Do Pecado

Bosch.

Hieronymus Bosch. H.á um livro de uma jornalista espanhola, a casa dos sete pecados, um romance histórico sobre o pecado, desejo, morte, traição. Bosch aparece por razões evidentes. Segundo o protagonista, Felipe II, “Ninguém melhor que ele sabe plasmar numa imagem a verdadeira essência da redenção dos homens”. Eu diria mais. Ninguém melhor que ele sabe plasmar a verdadeira decadência humana. Não se enganem, os quadros de Bosch têm pouco a ver com o Renascentismo. São quadros da Idade Média combinados com as novas técnicas do Renascimento.

A exposição que está no Museu de Arte Antiga contém três trípticos aos quais, num momento de inspiração, os responsáveis pela exposição deram o nome de “Bosch e o seu círculo”. São eles as tentações de Santo Antão, o tríptico do Juízo Final e as tribulações de Job. No panfleto de apresentação mais uma vez nos aparece Felipe II que era um “coleccionador devoto e compulsivo do pintor”. As razões do seu fascínio, segundo o texto, são as mesmas que hoje impressionam os visitantes do museu do Prado. Eu discordo. Felipe sentia-se atraído pelos quadros de Bosch porque provavelmente reconheceria nesses quadros a tal decadência humana que ele veria espelhado nos outros e em si mesmo. Olharia para os quadros com medo. Hoje em dia, o pecado tornou-se um atractivo. E porque não seria? A própria ideia do proibido chama-nos a atenção. Bosch percebia o pecado e a maneira de fugir dele (através uma vida de reclusão) e eu penso que nós deixámos de ver o pecado como algo mau. Perdeu a sua universalidade e transformou-se em características pessoais. Tornou-se apenas algo inevitável. E eu diria quase abstracto. Perdemos a noção do que é verdadeiramente o pecado e ele transforma-se em conceitos que exercem uma atracção sobre nós. Nesta última não estamos tão diferentes do que acontecia há 500 anos. Bocsh contudo torna-o universal. Mas de uma certa maneira torna-o também facultativo. Ou seja, todos pecamos, é certo. Mas existem formas de redenção, de salvação.

Se olharmos durante muito tempo para um quadro de Bocsh percebemos rapidamente o fascínio. Percebemos porque razão Felipe tinha os seus quadros no próprio quarto. Há um elemento quase surrealista nos quadros que nos chama para eles. As imagens são grotescas e parecem todas saídas de sonhos. Mas na realidade, saem dos medos do homem medieval. Também os quadros de Bocsh me fascinam. A destruição, a decadência humana, o medo, está lá tudo espelhado. E o pecado. O pecado e os seus resultados em todas as formas possíveis. E impressiona. Porque afinal quem nunca pecou?

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