A ministra ignora ou esconde?


Por SANTANA CASTILHO*

Quando exprime certezas, erra grosseiramente. Quando responde, afunda-se em equívocos. Quando analisa, não vê os factos. Catita no vestir e no pentear, eis Isabel, leve no pensar, ministra da Educação e fantasista por compulsão.
A vacuidade e a imprecisão continuada do discurso, primeiro em entrevista ao Expresso de 31 de Julho, depois a vários canais televisivos para emendar a proposta de banir os chumbos, obriga ao exercício penoso de contraditar e esclarecer. Não cabendo tudo, escolho o mais danoso. O Expresso perguntou: pondera então alterar as regras de avaliação durante o seu mandato? A ministra respondeu: pondero. O Expresso insistiu: e está disposta a lançar esse debate para acabar com os chumbos? A ministra respondeu: sem dúvida. O Expresso considerou: muitos dificilmente concordarão com o fim da retenção. A ministra respondeu: por uma questão de tradição. Quando se deu conta da leviandade da proposta e de que muitos não concordavam, a ministra veio às televisões dar o dito por não dito, socorrendo-se dos países do norte da Europa, cuja realidade ignora.
O objectivo de qualquer sistema de ensino é que todos aprendam. Mas em todos os sistemas há os que falham. A quantidade dos que falham é consequência de uma gama enorme de variáveis. Umas podem ser intervencionadas directamente pela escola e pelos professores. Outras não. Dependem dos próprios alunos. Das famílias. Da cultura vigente. Da consciência cívica dominante. Da qualidade dos sistemas políticos, da competência dos que mandam, da natureza das escolhas que são feitas e das prioridades que se estabelecem. Os métodos pedagógicos variam.
Mas nenhum sistema sério diploma a ignorância como tem sido feito pelos dois últimos governos de Portugal. Esta é a questão e este é o conceito do tradicional chumbo: enquanto um cidadão não sabe o que está estipulado, o Estado sério não diz que ele sabe. E assim postas as coisas, obviamente que há chumbos nos países do norte da Europa. Invoco, por todos, o caso da Noruega e socorro-me da publicação oficial “Facts About Education in Norway, 2010”. Na página 11 verifica-se que só 56 por cento dos alunos do secundário completaram o respectivo ciclo de estudos no tempo previsto. Houve 27 por cento de abandonos ou chumbos, 12 por cento que necessitaram de mais tempo e 6 por cento que ainda o tentavam concluir no momento da recolha dos dados (27+12+6 dá 45 e não 44, mas o erro é da própria publicação citada). Não se chumba lá? Nas páginas 22 e 23 estão as tabelas da relação do número de alunos para cada professor: 4 no pré-escolar, 12 no básico, 8,5 no secundário e 11,9 no superior. Ora a nossa ministra da Educação disse ao Expresso que turmas de 15 e menos alunos apresentam baixas taxas de sucesso, quando ela sabe bem que essas são turmas com os alunos mais problemáticos do nosso sistema e só por isso, que não pela dimensão, registam baixos índices de aproveitamento. Foi séria tal referência? Na página 8 da publicação que cito, verificamos que mais de 40 por cento das escolas básicas da Noruega são de reduzida dimensão, tendo crianças de idades e níveis diferentes a serem leccionadas na mesma sala (escândalo, paradigma de outro século, segundo os cânones de Isabel Alçada). Se formos à Suécia, a situação é análoga. Os países do norte fazem o contrário do que aqui acaba de ser imposto. Como comentaria a ministra se a tivessem confrontado com a realidade que ignora ou manipula?
Referindo-se às competências que os alunos devem adquirir no ensino básico, a ministra teve o topete de dizer ao Expresso que “nem existe documento que as defina”. Grosseira mentira. Existe e sobre ele correram rios de tinta.
Isabel Alçada distorceu os factos quando falou de Inglaterra, onde o insucesso escolar está na ordem do dia. Basta só ver o número dos que não obtêm o certificado que lhes abre as portas das universidades.
Isabel Alçada não faz a mínima ideia do que se passa na Finlândia ou finge que não sabe, o que é pior. Mais de um quarto dos alunos do sistema tem apoios complementares e 8,5 por cento são objecto de educação especial, segundo uma tipologia rigorosa que aqui foi banida. Todo o ensino é totalmente gratuito e a profissão de professor é das mais prestigiadas. Os normativos duram décadas. O direito ao ensino obrigatório pode ser revogado se os alunos não cumprirem as regras. Um comité aprecia as infracções e pode determinar soluções alternativas. Esta é uma questão tabu que não se discute entre nós, por complexos políticos. Boa parte dos alunos que não aprende nem deixa aprender não quer estar na escola. As famílias desses alunos pensam e agem como eles. Faltam, agridem, perturbam e nada acontece. Realidade bem diferente da dos países do norte da Europa, onde a fortíssima consciência e cultura cívicas impedem situação semelhante.
Termino com números, colhidos das estatísticas oficiais da OCDE e relativos a 2006, expressos em dólares americanos. Portugal gastou com cada aluno do básico, secundário e superior, por ano, respectivamente, 5908, 7052 e 9724. Pela mesma ordem, eis os gastos dos nórdicos. Finlândia: 7570, 6585 e 12845. Noruega: 9781, 12559 e 16235. Dinamarca: 8854, 10400 e 15391. Suécia: 8032, 8610 e 16991. Se atendermos ainda a que desde 2005 as nossas despesas com a educação diminuíram sempre e fortemente, o contraste diz o que Isabel Alçada escondeu.

* No Público.

Comments

  1. Isabel Diogo says:

    Importa ler o “agradecimento” de Paulo Guinote assim como os diversos posts publicados ao longo dos últimos dias no blogue “A Educação do meu Umbigo”

    “Agradeço Ao Professor Santana Castilho…
    Posted by Paulo Guinote under Más Práticas, Vergonhas

    … a divulgação que faz, na sua crónica de hoje no Público, dos dados aqui divulgados nos últimos dias sobre os sistemas de ensino do norte da Europa.

    Mas só porque cita directamente quadros e dados de tabelas aqui usados é que eu sei que são os que levei 2-3 dias a pesquisar, pois esqueceu-se de uma gentil referência à origem da informação recolhida, preferindo remeter para os documentos de origem.

    Claro que poderá ter sido ele a encontrar as mesmas coisas, nas mesmas páginas, dos mesmos documentos, porque quem sabe pesquisar certamente lá chega. Possível, é. Provável, nem por isso. Credível, não.

    Em especial porque no último parágrafo remete para dados da OCDE, quando o quadro que eu usei (tendo como fonte a OCDE) é de um documento do ME dinamarquês, o que revela que a preguiça imperou.

    (…)”


  2. A parte final desta crónica revoltou-me quase tanto como uma de idos de 2002 em que SC escrevia muito do que agora desdiz:
    http://www.apfn.com.pt/Noticias/Fev2002/publico23.htm

    Só não me revolto mais, porque desta vez apenas há um “lesado”.

    Mas é triste, muito triste que se usem dados alheios, recolhidos com algumas horas de trabalho, sem sequer…

  3. Albino Soares says:

    Paulo, não lhe tiro um grama de razão, vou admitir sem questionar que você tem 100% de razão naquilo que afirma. Mas convenhamos, a sua reacção é um tanto exagerada por tão pouca coisa. Garanto-lhe que já pesquisei muito material e não fui reconhecido por isso. Umas horas de pesquisa não valem esta reacção. Não estamos afinal a falar de “rocket science” não há grandes originalidades à espera de serem encontradas na área da educação (ao contrário do que se pensa no ME)…

    Nesta questão, como quase sempre, o problema em discussão é mais importante que um orgulho ferido. Com uma demonstração de ultraje tão veemente acaba por prejudicar toda a argumentação sã do que se está a passar. Note bem, não o pretendo atacar de forma nenhuma, mas este tipo de actuação é demasiado normal neste pequeno país (em todos os sentidos) pelo que não podia deixar de referir este ponto.

    Sugiro-lhe que escreva ao Prof. Santana, em primeiro lugar, a pedir-lhe explicações. Se pensa que vale mesmo a pena peça ao seu advogado para lhe escrever a carta. Pode tb tentar uma carta aberta. Mas por favor não misture as coisas.

    Por fim, em qualquer trabalho minimamente sério devem ser sempre citadas as fontes originais. É claro que manda a boa educação atribuir o mérito a quem o tem – mas é só isso – boa educação.

    O problema hoje em dia é conseguir analisar de forma significativa o mar de informação à nossa disposição, depois de 5 minutos de busca:

    http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/education/data/main_tables

    http://www.oecd.org/document/54/0,3343,en_2649_39263238_38082166_1_1_1_1,00.html

    http://www.pordata.pt/azap_runtime/?n=25&ThemeId=17

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