Eurobonds – Ja, natürlich / Não por favor!

Estamos a fazer o nosso caminho. O guião das entidades financiadoras está a ser percorrido à nossa maneira.

Mais medidas de aumento da receita foram anunciadas, mais medidas de cortes de despesa serão anunciadas nos próximos dias, uma maior flexibilização do mercado laboral já foi aprovado, as privatizações estão em marcha e foi aprovado um aumento de 15% dos transportes públicos nas Cidades de Lisboa e Porto. Apesar disso, e por causa da contaminação da crise à Espanha e sobretudo à Itália, pedem-se medidas adicionais desta vez ao nível político europeu.

Assim chegamos ao coro de vozes dos que clamam pelas salvadoras Eurobonds que, qual D. Sebastião, nos salvariam de mais medidas de austeridade e nos aliviariam do peso insuportável dos juros da dívida. Não partilho desta opinião. A austeridade é indispensável e inescapável. Não é com uma maior centralização na União Europeia que os problemas dos portugueses vão ser resolvidos. Parece-me até que foi um seguidismo amorfo das directrizes europeias que explica parte dos nossos problemas actuais.

A emissão de dívida Europeia com as suas consequentes imposições federalistas vai retirar ao governo uma das últimas ferramentas de política económica que ainda hoje tem: o controlo da política fiscal. Esta possível e óptima solução de curto prazo não é, na minha opinião, sustentável a longo prazo. Esta solução faz-me lembrar aquela estória do estar à beira do abismo e dar passo em frente…

Parece-me que este é um plano que, na teoria, está muito bem gizado mas não terá o apoio do eleitorado nos próximos sufrágios. Mesmo que este plano seja implementado será sempre uma solução transitória pois as regras do sistema democrático vão funcionar. Mesmo que não sejam os eleitores portugueses a rejeitar mais medidas de austeridade e mais directivas do centro da europa, serão os alemães a recusar pagar os sucessivos erros dos países periféricos. Ainda bem.

As decisões de abandono do sistema industrial, as medidas implementadas relacionadas com a PAC, o desinvestimento no sector das pescas e o foco nos bens não transaccionáveis foram incentivadas pela Europa e, de facto, favoreceram algumas economias e prejudicaram quem, como Portugal, as aceitou tomar. Não vejo razões para ser diferente desta vez. O meu ponto não é desculpar quem tomou as decisões internamente, pelo contrário, estou a dizer que desta vez temos de fazer diferente.

Desde que abraçamos o projecto europeu, fomos seduzidos pelos investimentos nas infra-estruturas, nos telemóveis e nos Mercedes. Desta vez o sufoco da dívida parece não nos deixar alternativa a mais um aprofundamento da União.

Temos de pensar pela nossa cabeça e tomar em mãos, na medida do possível, o nosso futuro. Não vejo nesta gigantesca e burocrática estrutura da União Europeia uma maior capacidade para decidir o nosso caminho do que nas estruturas nacionais. Aliás, a incapacidade e inoperância das estruturas da EU foram bem visíveis ao longo deste tempo todo. Foram as diversas instituições europeias que nos iam dando reforço positivo e reiterando confiança ano após ano, orçamento atrás de orçamento, auto-estrada atrás de auto-estrada. Foram eles que continuaram com orçamentos faustuosos e sem crise. Que continuam de uma forma paternalista a aconselhar e orientar.

O projecto europeu está em perigo e é nestas crises que normalmente se fecham os olhos se colocam todas as fichas numa solução. Espero que não se vá all-in porque aí os custos de voltar atrás poderão ser desastrosos para todos nós.

Convidado: Mordaça

Comments


  1. E convém não esquecer que todo este problema deriva não dos estados, mas sim da super alavancagem do sistema financeiro. Os Eurobonds serviriam para imprimir muito dinheiro e alimentar esse sistema financeiro (tipo economia D. Branca), e as consequências são fáceis de imaginar.

    Antes de mais nada temos de desalavancar o sistema financeiro. Deixem os bancos ir à falência. Usem o crédito e capital das nações para sustentar a verdadeira economia (que para os esquecidos é, e sempre foi, aquela que produz coisas, bens tangíveis). Se assim não procedermos, vamos à falência na mesma, só que muito mais devagar e dolorosamente.

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