A verdade é uma coisa que não lhes assiste

O novo director do I, António Ribeiro Ferreira, esse grande admirador da arguida Maria de Lurdes Rodrigues, já meteu uma das suas marcas pessoais no jornal: o ódio ao funcionário público.

Serventes seleccionadas para o efeito, Katia Catulo e Liliana Valente têm feito um bom esforço. Primeiro aldrabaram os vencimentos, pegando numa amostra não aleatória e comparando com o salário médio nacional do privado,* sem terem em conta funções e habilitações, por exemplo. Se fossem honestas, googlavam o assunto, e descobriam como Eugénio Rosa já demonstrou o óbvio:

Não podemos separar os salários das qualificações. E o nível de escolaridade da administração pública é muito superior. O salário médio tem de ser superior porque a percentagem de trabalhadores com o ensino superior é cinco vezes superior ao do privado.

isto referindo-se a um “estudo” do Banco de Portugal em tempos de socretismo plantado por Constâncio nos jornais, mas onde até se reconhecia “que se a análise fosse feita por categorias se verificaria uma penalização salarial dos trabalhadores da administração pública.”

Hoje foram ao absentismo, usando a mesma “amostra”. Imaginação não falta na cabecinha das duas serviçais: os trabalhadores da função pública faltam 18 dias por ano, o que começa por incluir as licenças de maternidade e paternidade, suponho que no privado já ninguém faz filhos, e como o delírio não tem limites contabiliza-se alguém que teve 365 faltas injustificadas num ano, espero que tenha sido num bissexto.  Contabilizam igualmente baixas por doença prolongada, de quem aguarda uma reforma por doença (é normal morrer-se antes, mas espero que a ausência ao serviço em virtude de se ter falecido não tenha sido usada para chegar aos tais 18 dias). Pormenor curioso: desta vez omite-se a comparação com o sector privado. Porque será?

No fundo, tendo em conta o panorama do I, com ameaças de despedimentos e reduções salariais, temos de ter alguma compreensão pela esforço das senhoras. Só espero que não sejam obrigadas a passar às escutas para não perderem o emprego.

*Curioso: as serviçais usam um número, 884, que é superior ao do INE para público e privado, 813 euros. Ou seja: a média dos salários no privado seria assim superior à média de todos os salários. Deve haver aqui qualquer coisa que me escapa.

Comments

  1. João Carlos says:

    Está bem, abelha. O privado está farto de pagar o público. A teta secou, acabou! Não há mais, é só isso! E agora, o que fazer? Deixar de mamar e… trabalhar.
    🙂


    • Grande comentário, muito bem argumentado. Não tenho nada a ver com isso, mas dada a sua obsessão contra os funcionários públicos, recomendava-lhe um médico, privado, é claro.


  2. Olá amigo tenho uma proposta de patrocinio para o seu blog. Caso se interesse entre em contato comigo por e-mail; phbrito@windowslive.com

    Atenciosamente,
    Pedro Brito.

  3. José Pinto Sousa says:

    Comentário cáustico o do post, mas fundamentado. Não são muitos os contraditórios, e alguns dizem-nos do nível vigente, que atola o país.
    Quanto ao essencial, que é a posição de “jornalistas”, não me admiram as escutas. E também os despedimentos. Os chefes usualmente são muito zelosos, e quando se apercebem dos desvios, toca de fechar jornais.
    São como os “senhores” da têxtil. Levam as máquinas, e abrem a fábrica noutro lado. Haverá sempre “jornalistas”…