha incorporado ao imaginário colectivo como sendo o facto criminoso que origina o Dia da Mulher. Esta fonte pode ser lido em: http://www.piratininga.org.br/artigos/2004/01/blay-8demarco.html
    O Dia Internacional da Mulher, celebrado em a 8 de Março tem origem nas manifestações femininas por melhores condições de trabalho e direito de voto, no início do século XX, na Europa e nos Estados Unidos. A data foi adoptada pelas Nações Unidas, em Dezembro de 1977, para lembrar tanto as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres como as discriminações e as violências a que muitas mulheres ainda estão sujeitas em todo o mundo. Em 1975 foi o Ano Internacional da Mulher.

    Desde então, a data também tem sido utilizada para fins meramente comerciais, perdendo-se parcialmente o significado original.
    Este excerto do meu comentário é o que me leva a criticar essa licença para permitir que no nosso sítio de debate, seja um dia para as mulheres, e apenas elas, escreverem. E os outros dias, quando há mulheres escrevem, especialmente Maria Monteiro e Ana Paula Fitas, Daniela Major, Carla Romualdo? Lamento ter ofendido os seus sentimentos. A minha intenção era apenas criticar um dia especial para as Senhoras, separando-as do grupo social, composto, de forma igual, por homens e mulheres. Entendo que o Ricardo lamente esse meu não entendimento. Penso que entendi e por isso protestara: os tempos das lutas pela igualdade já não são necessários, o neo-liberalismo acabou com a diferença. O meu protesto é que a mulher, para nós homens, é, além de iguais e trabalhadoras, as pessoas que podemos amar e nos reproduzir. É natural oferecer uma Camélia a quem sofre por trabalhar, dar a luz e criar à infância. Deve ter sido essa a sua intenção no seu comentário, que não define nem especifica o meu engano: fico sem saber qual é….
    Luís Couto Monteiro fala da liberdade de falar, mas, meu Caro Luís, com base, com citações, com factos que substantivem essa liberdade de expressão. Quanto ao João José Cardoso, conheço a história. Essas grandes guerras deram outro papel a mulher fora de casa, a que nem queriam retornar pelos motivos que analiso no meu texto: tinam conquistado a sua liberade de trabalho e coordenado com o seu marido ou companheiro, quem a as horas, de tomar conta das crianças, essa alegria do lar que o liberalismo de Milton Freedman e Rose Maria converteram num pesadelo: as crianças não produzem, gastam! É apenas ler um dos seus livros, traduzido à língua lusa por Europa-América, (1980 original em inglês) 1979: Liberdade para Escolher. Não há liberdade nenhuma, digo eu, com analista de crianças e dos seus pais, excepto se há fortuna, como os Freedman pensam, e um membro do casar ou servidores por eles tratados, permite a liberdade dos pais. E esse carinho do convívio, apenas para os proletários, que organizam turnos para tomar conta da família. A minha crítica a masculinização da mulher vá por outras vias: o homem manda e permite, as tantas, um dia especial, sendo para mim, todos esses dias especiais. Como bem sabe, João José, a licença pós parto em Portugal, o é para um ou para o outro. Se o trabalho da mulher não pode parar, fica o homem em casa durante seis meses. O que provocou o meu protesto, foi o desenho que o meu amigo comenta de forma masculina, porque essa frase em português não é outra que a tradução da música dos Beattle: consigo faze-lo crescer. O que? O que João José explica. Maria Monteiro cita uma frase minha e, na sua simpatia de senhor, comenta que somos todos iguais – a mina hipótese mas que, as tantas, há desvios. E os há, Maria: “You can make it out”, base da frase de uma mulher operária do desenho, toda musculada, é uma imagem que desvia a atenção dos nossos administradores, para o que não queríamos: a mulher é mulher, é geneticamente diferente do homem mas na vida social é igual, não precisa da nossa licença, o amor e afectividade permitem esse deambular por sítios diferentes, sem ferir com falta de amor e fidelidade. Ora bem, se o homem tem esse direito ganho na história a organizar escapadas do casal, porque a mulher não? Enquanto a amemos, merece essa flor, se formos correspondidos, o que nem sempre acontece: o amor é um força da natureza, não apenas em países latinos, no mundo todo onde a libido definida por Freud em 1922. D. Francisca, o seu comentário, triste como ele é, tem provocado em mim esta longa resposta. Mas não digo, excepto, como sabe a mina mulher, fui ensinado a ser eu, másculo, quem seduz e a mulher corresponder a essa sedução de forma simpática e sedutora também. Os dois trabalham, os dois sustentam a casa, os dois têm libido que, as tantas, deriva para outras pessoas, sejam do esmo ou diferente sexo. O desenho é a protecção que o homem pretende exercer sobre a mulher. Esse é o meu protesto, baseado nas minhas psicanálises de pessoas de diferentes partes do mundo e de diferente classe social.
    Confesso, sim, que podia ter escrito o meu ensaio a partir destas ideias, para não enganar ninguém, que somos iguais, com ou sem estudos, somos. Que existem escapadas, não há divindade para a esconder: um e outro sabem, no fim, o que acontece na liberdade de expressão emotiva…Lamento se ofendi, mas estou certo que não. E se assim for, peço desculpas. Homens e mulheres sonos todos iguais, com essa diferença de sedução que nos faz arder…de paixão…

  8. Raul Iturra says:

    Lamento ter lido o comentário de Carlos Loures depois de escrever o texto. Concordo com ele, o nosso sítio de debates está a piorar. Agradeço a sua simpatia e doravente, a bola, as mulheres, as licenças groseiras de pessoas que se sentem por cima de outras, acabaram comigo. Espero à tarde escever sobre músicos, escritores, infência e outros temas eruditos. Há um límite cultural para fazer dos nossos textos, leituras sabias

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