pedir

para a minha mulher, adoentada nestes dias..

Amiúde oiço a palavra pedir no nosso país. Dizia a minha mulher hoje de manhã, que este era um país de pedinchas. Um aglomerado de pessoas que procuram favores, empréstimos, crédito, dinheiro dos amigos, pessoas sem o valor de agarrar a vida com as suas duas mãos e seguir em frente nos piores minutos da vida. Piores momentos da vida, são quando gastamos em excesso, quando não medimos a nossa capacidade de adquirir o que compramos, como se diz en calão português, à toa, por outras palavras, sem rumo definido, a esmo, ao léu. Estas duas últimas palavras precisam também de uma definição antes de recuperar a frase anterior: pessoas que se prendem muito nas palavras sem uma gota de verdade, esquecendo o conjunto (olhar, vivência, pensamento), sem uma gota de verdade ou muitas de dúvidas, se podermos saber qual é a verdade e a realidade da pessoa que fala a esmo. Pessoas que acabam por se tornarem vítimas em potencial do que chamamos falha ou decepção.

Normalmente, esse pedir não é a pessoas da nossa intimidade, do nosso parentesco, porque essas não se deixam enganar por quem pede, conhecem bem para não acreditar.

Ou as palavras ditas ao léu, de forma doce, açucarada, que vão direito à sedução, sem uma palavra de verdade entre as tantas que se falam.

Este conjunto de ideias acordara em mim a curiosidade de saber qual o significado da palavra pedir, ao ouvir um sacerdote católico na sua homilia na televisão, que era necessário pedir. Deve ser certo que se referia a solicitação à divindade, de favores não conseguidos nem encontrados na vida histórica ou vida real. A divindade é acreditada, em qualquer religião do mundo, como o totem capaz de conceder um favor ou de entregar o impossível, na vida cronológica. Especialmente na época que vivemos de crise económica ou falta de dinheiro para sermos capazes de viver e sobreviver ao nosso prazer ou como gostamos de passar a vida: fortes, com dinheiro, sem doenças, sem enganos. Por outras palavras, ter a fortaleza para continuar com o trabalho que nos permite ganhar a vida, apesar de doenças ou dissabores que acontecem no dia-a-dia.  

pedir é a luta pela vida, ou em oração, ou na vida do capital


Esse pedir, porém, não está associado ao crédito nem à banca. É parte da divindade para os que pensam que ela existe. O resultado é que esse pedir está associado à oração, requerendo, rogando, solicitando virar a vida do avesso para os que acreditam que a vida continua após a morte. Não uma vida qualquer, mas ao pé da divindade. Pedir, é uma oração para mudar o rumo das nossas vidas, outorgada ou não por quem pode.

Não é estranho que num país de confissão católica romana, o lema seja: a Deus rogando e com o maço dando. Frase que, como é evidente pelas suas palavras, manda as pessoas produzirem bens que passam, depois, a mercadorias. Evidente é, também, que refiro os que trabalham e ganham pouco, nesta forma de capitalismo, capitalismo que envolve a posse dos meios de produção para alguns e de receber rendas, para outros. Há, em consequência, diversas formas de pedir em oração: há os que solicitam lucro, os que pedem para não fechar a sua indústria ou não entrar em falência, os que solicitam trabalho para si e os seus, podendo, assim, ter um passar mais acomodado.

Ideia que associo às diferentes classes sociais, hierarquias ou segmentos de grupos, que procuram simpatia entre os mais poderosos para não cair na desgraça de não ter trabalho ou meios de subsistência. Eis porque também variam as formas de comida e de vestir: tenho observado ao longo do meu prolongado trabalho de campo, que a comida é feita com produtos baratos e muito condimentada para dar sabor ao consumo de hortaliças e carne de porco ou frango. Donde, pedir, passa também pelas formas de consumo de comida, tal como pelas formas de vestir coloridas de má maneira, atraindo o olhar de outros para a falta de composição na mistura de cores.

Há dois textos que nos ensinam como pedir: O Pai Nosso de todas a confissões cristãs; e o manifesto comunista dos Marxs e Engels. O primeiro, no ocidente, é o primeiro texto que se aprende. Se repararmos bem, é um permanente pedir de matéria para a subsistência, começando por invocar a divindade e a crença nela: um subterfúgio diria eu, para o que é solicitado de seguida, objectivo real da oração e do texto. Dizem ter sido criado pelo profeta saduceu chamado Xristos ou Jesus. Para quem não saiba, diz:

Pai Nosso que estais no céu,
santificado seja o vosso nome,
vem a nós o vosso reino,
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no céu.

O pão nosso de cada dia nos daí hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,
não nos deixei cair em tentação
mas livrai-nos do mal.

Para quem fizer uma análise semântica, repara que primeiro louva-se, a seguir, aceita-se que uma vontade estranha interfira com a nossa para ganhar a vida. A segunda estrofe refere a comida, o trabalho, o facto de ser bom com os outros para que os outros sejam bons connosco. É um pedido considerado ritual, quer dizer, com mais hierarquia que qualquer outro pedido, uma síntese do ser humano que vive na terra.

Por merecer uma análise mais aprofundada, vamos deixar essa profissão de fé para o texto de amanhã.

Quanto ao Manifesto Comunista, com análise detalhada no meu livro de 2009: Marx um devoto luterano, pode salientar-se frases de solidariedade e reciprocidade. A ideia central do Manifesto, de chamar a atenção para o uso da força de trabalho e a desunião dos trabalhadores, união sem a qual não é possível combater o capital. Um exemplo: A primeira, é a força bruta, sem especialidade, sem treino, essa força de trabalho que tem apenas o músculo para produzir. Facto que ocorre nas indústrias ao dividir-se o trabalho entre trabalhadores e vigilantes da produção. Facto que acontece no começo do Século XIX, ao existir apenas um artesanato especializado para as manufacturas: as mulheres sabiam tecer, as crianças serviam de balanço para movimentar o tear, sentando-se no pau que cruza o tear.

Este pedir, é um pedir especial porque desmascara a exploração do homem pelo homem. Enquanto o Pai Nosso é um texto humilde de pedido, o Manifesto é um pedido arrogante, que procura juntar as forças dos que nada têm, derrotar o capitalismo e ganhar a batalha da igualdade prometida na Revolução francesa. Partes do livro Marx um devoto luterano, podem ser lidas em:  http://www.google.pt/#hl=pt-PT&expIds=17259,27817,27868&xhr=t&q=Ra%C3%BAl+Iturra+Marx%2C+um+devoto+luterano&cp=24&pf=p&sclient=psy&aq=f&aqi=&aql=&oq=Ra%C3%BAl+Iturra+Marx,+um+devoto+luterano&gs_rfai=&pbx=1&fp=b82bc71c43c94959.

Pedir é orar, mas também combater. A frase de Marx é definitiva: Proletários do mundo, uni-vos…

Em poucas palavras, este é o pedir, para mim.

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