Homenagem ao SL Benfica

O SL Benfica é o maior clube português. Para além de ser, embora com uma curta distância, aquele que detém mais títulos no futebol (entre os quais se incluem os 29 títulos de Campeão Nacional contra os 24 do FC do Porto – não 32 contra 25, como a imprensa gosta de dizer), é também o que tem mais adeptos espalhados por todo o país. Graças, sobretudo, aos espantosos anos dourados de Eusébio e Companhia durante os anos 60 e 70.
Desde miúdo, aprendi a ver no SL Benfica o rival maior do meu FC do Porto. O meu clube, quando comecei a gostar de futebol, tinha apenas 5 títulos de Campeão Nacional – o último tinha sido conquistado 11 anos antes de eu nascer.
A partir de finais dos anos 70, com Pedroto e Pinto da Costa ao leme, tudo mudou. O FC do Porto começou a ganhar títulos e a rivalizar com o SL Benfica. A chegada à Final da Taça das Taças em 1984 e a vitória na Final da Taça dos Campeões Europeus em 1987, no Prater, foi o culminar desse processo e, no fundo, significou a passagem de testemunho em termos de hegemonia do futebol português.
Habituei-me a ver no Benfica um adversário digno e merecedor do maior respeito. Desejando que perdesse sempre nas provas nacionais, claro, mas nunca deixando de reconhecer o seu valor. Com Luis Filipe Vieira, numa linha que já vem desde Vale e Azevedo, percebi que, afinal, há um benfiquinha capaz de imitar o pior de um portinho que, infelzimente, também existe. Percebi que uma certa gente do Benfica entende desde há algum tempo que a melhor forma de combater o FC do Porto é imitar os discursos, as atitudes e os métodos de Pinto da Costa.
Agradeço a Pinto da Costa tudo o que fez pelo FC do Porto, mas, acreditem, condeno veementemente certas práticas e o tipo de retórica que continua a utilizar. Se fez sentido em determinada altura da história do FC do Porto – e fez – hoje já não faz. Da mesma forma que não entendo o discurso azedo e magoado de um jovem como André Villas-Boas na hora da grande vitória. E condeno que na hora do triunfo os nossos jogadores tenham insultado o Benfica, imitando aquilo que os do Benfica fizeram ao FC do Porto em 2005.
É por tudo isto que dou pouca importância ao apagão da Luz na celebração de mais um título do FC do Porto. Ver os meus jogadores encharcados a dar a volta ao relvado de um estádio completamente às escuras, quase meia hora depois do fim do jogo, teve um sabor fantástico que a história não apagará. Sobretudo por essa razão, o jogo de Domingo é inesquecível.
Dou pouca importância e, por mais amor que sinta pelo FC do Porto – indelevelmente ligado ao meu passado – não confundo as coisas. Há gente má em todos os clubes – gente reles, gente mal formada, gente capaz de tudo. Acredito que, se fosse ao contrário, Pinto da Costa mandaria fazer aquilo que Luis Filipe Vieira mandou fazer.
E é também por isso que dou pouca importância a todos aqueles que, um pouco por todo o lado, até no Aventar, vêm acusar o clube contrário de tudo e mais alguma coisa sem olharem para o próprio espelho, como se houvesse justificação para o que foi feito Domingo na Luz ou para episódios anteriores igualmente mesquinhos. Sei que se o apagão tivesse sido no Dragão e não na Luz a condenação geral teria sido muito maior, mas até isso compreendo. A imprensa vive das vendas e a maior parte dos adeptos é do Benfica.
E é também por isso que me orgulho de ter no Aventar benfiquistas como o Pedro Correia e o Fernando Nabais. Benfiquistas que vêem para além do próprio umbigo e que, apesar das divergências, percebem que, no mundo do futebol, não há anjos ou demónios, não há Deus ou o Diabo. Há gente do futebol, geralmente alienada e incapaz de ser imparcial. Há gente má. No FC do Porto, no SL Benfica e em todos os outros clubes.

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    Ricardo, nem mais. Uma lição de ‘fair-play’ que merece ser seguida por muitos. E, como sabes, sou um pobre belenense que sempre viu no futebol aquilo que aprovas. Gente boa e má existe em todos os clubes, mas sou dos que acreditam que os primeiros estão em maioria. Um abraço azul. Parabéns pelo título.

  2. Nightwish says:

    Se você compara os discursos de Vieira e Pinto da Costa, tenho pena. Uma coisa é chamar, directa ou indirectamente, corruptores e grunhos; outra é dizer que os primeiros se acham especiais mas estão cheios de comportamentos menos éticos e que não deviam receber tratamento especial por parte de comunicação social, organismos do futebol e membros do governo.
    Se você não vê, perdemos uma pessoa importante na luta contra a mediocridade provinciana que assola este país.

    Um abraço a todos os adeptos racionais.

  3. Óscar says:

    Concordo no essencial.
    Há, no entanto, alguns buracos negros no raciocínio, que minam todo o romantismo pulvilhado no texto.
    O autor escreve: “Agradeço a Pinto da Costa tudo o que fez pelo FC do Porto, mas, acreditem, condeno veementemente certas práticas e o tipo de retórica que continua a utilizar”. Serão essas práticas condenáveis desassociáveis das conquistas?
    Como admite: “há um benfiquinha capaz de imitar o pior de um portinho que, infelzimente, também existe”. Isto leva-nos à conclusão que o originador do actual clima que se vive no futebol português é o FCP. Será mais condenável o SLB porque tenta responder na mesma moeda?

    Quer-me parecer que aquando da vitória do SLB no Dragão, o FCP também ligou o sistema de rega. Não me lembro de ler o mar de filósofos em que agora nado. A não ser que se queira discutir qual das atitudes é mais anti fair-play – parece-me uma falsidade.
    Admiro a sua capacidade de ver as coisas em perspectiva, mas omite raciocínios, ainda que desculpável visto tratar-se de futebol.

    Cresci com esses discurso e atitudes do FCP que refere e a logo de seguida a ouvir:
    “Não ligues. É o Porto.”

    Agora digo eu: “Não liguem, é a vida”.


  4. Caro Ricardo,

    Peço desculpa, mas chama-se, a isto, chover no molhado.
    O F C do Porto ganhou, ponto final, parágrafo, e siga o cortejo. Não adianta saber quem se porta pior, porque, até às eleições, de acordo com apaniguados e, até, seus dirigentes, quem se portava melhor era o Sporting. Conclui-se, então, que o melhor é Pinto da Costa, pelas melhores e pelas piores razões.

    Pelas melhores, porque, quer queiram, quer não, é o que mais percebe do seu ofício; o que melhor tem sabido e conseguido dirigir, em Portugal, os destinos de um clube, na medida em que não é apenas a nível nacional que que as vitórias têm acontecido.

    Pelas piores razões, porque não gosto de muitos dos seus discursos; e, pior ainda, porque não vejo que tenha necessidade disso. O que sabe, enquanto presidente de clube, é suficiente para fazer o seu trabalho e esquecer a paisagem… É difícil? Se não é, tem parecido.

    Quanto a contabilizar os equívocos e os momentos de cada presidente e, por inerência, de cada clube… acho que não vale a pena. Digo apenas, para não parecer suspeito, que Portugal foi ao Europeu de França, em 1984, mercê de um penalty que nunca existiu, por ter sido uma falta cometida sobre o Chalana, em jogo disputado com a antiga Rússia… Como se comportou a assistência?… Exultou e quis, simplesmente, que Portugal fosse apurado.

    No célebre Portugal-França ou França-Portugal, em que Portugal foi eliminado por causa de uma mão do Abel Xavier… a discussão foi interminável. Tinha sido um roubo tremendo, porque quiseram que fôsse a França a passar… Ao fim destes anos, foi assumido aquilo que todos os que viam viram: foi penalty; Portugal foi bem eliminado.

    Ontem, passados poucos minutos de se ter iniciado o jogo, um jogador do Tottenham, sem tocar no do Real Madrid, foi expulso. Mourinho, que costuma queixar-se de tudo de todos; que acha que os árbitros devem favorecer o eswpectáculo e não expulsar de qualquer modo… ficou mudo. Pelo sim, pelo não, ficava a jogar com mais um, e numa época em que, com algum azar, fica sem ganhar nada.

    Verdade desportiva, o tanas, porque o que importa é ganhar. Aqui, na China ou no Cazaquistão.

    É esta a filosofia que prevalece. Se nos prejudicam, são uns ladrões; se nos beneficiam… Bem!, o homem não pode ver tudo, e errar é humano. Nós é que temos a possibilidade de ver as repetições; o homem tem só uns segundos para decidir… Isto é o quê?… Caro Ricardo? Acha que vale a pena demorar sobre o tema?… Acha que vale a pena falarmos sobre a qualidade dos comportamentos desportivos, se o País, ele próprio, em todas as áreas e em todos os momentos, vive do xico-espertismo?.

    No fundo, no fundo, poder-se-á dizer quer Pinto da Costa é o Xico mais esperto, por encarnar o que a esmagadora maioria dos adeptos dos outros clubes quereriam ter. Não por ser elegante; não por ser impoluto; não por ser ou não ser bom chefe de família; não por nada, por mais nada… simplesmente por lhes parecer que ganhariam mais vezes.

    É por isso que quando lhes parece que, aos seus clubes, chega alguém que lhe parece um Pinto da Costa, a esperança renasce, por lhes parecer que, agora sim, terão alguém que conhece e domina o “bas-fond”.

    Sabe de onde vieram os problemas de Vale e Azevedo? De, diz-se, ter roubado o Benfica. Um homem que, comprovadamente, era um vigário, nunca teve problermas… Até ao dia em que roubou, diz-se, o Benfica. Sabe quanta gente, da que odeia o Pinto da Costa, o apoiou; faz ideia até onde estariam dispostos a ir, por lhes parecer ser o único capaz de fazer frente ao “homem”?…

    Pela parte que me toca, só quero ver os jogos. Eu já sei, Caro Ricardo —e, já agora, todos os outros comentadores—, que não há fortuna nem império sem vítimas nos alicerces. E vou acabar dizendo, que há apenas três tipos de pessoas: as corruptas activas; as corruptas passivas, e as que não têm alternativa.

    Se isto os chocar, proponho que reflictam. O momento que se vive, no País, aliás, é propício.


  5. Peço desculpa, a falta sobre o Chalana , foi cometida bastante fora da grande-área.

  6. A. Pedro says:

    Pela parte que me toca, obrigado. E sim, há fanáticos de ambos os lados e não podem ouvir uma opinião crítica ou um apontar o dedo sem se coçarem. Paciência.


  7. Ricardo Pinto,

    Parabéns pela sua lucidez! É de facto um texto que poderia ser lido a todos os (des)portistas. Eu, admito, não conseguiria ser tão imparcial, também por isso – e alguns comentários assim o demonstram, – vai gerar alguns pruridos, principalmente dentro do próprio “Aventar”… Como diz o senhor Óscar, “não ligue, é a vida”.

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