No aniversário do Aventar

O Ricardo Santos Pinto não sabe que, quando me convidou para integrar o projecto de um novo blogue, que estava para nascer, mudou a minha vida. Ou talvez possa pensá-lo mas não creio que saiba exactamente até que ponto assim é.

Mudou-a porque introduziu um elemento que foi ganhando importância, que se imiscuiu no quotidiano, que se foi entrelaçando nessa tela que é a vida de cada um de nós até se tornar um dos seus fios.

Recordo-me de nessa noite inicial ir espreitar, à meia-noite, o Aventar, onde acabava de ser publicado o poema “Coro”, e de pensar que começava uma aventura e de sentir essa excitação que acompanha o início de todas as aventuras. Nessa noite o Aventar foi abaixo (lembram-se?), inaugurando uma já respeitável lista de intermitências, mas regressou, como sempre faz, e eu embarquei, com a insegurança dos principiantes mas com entusiasmo.

Nas primeiras semanas, respondia aos comentários dos meus colegas sem saber quem era quem. Confundia o Zé Freitas com o Luís Moreira, o Isaac com o Miguel… à excepção da Glória, eram todos homens e, não havendo um rosto para associar ao nome, era impossível saber quem era quem. Pouco a pouco, os nomes passaram a ganhar relevo, distinguiam-se uns dos outros, possuíam atributos próprios, uma personalidade, quase um rosto.

E assim se foi construindo um conjunto de relações de maior ou menor cumplicidade, mas sempre alicerçadas no respeito mútuo e no gosto por partilhar um projecto. E quando finalmente nos conhecemos não houve assombro, nem excitação em demasia, foi apenas uma outra forma de estar à conversa com os amigos. Agora com vozes, e rostos, e riso, mas os mesmos de sempre. A equipa foi-se ampliando, e o Aventar teve as suas crises de crescimento, mas parece-me evidente que esse crescimento se tem traduzido em mais qualidade e mais pluralismo.

Como já te disse várias vezes, estou-te grata, Ricardo, pelo convite. Por aqui tenho tido o grande prazer da partilha, sem outro interesse de maior do que a de contar como vejo o mundo e de poder descobrir, ainda que por instantes, esse mesmo mundo visto pelos olhos de outros. E por aqui tenho descoberto que a amizade pode nascer de múltiplas formas, e nutrir-se apesar da distância no quotidiano.

Estou grata a todos os que nos lêem e enriquecem os nossos textos com os seus comentários, e estou grata a todos os meus colegas. Entre todos vamos fazendo essa coisa assombrosa nos tempos que correm, que é dar vida a um projecto colectivo, que se nutre do prazer que cada um retira da sua participação. E haverá mais saborosa expressão de liberdade que a de conceder o nosso tempo e entusiasmo, não pela imposição das circunstâncias, mas pelo prazer de fazê-lo?

Parabéns a todos nós e continuemos a aventar!

Comments


  1. Já o disse, mas aqui é o local próprio para o afirmar: os teus textos são um factor de qualidade importante para o blogue. Os teus textos são, de uma forma geral, muito bons – alguns, mesmo excepcionais. Estou certo que traduzo o que todos pensam se disser que és um grande elemento do Aventar.

  2. Carlos Fonseca says:

    Carla, ingressaste com insegurança e entusiamo, e também com enorme talento. Meio a brincar, digo-te: “não sejas modesta”. Mas olha que é o que penso.

  3. Pedro says:

    Eu, como sabes, entrei numa das últimas “fornadas” e tem sido um prazer partilhar este espaço contigo/convosco. É verdade, o Aventar entranha-se e passa a fazer parte das nossas vidas.

  4. carla romualdo says:

    Muito obrigada a ambos. Um abraço


  5. É com muito prazer que agradeço ao Ricardo o ter-te convidado para aqui estares.
    É com igual prazer que leio os teus textos, na sua generalidade muito acima da classificação de Bom.
    Obrigado Carla por andares por aqui

  6. Raul Iturra says:

    A seguir é a minha vez, mas queria acrescentar as minhas palavras às dos meus colegas deste maravilhoso sítio de debate.
    Ricardo, para mim, é uma divinidade: está em todos os sítios, o sabe todo, mas ninguém o ve! Repare que quem fala é um agnóstico-esses que os outros que não sabem teologia, patrística e direito canónico, denominam enganadamente ateu, que quer decir um acredetitar sem saber- pelo menos Abraham o viu na zarza ardente e Moisés no monte Sinai, como os cristãos aramaicos que ai moram sabem bem. A ver se faço uma fogueira em casa e me dicta a lei. Bom, essa também não, ja dicta tantas, ó meu Senhor…

  7. maria monteiro says:

    é uma sensação boa esse percurso que começa por nomes, escrita, opiniões,… e uma amizade que nasce mesmo antes da visibilidade dos rostos

  8. Carla Romualdo says:

    Um grande abraço a todos

  9. Ricardo Santos Pinto says:

    Obrigado pelas palavras, Carla. E sobretudo, obrigado por teres aceitado o meu convite. E repara que te convidei sem nunca ter lido uma única linha tua. Mas sabia! E pensar que te conheci, no Guarany, cheio de medo por ir vestido de cor-de-laranja…

  10. Luis Moreira says:

    Ah, bom, conta-me dessas.Tu para me convenceres dizias que a Carla era uma maravilha, afinal mal a conhecias. Mas, acertaste, a Carla é mesmo uma maravilha.


  11. Atrasado mas ainda a tempo de te dar os parabéns e também ao Aventar por ter trazido até cá.

  12. Emilio Rubio says:

    También mudó la mía.

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