Quero uma escola só para os meus filhos, com um emblema do meu clube e que sirva bacalhau à Braz duas vezes por semana

Penso que será consensual afirmar que, numa determinada área geográfica, é justo que o Estado assegure a existência de espaço e tempo escolares suficientes para a população aí residente. A partir do momento em que isso esteja assegurado, com ou sem contratos de associação, por que razão deverá o dinheiro dos contribuintes servir para pagar mais espaços e tempos do que os necessários? Faria algum sentido abrir mais estações de correios ou mais centros de saúde do que os necessários? Do mesmo modo, não faz sentido o fecho indiscriminado de escolas ou o encerramento cego de centros de saúde, mas gastar mal dinheiro (a mais ou a menos) é um dos principais passatempos do Estado português.

Colide essa questão com a da tão apregoada liberdade de escolha? Por um lado, sim, sobretudo se estivermos a falar de uma faixa da população com limitações económicas e/ou que não valorize devidamente a escola. Este mesmo grupo deveria ser alvo de uma atenção especial por parte dos responsáveis pelas políticas educativas e sociais, sabendo-se, no entanto, que o verdadeiro problema está no facto de que as políticas educativas e sociais são, na realidade, manobras de relações públicas realizadas às ordens do Ministério das Finanças.

No meio desta luta a favor da manutenção indiscriminada dos contratos de associação, estão pais que desejam que o Estado lhes pague o privilégio de escolher a escola preferida para os filhos, independentemente de a zona onde vivem já ter tempo e espaço escolares suficientes. No meio desta luta, estão empresários que buscam o lucro fácil proporcionado pelas parcerias público-privadas que continuam a sugar dinheiro do Orçamento de Estado. No meio desta luta, estão muitas personalidades ligadas à Igreja, em busca de uma evangelização mais fácil, graças ao usufruto do dinheiro até daqueles que não são crentes. No meio desta luta, estão escolas que cometem abusos repetidos e silenciados sobre os seus funcionários. No meio desta luta, está muita gentinha que não sabe usar o direito a discordar. No meio desta luta, estão escolas que devem ter contrato de associação e escolas que não devem ter.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Na verdade, acho, antes de mais, ser tempo de as sociedades se questionarem, quanto ao modelo de gestão que querem adoptar: público ou privado? Acho que faz todo o sentido, por não ser razoável pagar o condomínio e ter de participar, extraordinariamente, nas despesas com obras em espaços comuns —educação e saúde são, por mais que me contrariem, bens associados ao interesse comum. E temos, agora, por exemplo, as SCUTs.

    Sendo sabido que a “esquerda” utiliza como seu o slogan, “saúde, educação, habitação”, como áreas que deveriam ser da responsabilidade do Estado, entendo que as duas primeiras, principalmente, lhe deveriam caber por inteiro. Porque suportes básicos dos cidãos/contribuintes, é descabido que, sobre elas, seja estabelecido o negócio; deveriam ser, antes, serviços de que beneficiassem todas as pessoas de todas as condições e de todos os quadrantes —politicamente falando.

    Dir-se-á que os impostos são insuficientes para que a saúde e a educação possam ser gratuitos; eu digo que a questão dos impostos é mal gerida. Se os impostos fossem mais elevados, mas, por outro lado, as pessoas tivessem as necessidades básicas assistidas, ninguém se importaria; porque, vendo bem, quanto custa um razoável seguro de saúde, e quanto custa, aos pais, no ensino privado e anualmente, um aluno?… —o que os impostos pagam não é gratuito; é uma contrapartida.

    Se a via é a da liberalização, então o Estado não tem razão de existir. Estabelece-se os critérios do “negócio” e cada um paga aquilo de que necessita, sem que, mensalmente, tenha que contribuir para uma estrutura que não responde ou responde deficientemente.

    Mas, se houver dúvidas, as parcerias público-privadas clarificam-nas: é mais fácil investir com a substancialidade dos riscos assumida pelo Estado. Por quê?… Fácil. É ver a dança
    das figuras: ora nos governos ou na Assembleia da República; ora na administração de empresas privadas.

    Em que acham que acaba esta promiscuidade? Por que acham que ela existe? Porque acham que há professores que ensinam, simultaneamente, no público e no privado; médicos que exercem no público e no privado; com alunos e pacientes captados e aliciados nos espaços públicos e encaminhados para os espaços privados?… No fundo, no fundo, todos querem que o Estado seja o pai de todos —que acaba sendo mais de alguns.

    Um dia, algum ser de uma espécie exterior à nossa (?) se ocupará de contar a nossa história, a história da Humanidade; e, quem ainda houver, poderá compreender a que tipo de espécie pertence, do que descende: de uma espécie de trafulhas.

    Continua a acreditar-se na ladainha de que os poderes existem e actuam separadamente. Contirnuam as pessoass —não todas, obviamente— a pensar que o poder político, o poder económico e o executivo sobrevivem em compartimentos pouco menos que estanques…

    Eu continuo a pensar que existem como putas, que se encontram em espaços comuns, sempre que surge a hipótese de uma orgia —ou muitas—… Pagas por quem?… Pelo poder económico, adivinharam! —quem é que não quer viver bem; escolher as escolas e os hospitais; e, tendo escolas e hospitais, não sabe que tem peso económico que influencia o político?…

    Um pouco como a “verdade desportiva” e as “novas tecnologias”, que, de facto, não interessam a ninguém, porque obrigariam os dirigentes a reciclarem as intenções, afastando-os da condição de humanos, porque deixariam de obedecer ao Instinto —o Deus ou o Diabo verdadeiro. E, graças à impossibilidade, todos podem dizer que são a favor; como quando se discute o aumento da remuneração dos deputados, e a rapaziada de “esquerda”, confortavelmente, vota contra, porque, contados os braços, não há a mínima hipótese de que a sua tese vença —que horror!!!

    É uma sorte que muitas das pessoas tenham uma noção errada do que é a Vida e do que é a Humanidade. É essa perspectiva que vai mantendo uma certa paz e alguma alegria de viver; que permite aos tontos admitir um outro amanhã; quando esse amanhã é o mesmo de ontem e do primeiro dia. Assim será o último, quando os confins chegarem e nos disserem que que a única diferença está nos cenários, nas vestimentas, nas ferramentas e na linguagem. A intenção mantém-se comum: a intenção de se sobreviver e de se superar a concorrência.

    Nessa altura, já ninguém se lembrará da Democracia; será possível a detecção de um ou outro vestígio; vestígios de uma coisa que nunca existiu; que apenas pareceu. A selva, a única estrutura que permanece e por onde têm passado cortejos e cortejos de mascarados, há-de apresentar-se no seu esplendor. A verdade será nua e crua; ter-se-ão acabado as mentiras, os governantes e os deputados. A escola será a da vida; e cada um tratará da sua saúde —e, se puder, da de quem pretenda impedir-lhe o percurso…

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