as crianças, essa pequenada que nos faz rir e manda em nós

as crianças gostam reir e mandam em nós

Excerto da Introdução do meu livro O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, 1ª edição, Escher, Lisboa 1997, 2ª edição, Fim de Século, Lisboa. Para alegrar a vida após tanto debate sobre política educativa…

“Olá padrinho!”, diz a pequena quando lhe telefono para saber dela. Uma voz entusiasta que me cumprimenta com um carinho que, certamente, aprendeu dos seus pais e avós. Pais e avós que, por seu lado, aprenderam o entusiasmo pela vida e pelas pessoas dos seus próprios pais, bem como de toda a sua ancestralidade.

Ou será o contrário? Será que os pais têm ensinado a pequena a exclamar o entusiasta e alegre “olá” que me enche de emotividade e de prazer e, porque não dizê-lo, de lágrimas afectivas o canto dos olhos? E canto-lhe. E ela canta-me. Trocamos cantigas em línguas diferentes. Tal qual essas outras duas pequenas, hoje adultas, académicas profissionais que, quando tinham a mesma idade daquela de quem agora falo, corriam para a cama nas noites de Inverno, bem cedo, para ouvirem as suas histórias preferidas, lidas pela voz do pai; um pai sentado na alcatifa verde que contava que o Capuchinho Vermelho saía para o bosque para bater no lobo e depois comê-lo. Versão prontamente corrigida por ambas, porque o mito não faz para elas sentido virado do avesso.
A pequena do olá padrinho ,que também já ouviu a história ao avesso mil vezes, ri e comenta tu és maluco, e olha com cumplicidade para o pai. E todos rimos. Assim como, só e em silêncio, ri esse outro pai que escreve o seu livro com a filha pequena no colo, enquanto o Fidélio de Beethoven mantém quente e calmo esse bebé de dias que ouve a voz do personagem com o seu nome cantar com um timbre parecido com o da voz da mãe que o amamenta.

Os “Olá padrinho!”, os “pai, não é assim”, o silêncio após o pranto que permite a concentração do adulto no seu próprio texto, contam a história de como as crianças mudam a nossa existência.

Era com amor que eu ouvia a voz da minha própria mãe que, docemente, juntava o meu corpo ao dela e cantava a inesquecível música de Granados, especialmente uma sevilhana andaluza de 1892 que já a sua mãe lhe cantava. Essa voz que se tinha modificado, esses braços que tinham abandonado a guitarra clássica, esses dedos que tinham deixado o piano para embalar o corpo forte e novo do filho longamente esperado; ou o colo quente desse pai que, pelas tardes, guardava silêncio enquanto eu adormecia a ouvir o Concerto para Violino em Ré de Tchaikovsky. Amorosos exemplos de como a infância faz mudar o comportamento dos adultos, os quais, sem ficarem nem em público nem em privado, ao serviço ou sob o comando da pequenada, acabam por constituir essa sociedade que apaparica o doce e dinâmico imaginário do pequeno ser. Será que esta história encantada é universal?

II

Não reclamo a universalidade da doçura entre duas gerações em contacto filial. Nem todos tinham o hábito de começar os seus estudos e leituras às quatro da manhã, porque nem todos podem estudar ou possuem disciplina para os textos, nem meios para um estudo privado em casa. Na sociedade de classes em que vivemos, apenas poucos correm pelas letras escritas. Muitos acordam às quatro da manhã para ir para o trabalho que, distante de casa, espera o seu corpo que custa à fábrica, à empresa ou ao proprietário da terra meio tostão: o salário. O salário de quem podia, e até queria, ficar com a criança e cantar, rir, mimar; e que, contudo, até se consegue libertar da rigidez que a vida socioeconómica introduz no seu corpo, pelo pedido de trabalho, pelo sentimento de culpa impresso no espírito e no inconsciente, quando não se consegue levar para casa o que é devido ética e legalmente.

E esses mesmos adultos, submetidos a outros, acabam por andar em sonhos, fantasias e melancolias – hoje denominados depressões e rompimentos de tabus, ou histeria, neuroses, psicopatias –, sonhos, fantasias e melancolias que definem que a pequenada seja trabalhadora, autónoma e independente, sábia no ofício ou na profissão ou, com sorte, na vida doutoral, quando atinja a idade adulta ou a vida reprodutiva. Nem todos os pais entram doce e silenciosamente de manhã no quarto das crianças para acordá-las docemente com uma canção ou um poema ou um beijo. Um acordar que prepare o dia com o apoio afectivo que não fere pelo barulho. Facto que permanece não apenas na memória mas também no comportamento. A cultura manda, e a lei diz, nesta nossa fálica sociedade, que a criança deve ser um adulto muito cedo, e cedo entenda a interacção, as hierarquias, as opções, o valor do dinheiro, o valor de si próprio, para melhor se vender no mercado de trabalho. Mercado que faz dos seres humanos pessoas duras na voz, com sentimentos afastados, com um autoritarismo omnipotente; que faz acreditar que a criança nada sabe, nada entende, nada faz se nada lhe é dito, gritado e reiterado com punições. E a criança, esse futuro adulto, procura o mimo, foge para dentro do imaginário com o qual apalpa o real. Um real que os adultos actuais lhe oferecem, dentro da fantasia de opções e alternativas com as quais procuram na vida o único bem-estar que, enquanto adultos, entendem ser o melhor para as crianças: disciplina, obediência, subordinação. A ética, o melhor legado que, na sua emotividade, entendem dever entregar. E o dinheiro, definido desde o século XII como o melhor bem a possuir. Porém, a criança usa o seu imaginário entre os que sabem da sua epistemologia e prazer.

III

São estas ideias acerca da identidade epistemológica que quero desenvolver ao longo deste texto. É mais um texto onde tento usar a Antropologia da Educação para entender o processo de ensino e aprendizagem tal como acontece no quotidiano; quotidiano do qual faz parte a estrutura institucional, a Escola, que reproduz não a prática mas sim o que os doutores analisaram, o poder ideológico definiu e os filhos do povo repetem para ouvidos distraídos entre os afazeres tecnológicos exigidos na vida actual. Uma epistemologia que o adulto, impaciente, não percebe na interacção histórica e social. Muitos povos não ocidentais entendem que há etapas diferenciadas nos ciclos individuais; e é assim que vão, aprofundadamente, orientando a passagem do corpo e da mente dos mais novos para etapas mais esclarecidas da vida social. O resto do argumento desenvolvo-o ao longo do livro. O que gostaria de acrescentar virá em próximos textos que estou a preparar sobre os Picunche, grupo social que tenho estudado no Chile, e no re-study, 25 anos depois, das crianças que conheci em Vilatuxe, Galiza.

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