Artigo de Pezarat Correia censurado pelo DN

Os jornais do amigo Oliveira censuram, republica-se. Como diz o Tiago Mota Saraiva, assim até tem mais leitores. Ainda por cima relembra um facto muito esquecido. Não o de que Paulo Portas mente no exercício da sua actividade política, isso toda a gente sabe, mas a invasão do Iraque, este tempo todo depois, bem necessita de ser relembrada.

PAULO PORTAS MINISTRO?

Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas.
Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SICNotícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro. Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi.
Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído.

Junho de 2011-06-13
PEDRO DE PEZARAT CORREIA

Comments

  1. julia says:

    Onde estão os cidadãos, amantes da sua Pátria?
    Não conheço o P. Portas, assim como o .Senhor .Abomino as “queixinhas” fora de tempo…Que vos leva a fazê-lo?
    Neste momento há uma grande provação para os MENOS, deste País e brincam às casinhas, como Miúdos!…
    As forças armadas também não foram anjinhos, para trazer assuntos que nada, têm prioridade, neste momento…Eu vivi e convivi em Angola no tempo da guerra colonial…Nós,(Eu, PORTAS e o Senhor), no entanto, não poderemos voltar ao passado, para fazermos um novo começo; podemos recomeçar agora, e fazer um novo FIM : contribuir para a nossa democracia ser um esteio para todos nós.
    Temo que os cidadãos percam o sentido das proporções e dos valores e deixem de compreender o significado da vida.Caro SENHOR, o que caracteriza a decadência é a incapacidade dos nossos homens.
    Até amanhã! Até sempre!
    Júlia Príncipe

    • Rodrigo Costa says:

      .. É a incapacidade dos nossos homens, das nossas mulheres e dos e das que, sendo, não são uma coisa nem outra e engrossam e aceleram essa mesma decadãncia —confio, de facto, no sentido da Vida, porque acho que é Ela que vai colocar tudo no seu sítio. A bem ou… a mal. E acho que poderemos dizer… até já!

  2. Mais um artigo dos donos do 25 de abril…

  3. Fernando says:

    Seguindo o mesmo principio relatado na carta de Pezarate Correia, também Vítor Constâncio não devia ocupar o cargo de Vice no BCE. Porque?
    Porque foi um desleixado que permitiu deixar a banca portuguesa viver e actuar anarquicamente. Com resultados que hoje se sabe.
    Quero com isto dizer, que todos nos temos defeitos e virtudes. No momento que Portugal atravessa devemos conceder o beneficio da “reabilitação”.

    • Acácio Martins says:

      Não concordo! Andamos a dar esse beneficio há 37 anos!

    • José Laranjo says:

      Uma das virtudes é, respeitar respeitar as regras de dar contas certas no tempo certo e a verdade é, que há muitos que não se lhe conhece uma única atitude virtuosa, ates pelo contrario, fascistas e vigaristas, tão vigaristas que conseguem passar por vitimas e ter quem os defenda.

  4. a.marques says:

    Tem prazo para prescrição o direito à indignaçâo?

  5. Eis um valor, caro Pezarat, a preservar: a defesa direta dos interesses nacionais em crise face a outros interesses:
    Lembra-se da crise Galega? Portas, o homem de nervos de aço, a Ministro dos Negócios Estrangeiros.
    http://supraciliar.blogspot.com/2011/06/portas-ministro-o-homem-de-nervos-de.html

    • Acácio Martins says:

      Meu caro, confesso que partilho a sua opinião. Mas temos de admitir que faria menos estragos colocar um elefante bebé à solta numa loja da Vista Alegre do que Paulo Portas a Ministro dos Negócios Estrangeiros…
      A defesa dos interesses de Portugal têm de ser feitas por pessoas com coragem. Sem medo de olhar a Imperatriz Merkel (ou outro tiranete como Sarkozy) nos olhos. Sejam eles do PP ou do PCP (dou o exemplo do PCP como podia dar o BE ou de outro partido qualquer…apenas por ser o outro extremo da A.R.). Portugal está demasiado dependente de capital estrangeiro para sobreviver. Os nossos empresários aplaudem a redução da taxa social unica, mas deveriam fazer força para, por exemplo, implementarem com a ajuda do Estado, uma política de regulação das tarifas de energia, que provavelmente sairia mais barata e poderia ser bem mais eficaz…Falam do excesso de Estado mas são muitissimo dependentes dele! Paradoxal, não?

  6. Rodrigo Costa says:

    Caro joão José Cardoso,

    Se se recordar, se ouviu falar de…, perceberá a comparação feita com o homem do FMI. Com uma nuance, a de sentido oposto —já terá, com certeza, ouvido falar da “Caterine Deneuve” e do Parque Eduardo VII… O sexo é bom, mas pode ser uma chatice, quando ele toma conta de todo o cérebro e lhe ocupa todas as ideias…

  7. Rodrigo Costa says:

    Já agora, acrescento outro episódio —este, presenciado através da televisão—, com a Maria José Nogueira Pinto, dirigindo-se a Paulo Portas, dizendo ” Você sabe que eu sei que você sabe que eu sei…”, a propósito da hipotética reedição da AD, quando o Prof. Marcelo era o responsável-maior do PSD; Maria josé Nogueira Pinto serviu-se de uma realidade para construir uma alegoria —o que pode saber-se, e o que pode influenciar os destinos de pessoas e de paises!…

  8. Mas o Savimbi não foi assassinado?

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