A Tirania do Preconceito

O texto de Francisco José Viegas recordou-me como a opinião publicada é ainda mais centralizadora que o Estado.

No passado foi a relação extraconjugal de Sá Carneiro – onde andavam os meninos e as meninas da esquerda caviar por essa altura? Depois foi Cavaco Silva e as suas origens modestas. Hoje é Passos Coelho o filho de um médico de província que vive nos arrabaldes da suspirante metrópole.  Como sempre foram o António, a Maria, a Felisbela, o Fernando, o Marco, a Isabel, o Carlos, o Jorge ou o Rui nascidos no Porto, em Vila Real, Viseu, Évora, Faro ou Braga e sempre desconsiderados por essa pretensa elite pensante por não terem nascido no eixo Lisboa-Cascais nem serem filhos de distintos Republicanos da capital ou de Monárquicos do mais puro-sangue azul.

Depois são os gordos, os baixinhos, as gordas e as baixotas, os feios e as feias, as desdentadas ou os carecas. É a tirania. Qualquer coisa serve para afastar os que não pertencem à clique. Os que não se enquadram na célebre máxima das públicas virtudes/vícios privados ou que não nasceram/vivem no bairro de Alvalade, nos quelhos do Estoril, nas vielas de Cascais ou nas belas propriedades de Sintra, sem esquecer a Lapa. Nós, os bárbaros, nascidos entre os calhaus do Douro, os batatais do Minho, as tripas do Porto ou os móveis de Paços/Paredes/Rebordosa, eu sei lá que mais, servimos apenas como meros adereços, como motoristas ou criadagem. Até ao dia, um dia, destes.

Normalmente, nas horas de aperto, quando o país se afunda e o povo se farta, eles, os bárbaros, são chamados a por ordem na latrina irrespirável. Quando assim acontece, os outros, os puros, os arianos da treta, lançam mão deste tipo de atoardas mostrando a sua verdadeira natureza: por muito banho que tomem, por muito que raspem e voltem a raspar com esmero a planta do pé, não há meio da terra, essa marca indelével da nossa estirpe, desaparecer.

Foi deles, destes senhores e destas senhoras pertencentes à tirania do preconceito, que me lembrei quando vi os ataques de que foi alvo Elisabeth.

Comments

  1. Elisabeth Butterfly says:

    Concordo em tudo, meu caro Fernando. Obrigada!

  2. burns says:

    que se podia esperar desses serventuários do regime?

  3. silva says:

    A quantas empresas o governo deu apoio para o desemprego. A mulher a dias do ministério do trabalho não decide nada o caso do despedimento colectivo de 112 familias do casino estoril que com milhoes de lucros e com apoio do governo e ninguem investiga quem está por detrás desta ilegalidade que destroi 112 familias.
    Porquê tanto medo de se investigar O casino estoril quem ganha com os despedimentos ilegais neste país para enriquecer há custa dos precários.

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