A teimosia de Mubarak e a obstinação do Povo Egípcio

Praça Tahrir - CairoOntem, em diversas cidades egípcias,  havia imensa esperança na retirada de Mubarak. No santuário da revolta, a Praça Tahrir no Cairo, a expectativa do povo estava ao rubro. Quem pôde e quis, à volta do globo, testemunhou. A complementar as imagens,  notícias de diversas fontes, da BBC à Reuters, indiciavam que Mubarak estava prestes a demitir-se.

Cerca de 22:00 horas no Cairo, finalmente, via TV, o ditador surgiu a discursar às massas. Ao ruir das expectativas, eclodiu a imensa frustração dos cidadãos na Praça Tahrir; e certamente em muitas outras praças, ruas e ruelas do Cairo, de Alexandria, do Suez e de, sabe-se lá, quantas mais localidades e povoações do país. Mubarak confirmou-se disposto ao sacrifício de prolongar os 30 longos anos de presidente, até Setembro próximo. Prometeu  alterações da lei constitucional e respeitar, agora sim, um povo,  que ele próprio desprezou ao longo de três décadas. A Omar Souleiman, o vice-presidente e homem de confiança dos EUA, delegará poderes no sentido da democratização do Egipto.

O povo não acredita. A continuidade do descontentamento é manifesta. Hoje, dia de oração dos muçulmanos, espera-se que prossiga a  contestação. Há fortes motivações. O PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento classificou o Egipto, em 2010, na 101.ª posição entre 169 países. Os dados são reveladores da extrema pobreza e das múltiplas carências com que a maior parte da população se debate (81.000.000 de cidadãos, dos quais mais de 50% abaixo dos 30 anos). Em contraste, essa infeliz gente é injuriada pelos privilégios da  corrupta classe dirigente, de  que Mubarak é o expoente principal.

Tenho lido e escutado preocupações de que, no lugar do regime de Mubarak, os contestatários venham a proporcionar a criação de um ‘estado teocrático’. O risco existe, mas desconfio dessa possibilidade. A população egípcia, com destaque para a juventude, parece-me ter já demonstrado sólida maturidade cívica e política. Conquanto saiba que o Ocidente, em particular EUA e Europa, agiu sempre de forma interesseira e sem preocupações humanitárias na região. Investiram, no Egipto em especial, na tirania de Mubarak e numa das máquinas de guerra mais poderosas da região – o exército egípcio com cerca de 400.000 efectivos, recebendo anualmente 2,2 milhões de dólares do governo norte-americano.

Os líderes ocidentais cuidaram de interesses geoestratégicos – rota do petróleo, “Petr dólares” … – e de proteger Israel no conflito com os Palestinianos. Como habitualmente, até em outras zonas de Marrocos à Ásia Menor e Península Arábica, o bem-estar do povo nunca fez parte de qualquer agenda. Até agora, porque, impulsionado pelos tunisinos, o povo egípcio continuará a obstinada luta contra a permanência no poder do ditador Mubarak. E o dia da vitória há-de chegar.

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