as culturas da cultura: infantil, adulto, erudito (II parte)

continuação daqui

a cultura do adulta

adulto a se habilitar para a corrida pela vida

2ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral

1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007

A cultura do adulto

Tal como a infância, parece-me que a vida adulta não tem idade. É verdade que há textos legais que definem capacidades, com base na cronologia; contudo, o convívio que tenho mantido com tanto ser humano ao longo da vida, nas minhas diferentes idades e em continentes diversos, assim como em trabalhos de campo diversificados e prolongados, tem-me feito pensar que a cronologia está correlacionada com uma multiplicidade de factores.

Um deles parece ser o lugar social que se ocupa: quem define o que deve ser feito e quem obedece com o seu desejo de aceitar.

Um outro factor diz respeito ao maior ou menor envolvimento e entendimento que uma pessoa tem dos valores aceites pelos indivíduos de um grupo, classe, país ou Estado. Outro ainda diz respeito à passagem do tempo histórico que, em correlação com a tecnologia, vai acumulando experiência social que constrói uma memória. A lembrança de pessoas que convivem é heterogénea, porque foram criadas em épocas diversas, ainda que necessariamente próximas. Dessa lembrança nascem a capacidade de entender contextos e a aceitação de aspectos da vida de que gostamos e que nos desagradam, assim como se desenvolvem alianças estratégicas e associações.

O ser humano, como tenho observado, é mutável, porque é resultado da história. E a ideia que temos do adulto é apenas um paradigma, uma definição, uma expectativa: o seu comportamento varia conforme os objectivos individuais e sociais. Quer nos bairros quer nas aldeias e etnias que estudei, os mitos definem expectativas e comportamentos, aparentemente hegemónicos, definindo objectivos comuns, coincidam ou não com o objectivo da construção de cada um através da sua vida. Um outro factor é, ainda, aquilo em que se acredita e o futuro que se espera alcançar.

E, talvez, a mudança de hierarquia que toda a pessoa sofre – digo sofre, porque não há ritual no Ocidente que prepare para o lugar que se ocupa através do tempo. Pode parecer uma hipótese filosófica, se bem que seja retirada da actualidade cultural. Uma etnia Baruya (Godelier, 1982) ou Kiriwina (Malinowski, 1922) ou Manus (Mead, 1928), uma análise do tipo da de Goody (1972) no seu estudo do mito dos LodaGaba, o Bagré (1972a), ou esses textos de uma beleza e simplicidade transcendentais desse mestre que foi Meyer Fortes (1989 e 1959), ou, ainda, as manipulações analisadas por Leach em Pul Eliya (1961) acerca da conveniência da continuidade social, ergo o lugar e tempo de um birmano entre os seus; as estratégias que Bourdieu viu entre os Kabila (1972) e as que eu próprio testemunhei na Galiza (Iturra, 1973, 1976, 1991,1996, 2010), no Chile (1971 a, 1971 b, 1972, 1996,1998,2009) e em Portugal (1985, 1987, 1991,1998,2003,2007) definem nos factos o que a lei fixa a partir dos textos de Santo Agostinho (412) e de Tomás de Aquino, (1267). A vida adulta tem sido redefinida através dos conceitos do novo Catecismo Católico (1991) e da lei civil, desde que os países passaram a associar-se na Europa (1945, na ONU; 1958, no Tratado de Roma; 1992, em Maastricht), na África, no Oriente e na América Latina. Não cabe mencionar as ciências que criam definições somáticas, psicológicas, económicas, médicas, químicas, jurídicas, de solidariedade, de troca. Mauss (1924) e Firth (1929) salientam crenças, instituições e alianças, para decidir a vida adulta onde não se vêem indivíduos. Napoleão (1810) codificou o que era ser responsável e, seguindo o seu exemplo, o resto das leis da Europa. É só ouvir Wagner, no Anel dos Nibelungos (1852), ou ler o Milagre da Rosa, de Jean Genet (1946), O Tempo, Esse Grande Escultor, de Yourcenar (1983), e vários outros que Guinzburg (1976) tão bem retrata, Freud no seu Moisés (1914) e no seu Leonardo (1917), John Locke (1690), e o tido como dedicado à educação da infância, por engano nosso, Rousseau (1762).

Os tempos marcam o tempo e o contexto do tempo invoca a idade. Nunca esqueço o exemplo que Mead (1928) nos dá ao falar de um matai, chefe de um grupo em Samoa, que lhe confessará: o meu pai morreu muito novo, tive de herdar o seu título; para parecer velho e ter autoridade, devo pintar o cabelo de branco, andar curvado e lento.

Todo o ser humano tem dois corpos, como diz Boureau (1988) do rei: um divino e outro humano, porque todo o ser humano quer viver como entende, bem como viver o que o social lhe faz viver. A idade do adulto é uma definição social adstrita a um estatuto. Antoine de Montchrestien foi mais claro e, no seu Tratado de Economia (1616), fornece uma listagem de comportamentos para atingir os objectivos sociais que dinamizaram o Concílio de Latrão (1153): somos todos indivíduos autónomos e responsáveis cujo objectivo é sermos ricos, mesmo que à custa dos demais ou em concorrência com os outros. A verdade é esta e é aí que é preciso perguntar o que sabem de tudo isto os pais do Miguel, do David, do Paulo e do Nuno, esses casos que me serviram para argumentar até este ponto. E perguntar que saberão disto os professores que ensinam crianças, esses adultos mandatados pela ciência, pelo poder conjuntural e pela lei do seu tempo.

Um ser humano é, finalmente, como a sonata para violino de Bach, BWV 1001 (1720): calmo como no começo do Adágio; às vezes impetuoso e desarrumado pelo seu confronto entre o que quer fazer e o que lhe dizem que deve ser feito, como na Fuga; exótico em certas condutas como no Allegro e bem-disposto quando acaba por entender o seu contexto e aceitar, goste ou não, o contexto dos outros, como no Presto. Uma harmonia que se faz e desfaz e que percorre as escalas de notas que o real lhe apresenta, mais rápido, mais grave, mais contente, menos feliz. Através do tempo, o ser humano muda e torna-se como esse violino sozinho que geme ao vento. A sonata que eu costumava ouvir em Vila Ruiva, de manhã cedo, quando fazia os meus apontamentos ou redigia as minhas notas. Esse violino (metáfora do indivíduo que muda), em pouco espaço, quatro cordas apenas, contém as notas que podem encantar o ouvido e entreter quem entende e é capaz de ser para outro como para si próprio. É uma frase que reproduz de uma outra maneira o que há milhares de anos foi dito ao povo palestiniano, conforme a Bíblia no livro do Êxodo (300 a.C.), e reinterpretado há já quase dois mil anos nos novos textos que a Palestina preparou e com os quais conquistou Roma ao Ocidente. Um texto que é a base do conceito fundamental da nossa cultura, a introspecção que Latrão (1152) e Trento (1545-1563) organizaram para as pessoas, para o contexto das pessoas. O comportamento do adulto antes destes Concílios diferia conforme o lugar geográfico onde vivia e o grupo de ideias ao qual pertencia. É Trento que, com base nos cânones, sistematiza o que Santo Agostinho já dizia no século IV: somos todos livres, pecadores e iguais. O conceito de pecado, trabalhado primeiro pela Igreja Católica e pelos Protestantes depois, organiza o entendimento do adulto e paira sobre a sua culpa herdada da ideia de mortalidade e de interacção solidária e obrigatoriamente bondosa; facto que o ser humano bem conhece e que são os dados que lhe permitem construir o seu convívio e o seu imaginário. Conhecidos pelo adulto, formam ideias, na base das quais ele se relaciona com a infância. Essa infância que é preparada desde muito cedo para estruturar nesta base o seu comportamento.

Mas o adulto tem uma estrutura de ideias que passa por cima do imaginário infantil (parte do qual já temos visto), estrutura que analiso adiante. De momento, quero voltar à questão etnográfica que já coloquei: será que os pais das crianças, com quem tenho vivido, entendem como agir no real? E qual é esse real? O real é ganhar a vida, transformar a matéria em bens que seja possível consumir, trocar e vender. Em consequência, o real é procurar alternativas que servem para viver. A vida desses pais, hoje em dia, desenvolve-se dentro da necessidade de obter dinheiro para o seu consumo e o consumo dos seus dependentes.

Sendo a sociedade ocidental resultado da teoria da concorrência e da acumulação para a poupança e o lucro, todo o agir se baseia na habilitação para aceder a lugares de trabalho. É assim que o Estado prevê, a partir do século XIX, a escola como lugar de habilitação. Mas essa escola bate-se contra o que eu tenho vindo a denominar a mente cultural (Iturra, 1990b). O conjunto de hipóteses e teorias que as pessoas ouvem, estão ou são emitidas numa linguagem e numa lógica que fica fora da usada no quotidiano. O caso dos pais do Miguel, esse pequeno líder dos rapazes de Vila Ruiva, é muito característico. A mãe (Elvira), filha de um jornaleiro sem terra e caseiro do seu primo comerciante ausente com a família na cidade mais próxima, precisa de trabalhar à jorna para ganhar dinheiro. Elvira conhece um moço da sua idade (v. Genealogia 1) proveniente de uma vila próxima e trabalhador nas obras. Casam e têm dois filhos, o dito Miguel e a pequena Marta. Como as obras acabam e não há construções perto, abandona o sítio e é contratado por uma empresa que faz construções perto da cidade de Lisboa. Abandona semanalmente o lar para viajar para a capital com um colega e amigo, contribuindo com o seu salário de pedreiro quer para a sua própria manutenção no lugar onde trabalha quer para a casa. Nem sempre Manuel regressa a casa todas as semanas: o trabalho ao fim-de-semana é já uma vantagem para incrementar a poupança, para além de não gastar em transportes. Sóbrio, de bom comer, silencioso, bom colega, a sua actividade rende, porque maximiza o salário. O trabalho de Elvira, sua mulher, bem como o facto de morar em casa dos pais, permite que o conjunto do grupo viva do salário, gastando o mínimo. Elvira e seus pais trabalham a terra do dito primo e cobram-se em espécie e em usufruto do que existe na quinta: alfaias para trabalhar pequenas leiras que alugam algures, batata e milho que vendem sem o primo saber, água e tanque para lavar a roupa. Em conjunto, considerando que Elvira trabalha à jorna para outras casas, o grupo doméstico colabora quer na produção de bens quer na manutenção do conjunto. Cada um deles dedica a sua força de trabalho conforme as suas capacidades e saberes. Os pais do Miguel não passaram da 4.ª classe, tal como muitos outros indivíduos seus vizinhos, que empregam o seu tempo como empregados do comércio ou do Estado.

O Ocidente é a sociedade das habilitações: ou se sabe ciência racional e positiva ou só se pode agir com o conhecimento cultural. Não são os adultos que definem as alternativas e opções relativas aos meios de produção maximizadores, nem se utiliza o conceito de maximizar: todas estas palavras são pertença dos teóricos que olham para o real com métodos e não através da conversa directa, participada, emotiva, fraterna. Qual destes olhares entende o real? E que será o real? Este tipo de questões não deixa de trazer outras ainda, que retomam e prolongam as do início desta parte do texto: o que é um adulto? Porque o real muda conforme a pessoa que se é, seu contexto, seu meio social, seu trabalho e a sua classe de pertença. Algumas respostas ficam já esboçadas através do caso do Manuel e Elvira e dos autores citados.

Desde há muitos séculos, o real que forma a mente do adulto, é o que se vê diante dos olhos. Kant (1739) debateu já o assunto, assim como Hegel (1816) e Marx (1857) o definiram, tal como Freud (1918) e Lacan (1958), entre outros, o debateram também.

Eu diria que o real se configura a partir de dois conjuntos de elementos: os recursos que servem de meio para atingir os nossos objectivos; e o entendimento da memória social. No primeiro caso, ou na primeira variante, cada pessoa tem uma formação na qual foi introduzida pelos seus próprios adultos. É bem sabido que esse adulto ensina o mais novo, insere-o no social, construindo a sua individualidade na interacção com os outros. É por isso que a cortesia é um valor que define o comportamento perante os outros, como quando se diz “por favor” e “muito obrigado”: a pessoa não se diminui, antes aprende a conhecer os seus limites e as fronteiras dos outros. Em consequência, parte do real são os outros seres humanos, divididos em hierarquias, idades, comunicação, afectividade, respeito, manipulações, ignorância do outro ou parte dele. Ao mesmo tempo, essa parte da realidade muda porque o tempo passa, a experiência se acumula, a mente e o corpo ficam menos autónomos. Há ainda outra parte do real, a do entendimento das capacidades próprias e do que cada um consegue com elas.

Nem toda a materialidade observada pelas pessoas é semelhante para todas elas: um campo ou é uma passagem ou um sítio para trabalhar. Assim, toda materialidade é, ou não, recurso para os nossos objectivos conforme o entendimento que tenhamos da mesma. Permita-me o leitor invocar duas lembranças pessoais como exemplos: quando trabalhava (com a enxada), com vizinhos meus da aldeia de Vilatuxe na Galiza, os movimentos que eu precisava de imitar para fazer como os outros eram de propósito acelerados, duros e contínuos, tendo os aldeões a intenção de cansar-me e brincar comigo. Ensinado a respeitar o agir dos demais, não reparava na brincadeira nem sabia que eu não era recurso para eles, como eles não sabiam que eram recurso para o meu estudo. Uma outra lembrança, aliás já contada num texto (Iturra, 1979), do que me aconteceu quando, cheio de coragem, fui, às 6 horas da manhã, limpar o estábulo de um dos vizinhos de Vilatuxe, tarefa para a qual tinha sido convidado com o objectivo de ser avaliado pela vizinhança. No desejo de ser igual a todos, trabalhei na limpeza dos detritos dos animais com tal afinco que duas horas depois estava exausto e fui obrigado a abandonar o trabalho. Os meus limites, para mim e para os outros, ficaram definidos e passei a ser o escriturário do lugar e a ser tratado por Don. Cada um deles estava a tentar definir qual o meu real e qual o deles no respeitante a mim (Iturra, 1979 e 1984). Não há, em consequência, ser humano que eu tenha conhecido, que me defina a mesma materialidade, de forma diversificada para cada um. Essa é a composição dos grupos de trabalho que tenho definido em outros textos (Iturra, 1980) ou que Brian O’Neill (1984) tem tão cuidadosamente analisado, bem como José Manuel Sobral (1993),

Miguel Vale de Almeida (1993) e Paulo Raposo (1991). Em ideias mais universais, o real pode ser definido como um conjunto de recursos (pessoas e coisas) utilizados para atingir o fim requerido pelo objectivo de vida definido pela pessoa.

A vida da pessoa é assim heterogénea: adulto na persistência e disciplina do seu trabalho, pouco entendido e até desconfiado em tudo aquilo que fica fora do seu campo de experiência. É por isso que mencionava um segundo campo interessante para entender o adulto que forma e introduz crianças na vida adulta: o entendimento da memória social. A memória social é o conjunto de lembranças pessoais que ficam no grupo depois da sua transmissão por muitos indivíduos que convivem a partir de épocas e conjunturas diferentes (v. Feutres e Wickman, 1992; Iturra, 1990, 1991,1993, 2003 e 2007). A memória social define os meios válidos para objectivos conjunturais. Assim, emigração é sinónimo de sair da terra para se dirigir a outro país, para juntar dinheiro na base da poupança que se faz com o próprio corpo: muito trabalho, nenhuma distracção, quase sem comer e dormir. De aventura pessoal vivida por pessoas do Sul da Europa, passou a ser um contrato regulamentado pela CEE primeiro, pela UE hoje em dia.

Para a linguagem comum, emigrar é, no entanto, o abandono da terra para fazer dinheiro alhures. A memória social indica o caminho para enriquecer e os sentimentos não têm hoje em dia o valor ou a saudade que tiveram quando emigrar era um risco e não um contrato, ou um regresso ao local de trabalho depois das férias de Verão em bairros ou aldeias. Saudade que não existe porque fica um contingente de seres humanos a substituir o trabalho dos que partem, o que acaba por ser pesado e duro para eles, um incremento do afazer e da utilidade e uso das alfaias e do cuidado dos mais novos que ficam. Este conjunto de ideias faz-me retornar a dois conceitos fundamentais para o meu argumento: o real e o adulto.

O real acaba por ser a normatividade social que define o dever de cada um, o sítio de trabalho, a obrigação, que avalia a capacidade de todos para adjudicar a cada um uma obrigação, como detalhei nas opções da Elvira e Manuel. O real é identificar alternativas úteis para o fim traçado pelo grupo: a sua vivência e subsistência.

Identificar alternativas significa entender que recurso do meio social é útil para render dinheiro, essa mercadoria que a sociedade ocidental manda juntar para poder sobreviver e investir, quer em trabalho, quer em pessoas: sementes, carro, educação, ajuda entre pessoas. Identificação de recursos que se faz na medida da utilidade que tem quem trabalha e de recursos que são definidos, conforme os laços que se estabelecem entre as pessoas, entre as individualidades. Para além do caso do Miguel e dos seus pais de Vila Ruiva, está o caso do Nuno, pastor em Trás-os-Montes, já referido. O Sr. Avelino – pai do pai do Nuno – e os seus irmãos, pelos começos deste século, são jornaleiros dos morgados locais, isto é, daqueles proprietários de terra por mandato ou permissão do rei e da lei. Mais tarde, quando a conjuntura permite a compra de terras, o Sr. Avelino Raimondes vai-se embora e junta dinheiro para comprar terra e ovelhas, que com os filhos Horácio, Lurdes e Nelson, pai do Nuno, trabalha, enquanto Maurício, o filho emigrado em Espanha e pastor, colabora com o pai na poupança de dinheiro para poder investir. O pequeno Nuno vê o resultado final: o avô jornaleiro, o pai proprietário, o tio Sílvio tratador de animais que, dentro do mercado da procura e oferta de ovelhas, vende as melhores da família e compra os melhores machos, do ponto de vista genético, para melhorar o produto. Sílvio não sabe tomar conta de ovelhas, mas sabe falar, tem maneiras à mesa, conhece a contabilidade e saltita entre os dois países para maximizar a moeda com a qual troca bens. Quando está na aldeia, nada mais faz que deambular pelas ruas e falar com os vizinhos.

E, como todos os que temos trabalhado em economias abertas, um comerciante que entende de investimento e maximização.

Nada disto aprendeu na escola. A escola que o pequeno Nuno, no seu imaginário, não aceita, porque ele próprio é parte do trabalho.

Eis o que me leva a retomar outro conceito que mencionei atrás: ser adulto.

Ser adulto é o entendimento das oportunidades existentes para o grupo e a comunidade para ganhar mais e melhor – o objectivo histórico que Montchrestien definiu depois de os mercantilistas terem dado o exemplo. Ser adulto é ter um conhecimento das alternativas do real que permita uma autoconfiança em qualquer empreendimento, autoconfiança reforçada pelo apoio dos mais próximos. O adulto, que tem um objectivo autónomo, associa-se com os seus iguais, entende os contextos e responsabiliza-se pela inserção dos neófitos na vida social. Enfim, sabe-se, ou espera-se, que o adulto seja a pessoa autónoma, independente, responsável pelos seus objectivos definidos e racionais, emotivamente dependente de quem o ama, mas de quem nada exige porque entende o seu contexto. A cultura do adulto caracteriza-se pela identificação de alternativas e a persistência dentro das que escolhe, definidas pelos seus objectivos. O adulto utiliza a sua fantasia dentro desse real heterogéneo com o qual se debate para obter o que para ele tem definido. O que mais o caracteriza é pensar que o seu mundo é central e dominante e que pode e deve conduzir, com o carinho e a firmeza que tenho observado, as crianças a aprenderem a identificar pessoas e coisas. O adulto é espontâneo, embora formal, na expressão dos seus sentimentos que não gasta gratuitamente, nem com desculpas: o que sente, pensa-o primeiro, e age, uma vez que os correlaciona com o seu objectivo. A criatura adulta é calada, prudente, persistente e orienta a sua actividade pelo seu trabalho. E entende, e faz entender, que na vida há limites no agir e na interacção, como há para si próprio.

Na cultura que estudo, estes dois mundos, adulto e infância, encontram-se, faltando ao adulto o entendimento da epistemologia, do sentimento e da racionalidade do mais pequeno (cf. Klein, 1932; Opie, 1979). Pelo que, sem aperceber-se de que é ele o primeiro a ensinar, envia o pequeno para a instituição que o habilitará e dotará dos graus e diplomas necessários para desenvolver–se na vida. Só que, se é o lar que ensina, primeiro é preciso entender o que é que o lar ensina: o entendimento do agir, a consequência do agir e a causa do mesmo, a responsabilidade por si próprio. Que os pequenos, individualmente, são recursos para si antes de serem recurso para os outros, isto é, que se aceitam e se entendem a si próprios como parte do grupo mais alargado do social. O adulto, fechado na monogamia e no conceito de paternidade e maternidade como autoridade que todos reconhecem, acaba por mandar, não procurando conhecer o saber dos mais novos e, então aí, fixar os limites do seu comportamento. Bem como o seu próprio comportamento de adulto tem variabilidade, conforme seja o correr da vida: se tudo anda bem, há carinho; se tudo anda mal, há raiva, castigo e gritos. O adulto nem sempre entende que é ele a primeira escola para os neófitos, com os quais tem também muito a aprender: há épocas nas quais o adulto está limitado pela actividade dos pequenos, cuja aprendizagem impõe fronteiras ao que estava habituado a fazer quando jovem; mais tarde, o adulto deve ouvir a criança e o adolescente, orientando com conversas, debatendo opções.

É no debate, e não na autoridade, que a infância aprende, e aprende enquanto ama. O adulto não é ensinado a saber que é o primeiro que ensina, não língua e hierarquia, mas disciplina e integração gratificante no meio social. Que tem compromisso com os seus e por isso deve ensinar o amor e as alternativas da vida, como sucede entre os grupos empobrecidos.

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