de menina subordinada a figura carismática

a capacidade de acolhimento universal de uma mulher carismática
Nel Museo dell’Opera del Duomo di Firenze. Foto personale aprile 2005.

Ensaio de etnologia da infância

Para a Senhora Engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo

Por assuntos vários, tive um desgosto hoje e lembrei-me deste texto dedicado a uma amiga:

Vamos andando, Maria de Lourdes. Vamos andando. Com passo lento, com memórias, cheio de respeito. Um passo que acompanha um modelo de comportamento. Vamos andando ao ritmo das minhas letras, enquanto a nossa Antiga Primeira-ministra é levada a descansar.
Ritual, esse, que evito presenciar, desde o tempo em que a ditadura do meu País de origem não me permitiu acompanhar os meus pais. Palavras que acompanham o ritual evitado. Vamos andando sem falar, ao lado da Senhora Engenheira e a pensar nas suas causas: procura da igualdade não existente para as mulheres que o etnocentrismo português tem rapinado para nós, homens, e que Maria de Lourdes começou cedo na vida a lutar para recuperar. Com base numa ideia escrita, essa que é a nossa primeira escola ou ensino, aceite ou não, mas que constitui uma realidade cultural: a aprendizagem da Bíblia e do Catecismo; ou essa outra que nunca é mencionada, mas que é conhecida por todos, a Lei Civil, que até 1956, na idade da sua infância, colocava a mulher em terceiro lugar, a seguir ao homem e à descendência; ou ainda, a lei costumeira proveniente da mitologia, derivada do ideal Mariano, que Maria de Lourdes costumava dizer era a sua missão na vida mito básico para pautar as nossas vidas, republicanos ou não, dentro da interacção cultural.

Ideias que se queriam mudar durante a sua infância e a dos seus pais, mas apenas conseguido no desempenho da sua actividade, ao entrar no Ministério da Segurança Social no 25 de Abril, contempladas pelos mais novos, como foi o caso de Maria de Lourdes em pequena. Numa época que separava estritamente as crianças femininas das masculinas, ao atribuir maior valor às masculinas e relegando as pequenas a cerzir, tomar conta da cozinha, tratar dos mais novos e, especialmente, que dispensava de assistir à escola toda a rapariga que tivesse passado nos anos 40 do Século XX a primeira classe, independentemente da classe social.

Vamos andando no cortejo, no modelo, para demonstrar que é esta a forma processual que pode levar às mudanças que ainda acontecem no nosso País durante 30 anos, por causa da lei costumeira, apesar da luta empreendida por grupos de mulheres que, sem abandonarem essa feminilidade requerida pela vida social, alcançaram sítios de poder e lutaram contra o machismo social. Feminilidade que adjectiva, como diz a minha padroeira Alice Miller, em 1986, dividindo o mundo em dois: esse do poder masculino que manda sem esperar resposta; esse do não  poder feminino, sinónimo de força de trabalho, que obedece, como mandava o ritual romano nos Cânones 1055 a 1162 até 1981: as pessoas não eram semelhantes no contrato, a mulher devia obediência e submissão ao marido, tal como mandava a Lei Civil do Século XX, nos Artigos 1587 e seguintes, e, como legisla o Catecismo de 1991 nos artigos 1601 e seguintes, especialmente ao falar do consentimento no 1625, artigos sobre o rito romano do matrimónio, que contextualiza a Lei Positiva.

Formas de pensar mudadas pela intervenção de algumas Pintasilgo e outros republicanos, que têm feito do seu viver uma missão na procura da não diferenciação entre sexos quanto ao consentimento, vontade, direitos, obrigações e entrega à solidariedade. Uma entrega à caridade que não faz distinção no ponto mais importante da vida social: classe e recursos.

Uma primeira Engenheira Química Industrial e Maria Amélia Índias Cutileiro de Portugal, embora em Física. Uma primeira Primeira-ministra de Portugal, porque já existiram, por bem ou por mal Indira Ghandi, Margareth Thatcher, Benazir Bhutto; uma Primeira Candidata à presidência de um país machista, Isabel Martínez, Argentina, Vigdis Finnbogadóttir da Islândia, Violeta Chamorro da Nicarágua, Mary Robinson da Irlanda, Presidentas eleitas em voto popular, entre outras.

É verdade que o denominado sexo feminino tem tido raro acesso ao poder central e, menos ainda, no nosso Portugal, este pequeno País dentro do qual a mulher tem sido muito relegada ou, por vezes, se conseguir alcançar o poder político, o seu agir é, como se denomina, masculinizado por nós, os homens. Ou, por outras palavras, há um comportamento associado ao trabalho, que nós definimos, para quem chegar primeiro a um certo lugar habitualmente ocupado pelo género masculino. Pode-se ser Doutorada em Física, mas não a primeira. Sim, a primeira em Química Industrial. Sim, a primeira no mais alto sítio do poder. Sim, a primeira no Conselho de Estado. E, especialmente, a Primeira em entender que a sua Crença, essa com que eu me tenho batido por etnocentrismo o Euro 2004 não foi nosso, foi da Nossa Senhora, pois até o guarda-redes tinha prometido uma romaria a Fátima se ganhasse. É a luta das pessoas com Carisma que sabem dizer ao Dr. Cunhal que a romaria a Fátima, a seguir ao 25 de Abril, não é uma manifestação política, é apenas uma forma simples e habitual de se recorrer no dia em que o inesperado acontece a liberdade.

Um comportamento modelar na simplicidade, nas cores da indumentária, no penteado, na forma firme de falar e de lutar por povos fora de Portugal, em nome de Portugal. Aí Maria de Lourdes foi a Primeira ao abraçar uma crença central na sua vida, sem se afundar em homilias e passar da ideia central catequista de amor ao próximo, à luta pela solidariedade social, o Primeiro lugar político que ocupou em Democracia.

Vamos andando, lentamente, Maria de Lourdes, em silêncio, apenas com o Hino Nacional e as palmas, para nos acompanhar. Lentamente, por teres sido um modelo para as raparigas portuguesas que têm seguido os teus rumos no mesmo campo, como Lígia Amâncio, entre outras e em silêncio, como Graça Cordeiro, Rosa Maria Perez, outras do meu conhecimento; especialmente no campo da Etnomatemática e da Etnofisiocracia, como Darlinda Moreira e Amélia Maria Frazão. E a quantidade de nomes de mulheres que lutam caladas pelos novos saberes, como Berta Nunes e Teresa Joaquim. Todas elas lusas, como Maria de Lourdes. Com Carisma, conceito definido por Martin Lutero nos seus textos de 1599 e retomado, para análise, por Max Weber em 1904 e pelo mentor da recente guerra do Paquistão, Tony Giddens, em 1966.

Vamos. Andando em silêncio. É a hora de calar. Apenas acrescentar que a fundadora do GRAAL lutou por causas perdidas entre as nossas definições, masculinas, e ganhou. Exemplo é esta multidão que imita e acompanha, como na luta Primeira. Porque, é a sua autoridade incontestada radiante de Carisma, que as novas crianças vêem e respeitam. Vamos calando.

Uma pequena lágrima por companhia. Em olhos bem abertos e nunca fechados para observar o comportamento de mulheres que souberam servir a sua Nação. Obrigado, Senhora Engenheira, Primeira Primeira-ministra de Portugal, muitas mais vão seguir esse exemplo. E nós a respeitarmos. Vamos andando. Passo-a-passo. Para o merecido descanso.

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