A Festa dos Tabuleiros em Tomar. 3 – A actualidade


continuação daqui

Actualmente, a Festa dos Tabuleiros continua a ser a mais importante tradição de Tomar, agora a cargo da Câmara Municipal. Realiza-se de quatro em quatro anos durante o mês de Julho. O desfile continua a percorrer as ruas, com as raparigas a transportarem tabuleiros carregados de flores e de pão, tal como acontece desde o início do século.
Tudo começa no domingo de Páscoa, com a Procissão das Coroas. Tem como objectivo anunciar a grande festa que aí vem. As coroas saem em procissão, com os pendões do Espírito Santo e os de todas as freguesias, as autoridades municipais a carregar e o povo a assistir.
Na sexta-feira anterior ao cortejo, realiza-se o cortejo do mordomo, composto por carruagens, cavaleiros e pelo gado (bois), que no passado era abatido. As ruas já estão todas ornamentadas. É o primeiro de quatro dias de folia.
No dia seguinte, sábado, realizam-se os jogos populares, uma velha tradição que já remonta às festas do século XIX. A subida do pau, o rolar da pipa, a serração do tronco, o carregamento do cântaro ou a quebra da bilha são algumas das provas, que contam com a participação de pessoas de todas as freguesias.
Chega então o domingo. Ao longo dos meses, fizeram-se todos os preparativos para que tudo estivesse pronto a horas. Confeccionaram-se manualmente milhares de flores de papel, pensaram-se as decorações das ruas, «construíram-se» com carinho os tabuleiros. A decoração de cada rua conta com a participação dos seus moradores, que, num trabalho de grande dedicação e paciência, chegam ao ponto de aplicar as flores, uma a uma, nos fios colocados ao longo da cidade. A rua Aurora Macedo, por exemplo, só na parte de cima «gastou» em determinado ano cerca de 43 mil flores de papel.
O dia começa com a fanfarra de bombos, gaitas e foguetes e, em seguida, com o Pendão do Espírito Santo, as três coroas dos imperadores e reis e os pendões e coroas das freguesias.
Quanto ao desfile, é composto por mais de 500 raparigas, vestidas de branco com uma faixa colorida a tiracolo e na cinta. A blusa vai justa ao corpo, as mangas compridas. A saia, rodada com um ou mais folhos, cai até ao tornozelo e deixa ver a meia rendada. Em cima da cabeça, levam uma rodilha, de onde caem duas fitas vermelhas, para ajudar a segurar o tabuleiro, que deverá ter sensivelmente a sua altura. Na mão, um lenço branco que durante o desfile colocam dentro do cesto. Vão em fila dupla, acompanhadas por um rapaz vestido impecavelmente, que tem como única função ajudar a levantar e a baixar o tabuleiro.
Este arma-se sobre um cesto de verga ou vime, com cinco ou seis canas que se espetam no seu encanastrado. Em cada cana, cinco ou seis pães furados no sentido longitudinal, para que no total cada tabuleiro transporte trinta pães de 400 gramas cada. Pequenas canas cruzam o tabuleiro de pão em pão para assegurar a firmeza da estrutura. No alto das canas, coloca-se a coroa, atada com arame ou cordéis; no topo, uma pomba branca que simboliza o Espírito Santo, ou então uma cruz de Cristo. Os enfeites do tabuleiro são constituídos por flores de papel, espigas de trigo e plantas verdes.
Desfilam, lentamente, as raparigas, pelas ruas da cidade, numa distância próxima dos cinco quilómetros, ao som da música. Dos lados, a populaça vai atirando pétalas de flores. Terminam o desfile na praça da República, viradas para a igreja de S. João em colunas paralelas e colocando os tabuleiros no chão. O bispo de Santarém benze os tabuleiros (como se benzesse o pão enquanto fruto do trabalho do Homem e da fertilidade da terra), um foguete estreleja no ar, os sinos tocam na igreja. É altura de as raparigas voltarem a pegar nos tabuleiros de uma só vez, ainda e sempre com a ajuda dos rapazes, perante os aplausos finais da multidão.
«E à terceira badalada explode o mundo. Sobem à uma todos os Tabuleiros, ouve-se um restolhar imenso de vestidos, saltam as palmas presas nas mãos, gritam as vozes contidas nas gargantas, jorram as lágrimas há quatro anos represadas. E as pombas, sossegando o voo, escoltam por momentos as suas irmãs de metal, brancas e refulgentes, que, até aí inquietadas no topo das Coroas de cada Tabuleiro, parecem agora querer voar também.» (Carlos Trincão)
No dia seguinte, segunda-feira, realiza-se a peza. Distribui-se o bodo – pão, carne e vinho – de forma simbólica, pois é impossível assegurar a sua distribuição em toda a cidade e concelho.
É a memória de muitas vivências, de contrastes inúmeros, todos eles reunidos numa só festa, num ritual entre o Homem e Deus. Felizmente, tem sido possível manter uma tradição que, ano após ano, traz milhares de pessoas a Tomar. Ou se calhar é por isso mesmo, por trazer tanta gente a Tomar é que continua com a pujança de sempre.
Fazendo concessões ao turismo, obviamente, porque nem poderia ser de outra forma nestes tempos em que a voragem dos dias tudo altera. Por exemplo, os trajes usados pelas raparigas e as roupas dos seus acompanhantes não eram uniformes, cada uma usava a roupa que bem entendia. Do ponto de vista cénico, a uniformização do vestuário torna a festa muito mais rica e, indubitavelmente, muito mais bonita. Quanto aos tabuleiros, variavam conforme a promessa feita, conforme a altura da rapariga ou conforme a «vaidade» de quem o transportava.
Há ainda quem critique, em Tomar, a alteração das práticas tradicionais e do dia do cortejo principal que, segundo alguns, devia seguir as normas e realizar-se no domingo de Pentecostes.
No entanto, a História vai-se fazendo de acordo com a vontade do seu principal agente, autor e actor, causa e consequência de tudo – o próprio Homem. E se será possível discutir o porquê de determinadas tradições, o sentido que faz o cumprimento ou não de práticas milenares, um aspecto, por sagrado, não pode ser nunca posto em causa: a vontade do povo.
Aconteceu por mais do que uma vez na história da Festa dos Tabuleiros. O povo não quis, a festa não se realizou. Preferia que fosse no ano seguinte, não naquele – cumpriu–se o seu desejo. Por uma razão ou por outra, o cortejo principal foi-se fixando num dos primeiros domingos de Julho. Se foi um processo natural, se nada foi imposto, até porque os tomarenses não deixavam, então está tudo bem.
Uma das queixas foi relativa às faixas coloridas que as raparigas vestem. Disseram que não é tradição. Enganaram-se. É tradição, sim. Se é uso há mais de cinquenta anos, então o uso transformou-se em tradição. Para além de tudo, é muito mais bonito.
Na freguesia de Carregueiros, se calhar por ser terra mais pequena, a Festa dos Tabuleiros mantém ainda muitas das suas características genuínas, preservadas desde há séculos. A festa é feita sempre à porta do juiz novo, por mais recôndita que seja a sua morada; o juiz tem de ser casado e laico (forma de contra-poder em relação ao clero); os tabuleiros são ornamentados com flores naturais e podem variar no que diz respeito à altura, ao número de fiadas ou aos pães transportados; o pão, no fim, é distribuído pela população.
Paialvo, S. Pedro, Olalhas e Junceira, pelo menos, tiveram também a sua própria festa. Em Alviobeira, a fogaça era depositada no altar da igreja. Antes da missa, procedia-se à recolha dos tabuleiros e das oferendas.
A Entrega da Coroa, em Carregueiros, realiza-se na segunda-feira a seguir à Festa dos Tabuleiros. A coroa de prata, estampada, batida e trabalhada, é provavelmente uma das mais antigas do mundo e uma das que possui a simbologia completa. O juiz do ano anterior entrega a coroa ao novo juiz, a meio caminho entre as suas casas. Quando se encontram, deitam-se foguetes e abraçam-se. Toda a população vai então para a casa do novo juiz, que oferece vinho e tremoços a todos. Oficializada a entrega da coroa, os dois juizes devem-se beijar. O novo juiz é coroado na «casa da coroa», compartimento preparado para o efeito. É uma festa cuja realização nunca foi interrompida ao longo dos anos.
Dissemos anteriormente que a Festa dos Tabuleiros derivou do culto do Espírito Santo. Um culto imemorial, do qual não faltam vestígios no concelho de Tomar.
O Espírito Santo celebra-se 50 dias depois da Páscoa. É a festa do Pentecostes para os Cristãos, dos Tabernáculos para os Judeus.
Esta festividade ter-se-á iniciado antes ainda de 1280, de acordo com o Compromisso do Espírito Santo de Benavente. A rápida disseminação deste culto por todo o país deveu-se sobretudo à devoção popular, com o seu apogeu a fazer-se sentir entre o século XIV e a primeira metade do século XVI.
A principal cerimónia da Função, Folia ou Império consistia na coroação com três coroas do Menino Imperador assessorado por dois reis, um de idade avançada e outro de meia idade. Temos assim o Espírito Santo, o Filho e o Pai. O Menino empunhava o ceptro, recebia as homenagens do povo e das autoridades e terminava servindo um bodo a todos os participantes na festa, fosse qual fosse a sua condição social. Esse bodo era constituído pela carne dos bois previamente corridos, pão, vinho e arroz doce. Como se vê, as semelhanças em relação aos Tabuleiros são muitas.

Comments

  1. Bruno Santos says:

    O culto do Espírito Santo, em Portugal, foi introduzido, de forma organizada, no contexto daquilo que é conhecido por “Projecto Áureo” português, cujos principais representantes e iniciadores foram o Rei D. Dinis e a Rainha Santa Isabel. O culto insere-se numa linha de pensamento – chamemos-lhe assim – simultaneamente Espiritual e Política (ou Operativa), cuja origem talvez não seja possível determinar no tempo nem no espaço, mas que teve num abade calabrês chamado Joaquim de Fiore (Século XII) o principal apologista e impulsionador. As suas ideias assentavam numa particular visão Teológica e Escatológica do mundo e estão, de certa maneira, descritas no mais importante Livro da tradição espiritual do Ocidente – o Evangelho de João. Joaquim de Fiore dizia que havia três idades do Mundo. A do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo, identificável com a Jerusalém Celeste e com o que mais tarde viria a ser conhecido, entre os portugueses, por Quinto Império, o Império do Espírito Santo.
    Fiore foi bem recebido na corte de Aragão, por onde já andava, na altura, Arnaldo Villanova, um conhecido Alquimista da linha de Raimundo Lúlio, que exerceu uma grande influência sobre a formação daquela que viria a ficar conhecida pelo Milagre das Rosas.
    Isabel e Dinis (nascido no dia de S. Dionísio) instituem as Festas do Espírito Santo como sustentáculo espiritual do Projecto Áureo português e de uma Païdeia Dionisíaca cujo fim escatológico (e Político) é o da Fraternidade Universal. Este projecto teve – e tem – diversos “actores”, actuantes quer no plano material, quer em planos subtis, entre os quais se contam a Ordem dos Franciscanos, a Ordem do Templo, a Ordem de Cristo, algumas escolas da Rosacruz e até certas franjas da Maçonaria. Entre outros. Por que disse “planos subtis”? Entre outras razões, porque a palavra “Tomar”, por exemplo, é composta por dois sons vocálicos, Tho e Mar, usados por certas “escolas de mistérios”, nomeadamente da Tradição Rosacruz, e entoadas numa determinada frequência vibratória, para produzir um determinado efeito.
    Este tema é o centro da Alma Portuguesa.
    Está sol, lá fora.
    Parabéns, Ricardo, por este trabalho.