O comum da vida: estar desempregado, ser pobre e viver desamparado

O País, ou sendo mais preciso, milhões de portugueses anónimos vivem tempos de tormentas. São cidadãos de todas as classes etárias. Desde jovens a trautear  “Que parva que eu sou”, a populações senescentes, sitiadas por uma solidão assassina e, por vezes, persistente para além da morte. Uns e outros, e muitos, muitos outros compõem a imagem do Portugal real, ilustrada, pois, por gente sem meios nem amparos. Na vida, como na morte.

O desemprego atingiu 11,1% no último trimestre de 2010; ou seja, são mais de 619.000 os cidadãos sem trabalho, nos números oficiais. No segmento dos jovens, a taxa desemprego é de 22%, mas existe, paralelamente, uma percentagem considerável de desempregados de longa duração. Destes últimos, muitos têm idades acima dos 40 ou 50 anos e nulas perspectivas de conseguir trabalho. O ambiente social, assim, tende a agravar-se  através da intensidade e dos contingentes de pobreza – em 2009, a Eurostat  referia 17,9% da população em risco de pobreza (cerca de 1,8 milhões de indivíduos). Hoje, porém, estima-se uma cifra à volta dos 2 milhões.

Quem e como se vencerá a dramática situação, dilatada, ainda para mais, pelo elevado endividamento externo do País? Dos actuais poderes internos, não espero milagres. Seja do sinuoso malabarista Sócrates, seja do altíssimo conhecedor dos mercados, Cavaco (agora assustado). Dos actuais  líderes da oposição, tão-pouco. Para encontrar o rumo certo, o País carece de quem, em democracia, tenha a capacidade de definir e executar uma estratégia catalisadora de meios, maioritariamente financeiros e externos, e da mobilização empenhada do povo português. Um governo suprapartidário que, todavia, uma sólida maioria dos partidos legitimem? Talvez.

O sucesso da estratégia, é evidente, depende também do exterior, em resultado da perda de importantes fracções de soberania. Da UE, ou mais concretamente do “eurogrupo”, não é expectável uma ajuda imediata. Acompanhado da Holanda, o eixo germano-austríaco, que tão graves calamidades já causou aos povos europeus, decretou que só em 2013 será reforçado o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). E Portugal precisava de auxílio ontem, anteontem ou há muito tempo.  Integramos um espaço de ‘moeda única’, e sem saber acautelar a nossa economia desde há 30 anos, acabámos submetidos aos designados especuladores e à inevitável intervenção do sórdido FMI. É o nosso fado.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Bem!, penso que a maioria das pessoas aida não compreendeu que, à medida que se acentua a evolução tecnológica, maior é a subida do desemprego, porque toda a parafrenália de ferramentas tende a esvaziar a necessidade de quase todo o tipo de mão-de-obra —nas portagens já não são necessários os “cobradores”; as máquinas fazem isso perfeitamente.

    Ora, do mesmo modo que as regalias resultam de direitos roubados a outros, também para que uns se sintam confortáveis, outros terão que sentir as dores do desconforto.

    Como é que se acaba com isto?…
    Eu não sei. Sei é que isto não vai ficar assim por muito tempo. E suponho que aqueles que, agora, se atafulham de lucros e de luxos, virão a padecer, quando já não houver quem lhos sustente; porque, para que o dinheiro vá, é necessário que venha; e é na circulação da “pasta” que está o segredo do equilíbrio. O problema é que poucos estão interessados no equilíbrio; quase todos querem ficar por cima, e desatam em acumulação…

    Fala-se, por exemplo, dos preços do gasóleo e da gasolina; diz-se que é a Galp que influencia o mercado, por ser nas suas refinarias que a matéria é tratada; propõe-se —como já propuseram— que não abasteçam nem na Galp nem na BP: o pessoal continua a “oferecer-lhes” os depósitos… Isto não é de burros?… Claro que é!

    Fala-se das telefónicas; que é um fartar vilanagem. E o que se vê?… Rapaziada —muita dela no desemprego— com dois telemóveis —por baixo do meu estúdio há um departamento da Segurança Social, onde são pagas as pensões mínimas e esse tipo de coisas… É um espectáculo: a chegarem de taxi; a conferirem mensagens, de telemóvel para telemóvel… Não é fácil dar a volta ao texto, porque, de cima a baixo, está tudo descontrolado; ninguém escapa.

  2. Rodrigo Costa says:

    “as regalias de uns”, assim é que está certo, peço desculpa

  3. Manolo Heredia says:

    “O trabalhador por conta de outrem é o maior inimigo da economia”. É a ideia que se tenta impingir à opinião pública desde há décadas. Pois sendo a produtividade a grande culpada da falta de competitividade da economia (portuguesa, europeia), quanto mais automatizadas estiverem a indústria e os serviços, melhor.
    Esta lógica destruiu milhões de postos de trabalho nos últimos 30 anos, conduziu à utilização maciça de autómatos programáveis e robots na indústria, caixas automáticas nos bancos e nos transportes, e na Internet foram transferidas para o utilizador muitas tarefas que eram executadas por pessoas que tinham um emprego. Em duas Repartições de Finanças que visitei ultimamente mais de metade das secretárias não tinham ninguém lá sentado. Reparando melhor percebe-se que o mesmo funcionário anda de secretária em secretário fazendo o trabalho que era de vários há uns anos.
    Só não chegámos mais cedo à actual situação de desemprego porque entretanto foram aparecendo actividades não produtivas que absorveram a população que se destinava aos postos de trabalho suprimidos, e porque a tendência demográfica é para a diminuição da população activa e para o envelhecimento.
    Na guerra produtividade / emprego, o prato da balança pendeu definitivamente para o lado da produtividade, da tecnologia, do Capital Intensivo. Se não quisermos que as pessoas morram à fome por falta de emprego temos que recorrer à política do subsídio. Em breve teremos um exército de pobres a viver de subsídios e meia dúzia de iluminados a carregar em botões (de autómatos ou de teclados de PCs). É a minha visão do futuro.

  4. carlos fonseca says:

    Rodrigo e Manolo:
    Ambos referem um problema, automização do trabalho e suas consequências, que o economista norte-americano, Jeremy Rifkin, tratou há anos, no livro “The End of Work”,
    http://en.wikipedia.org/wiki/The_End_of_Work
    Se não o conhecem, recomendo a leitura. Há uma edição francesa, também.
    De facto, esse fenómeno, a automatização, eliminou milhões de postos de trabalho, em especial no Mundo Occidental. Mas a deslocalização de indústrias para a Ásia e outras regiões de mão-de-obra mais barata igualmente afectou a Europa e, em especial, Portugal.
    Que futuro nos espera? Sou sei que é complexo e que provavelmente um dia a bolha social rebentará.

    • carlos fonseca says:

      Só sei e não Sou sei. Desculpem.

    • Artur says:

      Mas quem é que constrói, mantêm e opera o automatismo? não são pessoas? De facto o automatismo retirou ao ser humano muitas tarefas perigosas, indignas e pouco gratificantes.
      Sim foram destruidos muitos postos de trabalho, mas também foram criados muitos outros.
      Busquem as causas para o desemprego e para a pobreza noutro sitio qualquer, nomeadamente ao nível das mentalidades das pessoas.

  5. Rodrigo Costa says:

    … Caro Artur,

    Conhecerá, possivelmente, a história da rã e do escorpião… Mantenha a rã —a Vida—, troque o escorpião pela Humanidade, e verá que a história é necessariamente, a mesma. Com um a pequena diferença: a Vida não morre; é a rã —a Vida— que vai sacudir as costas. Eu diria que é o destino; nem o escorpião nem a Humasnidade chegam à outra margem.

    Quem constrói os “automatismos” não são os mesmos que os concebem. Quem os constrói, constrói por necessidade de trabalho; mas, o que é e não é caricato, é que constrói os “automatismos” que os substituirão, mais tarede ou mais cedo —é velha a história do aluno que ofereceu uma palmatória ao professor, e que acabou por levar com ela—, porque só quem concebe —governa— tem o futuro garantido… até deixar de haver quem construa e quem consuma, porque a Vida está muito bem concebida, assente na complementaridade e nas compensações —já está a compensar: baixa da taxa de natalidade e envelhecimento das populações; porque começa a extinguir-se a razão da complementaridade.

    Os postos de trabalho criados pelos “automatismos” são infinitamente menos do que os postos que veio suprimir. De outro modo, o desemprego não cresceria; quando muito, mantinham-se, uns e outros, equilibrados.

    Quem consome ou usa os automatismos, não tem muitas hipóteses de fuga, por

    Mais, com a evolução tecnológica, mesmo os postos criados são instáveis; e se é um desses postos que o Artur ocupa, prepare-se, porque não o terá por muito tempo.

  6. Rodrigo Costa says:

    … Caro Artur,

    Conhecerá, possivelmente, a história da rã e do escorpião… Mantenha a rã —a Vida—, troque o escorpião pela Humanidade, e verá que a história é, necessariamente, a mesma. Com um a pequena diferença: a Vida não morre; é a rã —a Vida— que vai sacudir as costas. Eu diria que é o destino; nem o escorpião nem a Humasnidade chegam à outra margem.

    Quem constrói os “automatismos” não são os mesmos que os concebem. Quem os constrói, constrói por necessidade de trabalho; mas, o que é e não é caricato, é que constrói os “automatismos” que os substituirá, mais tarede ou mais cedo —é velha a história do aluno que ofereceu uma palmatória ao professor, e que acabou por levar com ela—; porque só quem concebe —governa— tem o futuro garantido… até deixar de haver quem construa e quem consuma, porque a Vida está muito bem concebida, assente na complementaridade e nas compensações —já está a compensar: baixa da taxa de natalidade e envelhecimento das populações; porque começa a extinguir-se a razão da complementaridade.

    Os postos de trabalho criados pelos “automatismos” são infinitamente menos do que os postos que veio suprimir. De outro modo, o desemprego não cresceria; manter-se-ia estagnado.

    Quem consome ou usa os “automatismos”, não tem muitas hipóteses de fuga, porque, como muito bem sabe, estamos todos “cercados”:
    Consegue exigir, por emplo que, às portagens, regressem os empregados? Consegue que, nas bombas de gasolina, sejam os empregados quem abasteça, etc, etc, etc…? E consegue, inclusive, que, não havendo empregados, os serviços prestados tenham mais baixos custos?

    Acha que quem decide e legisla somos você ou eu; que somos nós quem pode decidir sobre o que é do interesse humano e o que é do interesse do Capital —esteja ele em que regime estiver?

    Com a evolução tecnológica, mesmo os postos criados são instáveis; e se é um desses postos que o Artur ocupa, prepare-se, porque não o terá por muito tempo. Se for enfermeiro ou médico… dê vivas, porque haverá cada vez mais gente a necessitar de tratamento.

    Nota: o problema da Humanidade é a corrupção. E, ao falar assim, digo-lhe que não há pessoas para além das corruptas: as activas; as passivas; e as que não têm alternativa.
    Activo, o que concebe e propõe; passivo, o que aceita a proposta; sem alternativa, o que, não tendo poder de decisão, tem que sobreviver, trabalhando e obedecendo —dando exequibilidade aos projectos de corrupção.

    Engana-se, quem pensar que a evolução tecnológica visa o bem-estar da Humanidade. A evolução tecnológica visa o entretenimento, a distracção e o controlo dos cidadãos.

    Exemplo: se as câmaras de vigilância são para obstar ao crime e ao seu desenvolvimento, por que não são colocadas câmaras nos gabinetes dos governantes, dos adnministradores dos bancos, e por aí fora?… As câmaras de vigilância são, acima detudo, negócio e controlo.

  7. Artur says:

    A evolução tecnológica pode não visar o bem-estar da Humanidade, ou seja pode não ser esse o seu propósito. A evolução tecnologica pode apenas visar o lucro das empresas que trabalham nessa àrea ao satisfazerem a necessidade dos seres humanos em terem novos gadgets. Todavia, o certo é que essa evolução tecnológica tem contribuido e muito para o bem-estar da Humanidade, tornando a vida substancialmente mais fácil e divertida (sim a diversão é importante, sobretudo quando temos a noção que a vida é curta e se calhar não haverá outra). As pessoas vivem hoje mais tempo e um maior numero de pessoas têm maior qualidade de vida.Claro que há quem nunca se dê por satisfeito.

    Já houve períodos na História (e muitos até) em que a maioria dos seres humanos viveu miseravelmente e onde o emprego era considerado uma dádiva e no entanto a causa para isto não eram os automatismos ou os obscuros interesses do capital.O pessimismo que nos impigem actualmente não é de facto uma novidade, muito embora os blogs, as TVIs, os jornais e todos os arautos da desgraça nos pretendam fazer crer que sim.
    Sempre houve quem tivesse sorte na vida e quem não tivesse tanta sorte; sempre houve quem lutasse por uma vida melhor e quem vivesse resignado na sua zona de conforto.Sempre houve quem ficasse contente com pouco e quem nunca ficasse contente embora tendo muito.

    Ninguém tem o futuro garantido ( só a morte é garantida). Mas enquanto o pau vai no ar, aliviem-se as costas. Isto é, a nossa vida podia ser melhor, mas não há duvida que também podia ser bem pior.
    Não deixemos que as teorias da conspiração, os podres da politica e da economia, a diabolização do progresso, o saudosismo de um passado radioso que nunca existiu, a pretensa falta de valores e a ameaça latente que o céu nos caia em cima, nos tolha o bom senso.

  8. Rodrigo Costa says:

    … Pois, de facto, mesmo que eu queira culpar isto ou a quilo, eu acabo por chegar à conclusão de que a Humanidade —como qualquer outra espécie— é presa do Instinto. No nosso caso —por ser o que interessa e está em discussão—, a sobrevivência e a posse são os estimulantes de todos os movimentos; porque a vontade de viver esmorece, se, entretanto e de tempos a pempos, não nos chegar um “prémio”, uma “prenda”. Difícil, difícil… é establecer e gerir o equilíbrio.

    Não me interessa o estudo das sociedades nem a história do Homem-social, interessa-me a história do animal, porque, conhecendo a Espécie, posso saber ou conhecer os trâmites das suas construções; porque as vontades, os anseios, repetem-se; só as vestimentas e as ferramentas são diferentes —há quem diga que são melhores; há quem diga que são piores; eu digo que o ser humano continua o mesmo.

    Mais: tecnicamente, mais apetrechado, mas mais inábil e mais analfabeto —um destes dias, as mãos não servirão para mais do que teclar ou digitar e segurar —enquanto houver—o papel hiogiénico. Nada de novo, até porque, acredito, está em cumprimento a viagem de regresso à selva, à natureza a que tudo pertence. Apenas uma dúvida: se há ou não há tempo.

    Quanto à necessidade de diversão, também eu concordo, mas, como com tudo, é necessário distinguir as idades e os “brinquedos didácticos” dos que não levam a lado nenhum; e eu acho que estou capaz de garantir que, muita da rapaziada que hoje se diverte, como e pelo tempo que se diverte, vai, mais tarde, perceber que deveria, também, ter-se ocupado de coisas sérias.

    É claro que há os que têm sorte —uma coisa em que não acredito, porque, nascer “teso” e morrer senhor de um império… não é, apenas, resultado da sorte e do trabalho, a não ser que forcemos a semântica.

    Porém, muitos dos que tiveram sorte, que tiveram a “felicidade” de não ter que mexer um “garfo”, porque tiveram a sorte, por exemplo, de herdar, acabaram vítimas do ócio; tendo que desfazer-se do que lhes foi deixado, deserdando-se, e, porque é verdade, algumas vezes, por “saudosismo”, suicidando-se —eu costumo dizer que há pessoas às quais Deus (quem que ou o quer que seja) castiga com dinheiro; foi, aliás, convivendo com algumas dessas pessoas que pude perceber que a fortuna não é, incontestavelmente, garante de felicidade alguma —ninguém tem tudo.

    Passei, então, a traçar, com outra consciência, as linhas por que percorro o meu caminho. Procuro, prioritariamente, a realização; porque a vida é curta, e eu tenho necessidade de me me sentir útil —pelo menos, a mim mesmo—, que o altruísmo não bem o meu departamento; cansado que estou de altruístas; de gente miserávelmente disfarçada.

    E para terminar, direi, também, que o pior que tem a Humanidade são as pessoas. Com iPhone ou com piloto automático, há sempre um Homem nu… por debaixo da roupa.

    Nota: a crise, mais do que dever-se à tecnologia ou a outras tretas que têm peso, apesar de tudo, deve-se a pessoas que acharam e acham que a vida é curta; e, por isso, desataram a acumular, como se a vida fosse longa e tivessem que precaver-se para os futuros gastos. Quem sabe, até, comprar umas acções, do lado de lá; trocar de carro; refazer a piscina; sustentar as “mulas” e fazer umas recauchutagens… Nada que não esteja previsto. Por fim, a angústia; o desespero da separação —Deus ( quem quer ou o que quer que seja), dá o livre arbítrio, é justo. Paga quem tem, de outro modo que paga quem não tem. Mas paga, porque o dinheiro não é tudo.

  9. Artur says:

    Sr. Rodrigo, se retirasse a alusão a Deus do seu discurso, estariamos agora perfeitamente de acordo. Não me dou bem com o sobrenatural. Faz-me alergia.

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