Grécia: referendar a crise, ou como constipar os mercados

O anúncio de um referendo à “ajuda” europeia parece que deixou os mercados em pânico. Pudera: a dita ajuda destinava-se aos bancos credores, perante a óbvia conclusão que austeridade dá recessão, e com recessão ninguém paga dívidas.

Não sendo fácil de entender o que está por detrás deste referendo (já agora, convém lembrar que o PS lá do sítio está no governo depois do rebentar da crise, alternando com o PSD/PP respectivo, numa demonstração óbvia de que antes ou depois os pais das crises e sua continuidade são sempre os mesmos), é sintomático que um bocadinho de democracia assuste os mercados. Os mercados preferem tratar destas coisas com uns telefonemas franco-alemães, gente de confiança, banqueiros amigos no BCE, os mercados dão-se mal com a democracia, sempre foi assim, a democracia provoca correntes de ar e eles, coitados, constipam-se.

O facto de o governo ter mudado as chefias militares também não lhes caiu bem: já se dizia que o programa de austeridade só será aplicável com o regresso a uma ditadura militar, lá está, a tropa agasalha os mercados, e os neo-liberais gostam é do Pinochet, seu herói de eleição. Ainda por cima a Grécia é a melhor cliente de armamento militar da UE e há por aí umas fragatas e uns tanques para serem pagos.

Tenho as maiores dúvidas de que um referendo entre chantagens seja um acto tão democrático como isso e o mais provável é o governo cair entretanto, mas gostei muito deste bocadinho. De resto a solução mais rápida que nos pode calhar na rifa é o desmoronamento rápido da Europa dos banqueiros, esperar só nos fará sofrer inutilmente a caminho do final mais que anunciado: não vamos pagar, porque esta estratégia económica não visa tal coisa, e os maluqinhos dos mercados oscilam entre a ignorância, a burrice e a malfeitoria.

Por cá ainda não mudaram as chefias militares, mas as últimas sondagens explicam muito bem explicadinho que a malta não gosta de austeridade. De pagar os almoços dos outros. Uma chatice.

A coisa estava a correr tão bem: um chuveirinho de mentiras, com os duques e os medinas repetindo a mesma peta até o pessoal se convencer que tem de ser assim, não há alternativa, temos de pagar cumprindo a receita que nos impedirá de pagar, toca a reduzir aos salários a um nível asiático, de trabalhar à borla, criar o despedimento por mero arroto patronal, regressar ao séc XIX ou no nosso caso à saudosa década de 60 com a malta a emigrar e a mandar remessas, uma democracia um bocadinho mais musculada nos ginásios da comunicação social dominada por jornalistas analfabetos e a recibo verde, gente que deixa passar um ministro capaz de demonstrar no parlamento que fez História Económica num dia de ressaca, estava tudo a correr tão bem e chegam agora os gregos com a a loucura de votar decisões da Merkel para os seus banqueiros, onde é que já se viu?

Os partidos deste governo vieram cedo demais ao pote, e arriscam-se a que lhes caia a democracia em cima. É tão injusto, não é?

Z de Costa Gravas é um filme a ver/rever. No mínimo este final está a precisar de legendas em português. A ver se alguém trata disso…

Comments


  1. Não sei porquê, mas relaciono esta prosa com este achado que descobri hoje: http://www.avante.pt/pt/1978/argumentos/116792/ . Por falar em delírios, talvez.


    • Eu sei porquê: porque na ausência de argumentos insulta-se.
      Ao comparar-me com um tolo que cita os Protocolos de Sião como outra coisa que não seja um documento provocatório da polícia política do czar, insulta-me, e bastante.

  2. Carlos Fonseca says:

    O exercício democrático do referendo acentua o problema de fundo, que aflige o casal ‘Merkozy’ (gostei desta, hoje no Público) e que essencialmente é a falência do sistema bancário europeu. A prática política, convencional e ética, não coarta o direito à omissão de intenções até ao momento em que os agentes políticos entendam oportuno divulgá-las no interesse pelos princípios democráticos e no respeito pela vontade de um povo. Foi o que Papandreuo fez e os mercados, não os povos, tremeram.

  3. José Galhoz says:

    Apetece mesmo rever o “Z”. Quanto ao “projecto europeu”, com Merkozy ou com outros, estará sempre ao serviço dos países dominantes (e seus queridos banqueiros). Os restantes países deviam estar já a encarar um plano B, ou seja, preparar a saída do Euro, mediante condições. De facto, entre ficar para serem espremidos e esfolados e aguentar consequências semelhantes por conta própria, faça o diabo a escolha… A questão mais imediata é onde iremos arranjar forças para levar um qualquer governo a tomar tal decisão.

Trackbacks


  1. […] Z […]