ruralidades

O título não é meu. Pertence a uma equipa de intelectuais  que criou um espaço de debate, para debater a crise económica e política que nos afecta. Como a toda a Europa, excepto aos países precavidos que sabem investir o seu dinheiro em bens que rendem lucro.

Temos herdado, desde os tempos em que o nosso país entrou na então Comunidade Europeia, um deficit de moeda para investir, lucrar e obter mais-valia dos bens que o nosso mercado pode criar e vender. No entanto, Portugal foi sempre um país pobre. Em 1984, foi aceite na União Europeia, o dinheiro que entrou foi usado em construção de estradas, que não havia, em melhorar as comunicações dentro do país, modernizar os paços mais antigos, para servir de habitação de férias de Verão para que cidadãos de outros países visitassem a nossa Nação. Nação que tem tido como a sua melhor riqueza, essa rica geografia da que foi dotada na criação do mundo, com casas lindas nascidas do imaginário fértil da mente lusa.

O dinheiro esgotou-se. Ficamos pobres para investimentos. Começou uma crise económica por falta de produção de bens que criam lucros, como foi ensinado por Adam Smith em 1776, ou David Ricardo em 1817, ou Marx em 1862. A lição não foi aprendida, menos ainda para ser usada em estaleiros, fábricas, indústrias para construir carros, expandir a indústria do calçado e da cortiça dos sobreiros nascidos em imensos hectares no Alentejo, cortiças que, exportadas, são uma mercadoria que enriquece o proprietário da terra e ao Estado por meio dos impostos.

Este tráfego de vender bens naturais e, em troca, receber garrafas para guardar o vinho que Portugal produz em abundância, especialmente o do Norte, o vinho do Porto, produto luso, procurado por países que o desejam para os seus rituais ou para beber em jantares públicos ou privadamente em casa.

Assim foi como passamos a ser um país de pedintes: o Primeiro-ministro do nosso governo viaja em classe económica, para demonstrar que os transportes comuns, não diminuem nem a importância do cargo nem os trabalhos que o cargo impõe. Conhecendo a ideologia do governo de turno, parece-me que este andar a pé como todos, é uma lição para outros políticos da sua ideologia ou para ser imitado pelos dos outros partidos que formam a Assembleia da nossa soberania. O entusiasmo da vitória, do convénio com outro partido para governar com maioria absoluta, incitou a que os parceiros do governo imitassem esta facto e começassem a andar de bicicletas, em motorizadas (Paulo Portas) ou a pé. Como já se faz  durante largos anos em outros países da Europa do Norte. A Rainha Beatriz da Holanda percorre a cidade em bicicleta, excepto para cerimónias oficiais e rituais. Ou a nova modalidade adoptada pela Rainha da Grã-Bretanha, que faz as compras de casa, acompanhada por membros da família ou empregados. Entenda-se bem que não estou a louvar, apenas avaliar um comportamento que pode ser produto de vitórias politicas ou exemplo para animar a plebe.

Plebe que andou em transporte públicos desde sempre, especialmente em época de crise, teve de procurar uma outra alternativa para a sobrevivência: hortas dentro da cidade, como forma de semear e comer o produto da sua actividade. A horta citadina tem passado a ser um meio de poupança e de defesa do consumidor.

Eis porque denomino este texto ruralidades: o campo teve que entrar na cidade para colaborar a sair da crise que nos afecta desde 1984. As Rainhas podem andar como entendam, é apenas um gesto de prazer. Os pobres não, precisam das suas hortas, cuidadas pela parte da família que não tem trabalho por falta de emprego. Uma parte da casa trás o dinheiro para o investimento nas hortas citadinas; a outra, as trabalha. É apenas a pobreza que nos ataca, e nós povo sabemos defender-nos bem.

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